Um dos produtos mais tradicionais da cadeia do churrasco brasileiro pode ganhar uma nova função muito além da cozinha. O sebo bovino, considerado um resíduo da indústria de carnes, está sendo utilizado como matéria-prima para a produção de biodiesel e já movimenta caminhões de carga em testes e operações reais. A JBS, uma das maiores empresas globais do setor de proteína animal, acumula mais de 500 mil quilômetros percorridos por caminhões extrapesados da DAF e da Volkswagen abastecidos exclusivamente com B100, o biodiesel puro.
O combustível é produzido pela Biopower, subsidiária da companhia, a partir de resíduos animais da própria cadeia produtiva, como o sebo bovino, além de óleo de cozinha usado e outros materiais orgânicos. A iniciativa transforma resíduos que poderiam ter menor aproveitamento em uma fonte energética capaz de abastecer veículos pesados.
O projeto também está associado à expansão da capacidade industrial da empresa. No ano passado, mais de R$ 140 milhões foram destinados à modernização e ampliação das usinas da Biopower instaladas em Lins, no interior de São Paulo, Mafra, em Santa Catarina, e Campo Verde, em Mato Grosso. A expectativa é encerrar 2026 com capacidade de produção de 650 milhões de litros de biodiesel.
Do sebo e do óleo usado ao tanque dos caminhões
O caminho para transformar esses resíduos em combustível começa antes mesmo da etapa industrial. O óleo de cozinha recolhido passa por controle de qualidade nas plantas da Biopower, onde são verificadas características como umidade e presença de impurezas.
Depois da avaliação, o material é peneirado e armazenado de maneira adequada até seguir para o processamento. Na etapa conhecida como transesterificação, ocorre a separação do glicerol e a formação do biodiesel, que posteriormente passa por processos de purificação e filtragem.
O resultado é o B100, combustível composto integralmente por biodiesel. Depois de processado, o produto é encaminhado para os tanques de armazenamento e pode ser utilizado nos veículos preparados para esse tipo de abastecimento.
Atualmente, boa parte do biodiesel produzido no país segue para a mistura obrigatória com o diesel de petróleo. As usinas fornecem o biocombustível que chega ao mercado convencional, enquanto projetos específicos permitem a utilização do produto em concentração de 100%.
Operação já percorre centenas de milhares de quilômetros
Na operação da JBS, o abastecimento com B100 ocorre em Lins, onde a companhia mantém um ponto próprio homologado pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).
O chamado bioponto conta com duas bombas e capacidade para armazenar até 46 mil litros de combustível. É nessa estrutura que parte da frota abastecida com biodiesel puro realiza as operações.
A experiência acumulada com os caminhões DAF e Volkswagen já ultrapassou a marca de 500 mil quilômetros rodados. O resultado serve como referência para a utilização do combustível em veículos de grande porte, que normalmente percorrem longas distâncias e demandam elevado volume de diesel.
Mercado brasileiro ainda tem espaço para crescer
A utilização do B100 ocorre em um momento de expansão das alternativas aos combustíveis fósseis. A chamada Lei do Combustível do Futuro estabelece condições para o aumento da participação do biodiesel na matriz de combustíveis, permitindo que a mistura com o diesel convencional chegue a até 25% até 2030.
O potencial de crescimento também aparece na diferença entre a capacidade industrial instalada e o volume efetivamente produzido. O país produziu cerca de 9 bilhões de litros de biodiesel no último ano, enquanto as fábricas possuem capacidade instalada estimada em 16 bilhões de litros anuais.
A diferença indica que existe margem para ampliar a produção sem depender exclusivamente da construção de novas estruturas industriais.











