O Japão voltou a discutir as regras que definem quem pode ocupar o Trono do Crisântemo, diante da crescente preocupação com a falta de herdeiros homens na família imperial. Embora o Parlamento japonês tenha aprovado uma reforma para tentar preservar a sucessão masculina, o debate sobre permitir que mulheres se tornem imperadoras ganhou força entre especialistas e a população, reacendendo uma discussão histórica sobre igualdade de gênero e tradição.
Atualmente, a legislação japonesa determina que apenas homens descendentes da linhagem paterna da família imperial podem herdar o trono. Na prática, isso impede que a princesa Aiko, única filha do imperador Naruhito, de 24 anos, assuma a posição, mesmo sendo uma das figuras mais populares da monarquia.
A preocupação aumentou porque a família imperial conta hoje com apenas três homens aptos a suceder Naruhito: o príncipe herdeiro Akishino, de 60 anos; seu filho, o príncipe Hisahito, de 19 anos; e o príncipe Hitachi, tio do imperador, que já tem 90 anos.

Com um número cada vez menor de integrantes masculinos na família, o Parlamento aprovou a primeira grande revisão das regras de sucessão em décadas. Entre as mudanças está a possibilidade de homens pertencentes a antigos ramos colaterais da família imperial, que perderam o status de membros da realeza após a Segunda Guerra Mundial, retornarem oficialmente à Casa Imperial por meio de adoção.
Esses homens não poderão assumir imediatamente o trono, mas seus futuros filhos do sexo masculino poderão entrar na linha sucessória, ampliando as possibilidades de continuidade da monarquia.
Outra alteração aprovada permite que princesas mantenham o status de integrantes da família imperial mesmo após se casarem com cidadãos comuns. Pela legislação anterior, elas deixavam automaticamente a família imperial ao oficializar esse tipo de união, reduzindo ainda mais o número de membros da monarquia.
Princesa Aiko segue impedida de herdar o trono
Apesar das mudanças, a principal regra permaneceu inalterada: mulheres continuam proibidas de ocupar o Trono do Crisântemo.
A decisão frustrou grupos que defendem uma reforma mais ampla. Pesquisas de opinião mostram que a maioria da população japonesa apoia a possibilidade de uma mulher assumir o trono. Levantamento do jornal Mainichi Shimbun apontou que cerca de 73% dos entrevistados são favoráveis à existência de uma imperatriz reinante, enquanto apenas uma pequena parcela se posiciona contra.
Especialistas também afirmam que permitir apenas sucessores homens torna a estabilidade da monarquia cada vez mais delicada, já que a família imperial vem diminuindo continuamente nas últimas décadas.
Tradição centenária enfrenta pressão por mudanças
Embora a sucessão exclusivamente masculina seja frequentemente apresentada como uma tradição histórica, estudiosos lembram que o Japão já teve oito mulheres ocupando o trono ao longo de sua história. A última delas foi a imperatriz Gosakuramachi, que governou entre 1762 e 1770.
A regra atual foi formalizada pela primeira vez na Lei da Casa Imperial de 1890, durante um período em que o país reforçava estruturas sociais patriarcais. Após a Segunda Guerra Mundial, a legislação foi praticamente mantida na Constituição de 1947.
Em 2005, uma comissão criada pelo então primeiro-ministro Junichiro Koizumi recomendou autorizar tanto imperatrizes quanto a sucessão por linhagem feminina. A proposta, porém, foi arquivada após o nascimento do príncipe Hisahito, em 2006, primeiro menino da família imperial em cerca de 40 anos.








