Durante décadas, a poliomielite esteve entre as doenças que mais provocavam temor por sua capacidade de evoluir rapidamente para quadros graves de paralisia e até morte. Embora a vacinação tenha reduzido em mais de 99% a circulação do poliovírus selvagem desde 1988, a doença ainda não foi completamente eliminada do planeta. Regiões do Paquistão e do Afeganistão continuam registrando transmissão do vírus, mostrando que a erradicação global permanece um desafio.
A ameaça já foi muito mais ampla. No Brasil, um dos episódios mais marcantes ocorreu no início da década de 1950, durante a maior epidemia de poliomielite já registrada no país. Em janeiro de 1953, enquanto o número de casos aumentava no Rio de Janeiro, autoridades de saúde chegaram a negar a existência de uma epidemia na cidade.
Segundo registros publicados pelo jornal Correio da Manhã, 450 casos haviam sido registrados desde junho do ano anterior, com 27 mortes. Mesmo diante dos números, o Departamento de Saúde afirmava que a ocorrência permanecia “estritamente dentro da incidência habitual”.

Vírus pode provocar paralisia rapidamente
A poliomielite é causada pelo poliovírus e, em uma parcela dos casos, pode atingir o sistema nervoso. Quando isso ocorre, a evolução pode ser rápida e provocar paralisia irreversível, principalmente nas pernas.
A situação se tornava ainda mais grave quando os músculos responsáveis pela deglutição ou pela respiração eram afetados. Nesses casos, a doença podia levar à morte.
Antes do desenvolvimento e da ampla utilização das vacinas, alguns pacientes que sofriam paralisia dos músculos respiratórios precisavam ser colocados em pulmões de ferro. O equipamento consistia em um grande cilindro metálico conectado a uma bomba que produzia variações de pressão para forçar a entrada e a saída de ar dos pulmões.
A vacinação modificou radicalmente esse cenário e transformou a poliomielite em uma doença próxima da erradicação mundial.
Epidemia chegou a ser minimizada
Medidas consideradas ineficazes chegaram a ser utilizadas como forma de prevenção. Entre elas estava a fumigação de ambientes no interior de São Paulo. A medida ignorava que a principal via de transmissão do poliovírus ocorre pela rota fecal-oral.
Até mesmo as moscas chegaram a ser apontadas como responsáveis pela disseminação da doença. Segundo pesquisadores, durante grandes epidemias nos Estados Unidos, em 1916, acreditava-se que os insetos pousavam nas casas de pessoas pobres e posteriormente levavam o agente infeccioso para residências de famílias ricas.
Na época, entretanto, ainda não existia uma maneira eficaz de prevenir a infecção neurológica aguda.
Campanha global reduziu casos em mais de 99%
Em 1988, a Assembleia Mundial da Saúde aprovou uma resolução para eliminar a poliomielite em todo o planeta. A decisão deu origem à Global Polio Eradication Initiative (GPEI), uma parceria internacional que reúne governos, instituições públicas e organizações privadas.
Desde então, a incidência mundial da doença caiu mais de 99%. Em 1988, eram estimados cerca de 350 mil casos de poliovírus selvagem em mais de 125 países onde a doença era endêmica. Atualmente, a transmissão do poliovírus selvagem permanece restrita a dois países.
O resultado colocou a humanidade diante da possibilidade de erradicar globalmente uma doença pela segunda vez na história. A primeira foi a varíola, declarada erradicada em 1980.
Apesar do avanço, a existência de focos ativos demonstra que a interrupção da transmissão ainda depende da manutenção de altos níveis de imunização, principalmente nas regiões mais vulneráveis.
Paquistão mantém transmissão ativa
No Paquistão, o poliovírus selvagem tipo 1 (WPV1) continua sendo identificado em amostras ambientais nas quatro principais províncias do país. A transmissão é particularmente intensa no sul de Khyber Pakhtunkhwa (KP), onde continuam sendo registrados casos e amostras ambientais positivas.
Também houve sinais de redução em 2025 nos casos de WPV1 e nas detecções ambientais nos blocos epidemiológicos de Quetta e Peshawar. Ao mesmo tempo, a transmissão continuou sendo identificada em Lahore, na província de Punjab, além de diversos distritos localizados no bloco epidemiológico do Paquistão Central.
Afeganistão também registra circulação do vírus
No Afeganistão, a transmissão permanece intensa na região sul. A circulação do WPV1 é identificada tanto por meio da vigilância de casos de paralisia flácida aguda, conhecida pela sigla AFP, quanto pela análise de amostras ambientais.
Na região leste do país, por outro lado, houve uma redução significativa da transmissão em 2025. A melhora é considerada um indicativo de aumento da imunidade da população.











