A crescente digitalização dos pagamentos não eliminou a importância do dinheiro em espécie. Pelo contrário: dados recentes mostram que a quantidade de cédulas em circulação na União Europeia continua aumentando, mesmo com a popularização de cartões, celulares e pagamentos por aproximação. O movimento ganhou força diante do receio de que guerras, desastres naturais ou ataques cibernéticos possam interromper temporariamente sistemas bancários e plataformas digitais.
O alerta é acompanhado por recomendações de governos europeus para que as famílias mantenham uma quantia de dinheiro vivo em casa. Em países como Áustria, Finlândia, Alemanha, Suécia e Holanda, a orientação é reservar entre € 70 e € 100 por residência, valor considerado suficiente para cobrir despesas básicas durante aproximadamente 72 horas caso aplicativos bancários e meios eletrônicos de pagamento deixem de funcionar.
O economista-chefe do Banco Central Europeu (BCE), Philip Lane, destacou que o número de notas em circulação continua crescendo. A instituição considera o dinheiro físico um componente importante da preparação nacional para situações de crise.
Três situações podem interromper os pagamentos digitais
A primeira preocupação está relacionada a conflitos e guerras. Em um cenário de instabilidade prolongada, sistemas financeiros podem sofrer interrupções, enquanto ataques contra infraestrutura crítica podem dificultar o acesso às contas bancárias e aos meios eletrônicos de pagamento.
A segunda possibilidade envolve desastres naturais, como incêndios, tempestades, enchentes e outros eventos capazes de interromper o fornecimento de energia ou derrubar redes de comunicação. Os recentes incêndios registrados em diferentes partes da Europa também contribuíram para aumentar a procura por dinheiro em espécie.
A terceira ameaça é representada por ataques cibernéticos. Instituições financeiras, órgãos públicos, empresas e aeroportos estão entre os alvos de ataques digitais cada vez mais frequentes. Uma ofensiva de grande escala poderia comprometer temporariamente aplicativos bancários, terminais de pagamento e serviços online.
BCE vê aumento do dinheiro físico como sinal de preparação
O comportamento dos consumidores criou um aparente paradoxo. Embora o uso cotidiano de dinheiro tenha diminuído em diversas cidades europeias, a quantidade de cédulas existentes em circulação aumentou.
A preocupação é que, caso o dinheiro físico deixe de ser utilizado completamente durante períodos normais, consumidores e estabelecimentos possam perder familiaridade com esse meio de pagamento justamente quando ele voltar a ser necessário.
O BCE classifica o dinheiro em espécie como elemento fundamental da preparação nacional para crises. A instituição considera relevante o fato de pessoas reduzirem o uso de notas nas compras cotidianas, mas simultaneamente aumentarem a quantidade de dinheiro físico mantida como reserva.
Reserva deve ser para emergência, não para substituir o banco
A recomendação europeia não significa que as famílias devam abandonar contas bancárias ou retirar grandes quantidades de dinheiro. A proposta é manter uma reserva limitada para necessidades básicas, capaz de garantir autonomia por alguns dias diante de uma eventual interrupção dos pagamentos digitais.
O intervalo de € 70 a € 100 por residência citado pelas autoridades europeias foi pensado para cobrir aproximadamente três dias de despesas essenciais. A quantia pode variar conforme o tamanho da família e as necessidades específicas de cada residência.
A lógica é semelhante à de outras preparações para emergências: ter alimentos não perecíveis, água, medicamentos e outros itens básicos disponíveis antes que uma crise aconteça.
Como se preparar para uma eventual interrupção
Além da reserva em espécie, especialistas em preparação financeira recomendam que documentos importantes estejam disponíveis de maneira segura, incluindo contratos, comprovantes bancários, seguros, testamentos e registros relacionados a imóveis e outros patrimônios.
Também existe preocupação com a possibilidade de uma paralisação temporária do sistema bancário. Nesse caso, a diversificação patrimonial pode reduzir a dependência de uma única instituição ou forma de acesso ao dinheiro.
No entanto, diferentes formas de investimento, como moedas estrangeiras, metais preciosos, criptomoedas ou outros ativos, possuem riscos, custos e níveis de liquidez próprios e não substituem necessariamente uma reserva imediata para despesas emergenciais.











