O surto de ebola na República Democrática do Congo (RDC) ultrapassou a marca de 2 mil mortes em menos de três meses desde a declaração oficial e já supera o número de óbitos registrados pela pandemia de Covid-19 no país, que contabilizou oficialmente 1.468 vítimas. A rápida expansão da doença levou a Organização Mundial da Saúde (OMS) a alertar para um cenário excepcionalmente grave, com mortes ocorrendo fora das unidades de tratamento e cadeias de transmissão que ainda não foram identificadas.
Os números mais recentes divulgados pela OMS apontam 4.499 casos confirmados e 2.061 mortes. Autoridades locais, em uma atualização anterior, registravam 4.381 casos e 2.011 óbitos. A diferença entre os balanços ocorre em razão da atualização contínua dos registros durante o avanço da doença.
O surto começou na província de Ituri, no nordeste do país, e já alcançou 53 zonas de saúde distribuídas pelas províncias de Ituri, Kivu do Norte, Kivu do Sul, Haut-Uele e Tshopo. Ituri continua sendo o principal epicentro da transmissão.
O site oficial da Organização das Nações Unidas (ONU) classificou a situação como uma transmissão “fora de controle”. O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, não utilizou essa expressão ao falar com jornalistas em Genebra, mas reconheceu que a velocidade do avanço é alarmante e que a epidemia pode se tornar ainda mais grave do que o grande surto de ebola registrado na África Ocidental entre 2014 e 2016.

Mais de mil mortes ocorreram em poucas semanas
A velocidade de crescimento da mortalidade é um dos principais fatores de preocupação das autoridades sanitárias. A marca de mil mortes confirmadas foi ultrapassada no fim de julho e, em aproximadamente três semanas, o número praticamente dobrou.
Segundo Julien Harneis, coordenador sênior das Nações Unidas para o ebola, metade das mais de 2 mil mortes registradas ocorreu nos últimos 20 dias. O alerta reforça a percepção de que a epidemia ainda está em fase de expansão e que as medidas de contenção não conseguiram acompanhar o ritmo da transmissão.
O Africa CDC, centro africano de controle e prevenção de doenças, classificou o episódio como muito maior que eventos anteriores de ebola. Após 12 semanas, o número de casos confirmados era quase nove vezes superior ao observado no mesmo período do surto da África Ocidental de 2014-2016, enquanto o número de mortes era seis vezes maior.
A epidemia que atingiu Guiné, Libéria e Serra Leoa entre 2014 e 2016 matou mais de 11 mil pessoas ao longo de seu desenvolvimento. A preocupação atual está justamente na velocidade com que o surto na RDC vem acumulando casos e óbitos.
Vírus pode ter circulado meses antes do anúncio
Outro fator que dificulta a resposta é a possibilidade de que o ebola tenha começado a circular muito antes de ser oficialmente reconhecido.
A RDC declarou o surto em 15 de maio de 2026, mas análises de sequenciamento genético indicam que a transmissão pode ter começado ainda em fevereiro. Isso significa que o vírus pode ter circulado durante meses antes que as autoridades identificassem a dimensão do problema.
Para tentar mudar a trajetória da epidemia, a OMS estabeleceu uma estratégia emergencial para os próximos três meses. A organização pretende elevar de aproximadamente 80% para 95% a proporção de contatos monitorados pelas equipes de saúde.
O rastreamento, entretanto, continua sendo um dos principais obstáculos. Segundo o Africa CDC, apenas cerca de 10% dos contatos que deveriam ser identificados foram efetivamente listados, enquanto aproximadamente 70% das pessoas que já foram identificadas estão sendo acompanhadas.
Comunidades passam a ser foco da resposta
O governo da RDC também decidiu modificar a estratégia de combate à doença. Depois de uma reunião de alto nível presidida pelo presidente Félix Tshisekedi em 5 de agosto, as autoridades defenderam uma resposta mais concentrada nas próprias comunidades afetadas.
A proposta é adotar uma abordagem “centrada nas aldeias”, ampliando a participação da população e levando atendimento, proteção e informações para mais perto das pessoas expostas ao vírus.
A mudança ocorre porque ainda há pacientes permanecendo fora das unidades de tratamento mesmo quando existem leitos disponíveis. Além de aumentar o risco de novas infecções, essa situação dificulta o trabalho das equipes responsáveis por reconstruir as cadeias de transmissão.












