A tradicional Estrela, uma das marcas mais emblemáticas da indústria de brinquedos no Brasil, entrou com pedido de recuperação judicial nesta quarta-feira (20). A empresa alegou necessidade de reestruturar dívidas diante de um cenário marcado por juros elevados, restrição de crédito e mudanças profundas no comportamento das crianças e adolescentes, cada vez mais voltados ao universo digital.
O pedido foi protocolado na Comarca de Três Pontas, em Minas Gerais, e inclui outras oito empresas ligadas ao Grupo Estrela. Apesar da medida, a companhia afirmou que continuará mantendo normalmente suas operações industriais, comerciais e administrativas durante o processo.
Fundada em 1937, a Estrela se tornou parte da infância de milhões de brasileiros ao longo das décadas, especialmente entre os anos 1980 e 1990, período em que consolidou brinquedos que marcaram gerações e ajudaram a construir o imaginário infantil do país.
Em comunicado enviado ao mercado e à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a companhia informou que a recuperação judicial busca reorganizar o passivo financeiro acumulado nos últimos anos.
Entre os fatores apontados pela empresa estão o aumento do custo de capital, dificuldades de acesso ao crédito e a transformação no consumo infantil, impulsionada pelo crescimento das plataformas digitais, videogames e entretenimento online.
A Estrela destacou ainda que a concorrência com produtos importados também aumentou a pressão sobre o setor nacional de brinquedos.
Nos últimos anos, fabricantes tradicionais passaram a disputar atenção das crianças com celulares, redes sociais, aplicativos, streaming e jogos eletrônicos, alterando significativamente o mercado que antes era dominado pelos brinquedos físicos.

Marca ajudou a moldar a infância brasileira
A história da Estrela começou com uma pequena fábrica de bonecas de pano e carrinhos de madeira. Ao longo do século 20, a companhia se transformou em uma das maiores referências do setor no Brasil.
A empresa também ficou marcada por ser uma das primeiras companhias brasileiras a abrir capital, ainda em 1944.
Durante décadas, a marca esteve presente em milhares de lares brasileiros com brinquedos, jogos de tabuleiro e bonecas que atravessaram gerações. O nome da empresa acabou se tornando símbolo de nostalgia para adultos que cresceram entre os anos 1980 e 1990.
Recuperações judiciais aumentam no Brasil
O caso da Estrela ocorre em meio ao crescimento de pedidos de recuperação judicial no país. Analistas apontam que o cenário de juros elevados por um longo período expôs problemas financeiros em empresas de diversos setores.
A taxa básica de juros, a Selic, permaneceu acima de 10% desde 2022 e chegou a atingir 15% ao ano em 2025. Mesmo com cortes recentes promovidos pelo Banco Central, o crédito continua caro para grande parte das empresas brasileiras.
Segundo a fabricante, o objetivo da recuperação judicial é preservar empregos, manter a continuidade das atividades e reorganizar o endividamento do grupo.
A companhia informou que seguirá administrada pelos atuais diretores e acionistas e que apresentará futuramente um plano de recuperação para aprovação dos credores.



