Uma das áreas mais importantes para a vida no Ártico enfrenta sinais de instabilidade provocados pelas mudanças climáticas. Conhecida como North Water, Pikialasorsuaq ou Sarvarjuaq, “o lugar que nunca congela”, na língua dos inuítes de Nunavut, a região possui cerca de 85 mil quilômetros quadrados, uma área maior que a Áustria, e mantém uma extensa faixa de água aberta durante todo o ano.
O fenômeno é conhecido como polynya, uma área de mar que permanece sem cobertura de gelo mesmo em regiões onde as temperaturas são extremamente baixas. Essa característica transforma a North Water em um verdadeiro oásis no Ártico, sustentando uma complexa cadeia alimentar que envolve desde algas e plânctons até baleias, focas, morsas, ursos-polares e milhões de aves marinhas.
Pesquisas sobre a região, porém, indicam que a dinâmica do gelo está mudando. Análises de imagens de satélite de quatro décadas apontam para uma crescente instabilidade na localização e na duração das chamadas pontes de gelo, estruturas que bloqueiam o estreito de Nares e ajudam a manter as condições que favorecem a formação da polynya.

Região é essencial para baleias, ursos e aves
A existência de água aberta durante o inverno é fundamental para diferentes espécies do Ártico. As algas que se desenvolvem durante o verão formam a base de uma cadeia alimentar que sustenta diversos organismos da região.
A área também funciona como passagem e refúgio para animais de grande porte. Baleias dependem do acesso à superfície para respirar mesmo durante o inverno, enquanto focas e morsas atraem ursos-polares para a região. Ao mesmo tempo, milhões de aves marinhas chegam ao local ao longo dos anos, utilizando o ambiente para alimentação e reprodução.
A importância ecológica da North Water também está diretamente ligada às comunidades inuítes que vivem no extremo norte. A região fornece recursos fundamentais para populações que mantêm uma relação histórica com o ambiente marinho.
Por esse motivo, qualquer alteração permanente na dinâmica do gelo pode provocar consequências que vão além da perda de uma área de água aberta, afetando toda a cadeia ecológica e também os meios de subsistência das comunidades locais.
Pontes de gelo estão ficando menos estáveis
Um dos principais sinais de alerta está relacionado às pontes de gelo que se formam no estreito de Nares. Elas funcionam como uma espécie de barreira natural, bloqueando a passagem do gelo e contribuindo para a manutenção das condições da North Water.
A análise de imagens de satélite entre 1979 e 2019 mostrou uma redução na duração desse bloqueio. A tendência observada indica que o número de dias de obstrução do estreito caiu, em média, 2,1 dias por ano durante o período analisado.

Antes de 2007, as pontes de gelo bloquearam o estreito de Nares por aproximadamente 177 dias por ano, em média. Desde então, esse número caiu para cerca de 128 dias.
A redução da duração dessas estruturas contribui para a perda do gelo plurianual na bacia do Ártico, considerado um dos elementos mais importantes para a estabilidade do ecossistema polar.
Anos extremos já provocaram alterações no ecossistema
A instabilidade das pontes de gelo não é apenas uma tendência observada em décadas de imagens. Alguns anos apresentaram alterações particularmente marcantes.
Em 2009, por exemplo, uma ponte de gelo formada na parte norte do estreito persistiu durante 184 dias. O fenômeno provocou uma cobertura de gelo historicamente baixa na North Water e levou as temperaturas da superfície do mar a níveis sem precedentes na região.
O aumento da temperatura favoreceu o surgimento antecipado de florações de fitoplâncton. Embora esses organismos sejam fundamentais para a cadeia alimentar marinha, alterações no período e na intensidade dessas florações podem modificar o funcionamento de todo o ecossistema.
A ponte de gelo de Smith Sound, outra estrutura importante para a região, também não conseguiu se consolidar em 2010, 2017 e 2019. Em cada um desses anos, uma ponte ao norte chegou a se formar, mas permaneceu por períodos mais curtos.
Área pode ganhar proteção internacional
Diante da importância ambiental e cultural da região, a North Water também passou a ser alvo de iniciativas para garantir sua proteção.
A proposta ganhou força após uma recomendação apresentada em 2017 pela Comissão Pikialasorsuaq. O grupo defendeu que Canadá e Groenlândia criassem conjuntamente uma área protegida administrada pelos inuítes.
Em março de 2026, o Canadá avançou nesse processo ao designar a Sarvarjuaq como área marinha protegida em sua porção da região. A área protegida se estende por aproximadamente mil quilômetros, desde uma área ao sul do Oceano Ártico aberto até o norte da ilha de Baffin.
A iniciativa busca preservar não apenas a biodiversidade, mas também a relação histórica das comunidades indígenas com o ambiente.











