A Ferrari apresentou oficialmente nesta terça-feira (26) o Luce, primeiro carro totalmente elétrico da história da fabricante italiana. O lançamento, porém, veio acompanhado de uma reação inesperada do mercado financeiro: as ações da companhia despencaram mais de 8% na Bolsa de Milão logo após a revelação do modelo.
O novo veículo representa uma mudança radical para a marca conhecida mundialmente por seus motores potentes a combustão e pelo ronco característico dos superesportivos. Com quatro portas, cinco lugares e perfil mais familiar, o Luce custa cerca de 550 mil euros, aproximadamente R$ 3,5 milhões na cotação atual, e começará a ser entregue aos clientes no quarto trimestre deste ano.
Além da forte queda na bolsa italiana, os papéis da Ferrari negociados em Nova York também recuaram mais de 5% durante o pregão. Em Milão, as ações já acumulam desvalorização superior a 32% nos últimos 12 meses.
O modelo foi revelado em um evento realizado em Roma e desenvolvido em parceria com o coletivo LoveFrom, liderado por Jony Ive, ex-chefe de design da Apple. O nome “Luce”, que significa “luz” em italiano, foi escolhido para simbolizar o início de um “novo capítulo” na história da empresa.
O CEO da Ferrari, Benedetto Vigna, classificou o lançamento como um momento “muito importante” para a fabricante e afirmou que a marca precisou equilibrar inovação tecnológica e respeito à tradição da empresa.
Segundo ele, a introdução de uma nova tecnologia exige mudanças também no design e na experiência do veículo. Ainda assim, o executivo defendeu que o modelo continuará atraindo os clientes tradicionais da Ferrari, além de conquistar novos consumidores interessados em carros elétricos de luxo.
O Luce acelera de 0 a 100 km/h em cerca de 2,5 segundos e pode atingir velocidade máxima próxima de 310 km/h. Todos os componentes foram desenvolvidos internamente na fábrica de Maranello, na Itália.
Mercado teme perda da identidade da marca
Apesar da expectativa criada em torno do primeiro elétrico da Ferrari, investidores e analistas demonstraram preocupação com o posicionamento estratégico da empresa em um momento de desaceleração global do mercado premium de veículos elétricos.
A principal dúvida gira em torno da capacidade do Luce de preservar a exclusividade e o forte apelo emocional historicamente associados à Ferrari. Parte do mercado avalia que a mudança pode diluir características consideradas essenciais da marca.
O cenário também é influenciado pelas dificuldades enfrentadas por outras fabricantes de luxo no segmento elétrico. A Lamborghini, por exemplo, recuou dos planos de lançar supercarros totalmente elétricos no curto prazo e decidiu priorizar modelos híbridos devido à demanda abaixo do esperado. A Porsche também revisou suas metas para veículos elétricos após resultados mais fracos em mercados como China e Estados Unidos.
Antes mesmo da apresentação do Luce, o Morgan Stanley já havia reduzido o preço-alvo das ações da Ferrari de 357 para 330 euros, mantendo recomendação neutra para os investidores.
Queda reflete cautela e incerteza
Analistas do mercado avaliam que o movimento desta terça-feira reflete uma combinação de realização de lucros com incertezas estratégicas sobre o futuro da fabricante italiana.
A Ferrari chegou ao lançamento negociando abaixo de sua máxima histórica de 447,5 euros por ação. Durante o pregão, os papéis chegaram a tocar a mínima de 285,8 euros, ampliando a pressão sobre a companhia.
O lançamento do Luce ocorre justamente em um período em que diversas montadoras premium vêm desacelerando projetos elétricos diante do enfraquecimento da procura por modelos de luxo movidos exclusivamente a bateria.



