Uma das histórias mais curiosas envolvendo o Egito Antigo aconteceu milhares de anos depois da morte de Ramsés II. O faraó, que governou o Egito durante a XIX Dinastia, teve sua múmia transportada de avião para Paris, na França, para passar por trabalhos de conservação e exames científicos. A viagem, realizada em 1976, ganhou contornos ainda mais inusitados porque o antigo governante foi recebido oficialmente como se fosse um chefe de Estado.
A narrativa mais conhecida sobre o episódio afirma que Ramsés II teria recebido um passaporte egípcio para entrar na França, com sua profissão registrada como “rei” e uma observação indicando que estava morto. Embora a história tenha se tornado um dos relatos mais populares sobre a múmia, não há evidências disponíveis que comprovem que esse documento tenha sido emitido exatamente dessa maneira.
A múmia foi enviada a um laboratório especializado na França para passar principalmente por procedimentos de preservação, mas também foi submetida a uma série de análises científicas.
O tratamento era necessário porque a conservação do corpo estava ameaçada pela ação de fungos. Especialistas franceses receberam a múmia para investigar seu estado e realizar intervenções destinadas a preservar o material arqueológico.
A chegada, porém, não foi tratada como uma simples operação de transporte de uma peça histórica. Ramsés II foi recebido com honras protocolares destinadas a visitantes de alto escalão, em uma demonstração simbólica da importância histórica do faraó.
Quando retornou ao Egito, o monarca também recebeu uma recepção digna de sua posição. Seu caixão foi coberto por um tecido de veludo azul-escuro bordado em dourado por costureiras do Louvre, reforçando o caráter solene do retorno.
A história do passaporte virou lenda
É nesse ponto que surgiu uma das histórias mais repetidas sobre a viagem. Segundo a versão popular, o governo egípcio teria preparado um passaporte oficial para a múmia, já que seria necessário apresentar documentação para que Ramsés II pudesse entrar na França.
O suposto documento teria indicado a profissão do passageiro como “rei”, acompanhado da observação “falecido”.
A história é suficientemente peculiar para ter se transformado em manchete e atravessado décadas. Entretanto, especialistas que analisaram o caso apontam que não existe evidência pública capaz de confirmar que o passaporte possuía essas informações.
Existe, de fato, a informação de que a múmia recebeu documentação egípcia válida para a viagem. Porém, imagens que circulam na internet como se fossem fotografias do suposto passaporte original são, na realidade, ilustrações. O documento verdadeiro não está disponível publicamente para comprovar os detalhes frequentemente atribuídos a ele.
Múmia foi encontrada mais de mil anos após sua morte
A história de Ramsés II também é marcada por uma segunda vida arqueológica. Sua múmia foi localizada no chamado Royal Cache, identificado como TT320, nas proximidades de Deir el-Bahari, na necrópole de Tebas.
O esconderijo havia sido utilizado por sacerdotes do Egito Antigo para proteger múmias reais e de integrantes da elite contra saqueadores de tumbas. O local foi descoberto em 1871 por moradores egípcios e abrigava os restos mortais de diversos faraós.

Entre eles estavam Ramsés II e seu pai, Seti I.
Os sacerdotes haviam envolvido Ramsés II novamente em linho e colocado seu corpo dentro de um sarcófago de madeira. Tanto o tecido quanto o caixão apresentavam inscrições com seu nome e seus títulos em escrita hierática.
Embora antigos saqueadores tenham causado danos à múmia, o corpo permaneceu em estado considerado excepcional pelos egiptólogos, revelando detalhes importantes sobre as técnicas de embalsamamento empregadas durante a XIX Dinastia.
Exames revelaram detalhes sobre os últimos anos do faraó
A múmia também chamou atenção pelas características físicas preservadas. Um dos elementos mais marcantes é o nariz proeminente, que os especialistas acreditam ter sido uma característica real do faraó durante sua vida.
Os responsáveis pelo embalsamamento teriam utilizado pequenas sementes, resina e até um pequeno fragmento de osso animal dentro da cavidade nasal para ajudar a preservar o formato da região.
Também foram encontrados tecidos embebidos em resina dentro do torso, outro elemento associado às técnicas utilizadas pelos antigos egípcios durante o processo de mumificação.
Exames modernos, incluindo tomografias computadorizadas, ajudaram a ampliar o conhecimento sobre a saúde do governante. As análises indicam que Ramsés II chegou a uma idade bastante avançada para os padrões de sua época. Algumas estimativas apontam que ele teria ultrapassado os 90 anos.
O corpo apresenta sinais compatíveis com o envelhecimento, incluindo artrite e alterações na coluna que contribuíram para uma postura curvada.
Mesmo depois dos efeitos naturais do envelhecimento, da morte e da mumificação, a múmia mede aproximadamente 1,70 metro. Considerando que o corpo tende a sofrer redução de altura ao longo da velhice e também durante o processo de mumificação, Ramsés II pode ter sido um homem relativamente alto para seu período histórico.










