A Bolívia iniciou mais uma semana de forte instabilidade política e social após a promulgação de uma nova lei que regulamenta os estados de emergência e autoriza a participação das Forças Armadas em operações para conter protestos e desbloquear estradas. A medida foi sancionada pelo presidente Rodrigo Paz em meio a uma onda de manifestações que já soma cerca de 90 pontos de bloqueio em diferentes regiões do país.
Os protestos atingem departamentos como Santa Cruz, Potosí, Chuquisaca, Oruro, La Paz e Cochabamba e refletem o crescente descontentamento de setores sociais, sindicatos e grupos de camponeses com a condução econômica do governo. A nova legislação permite que militares atuem ao lado da polícia durante situações classificadas como excepcionais, ampliando os instrumentos do Estado para enfrentar mobilizações consideradas uma ameaça à ordem pública.
A escalada da crise ficou evidente nos confrontos registrados em San Julián, localidade estratégica que liga Santa Cruz ao oeste boliviano. Segundo autoridades locais, operações conjuntas de policiais e militares tentaram remover bloqueios utilizando gás lacrimogêneo, mas encontraram resistência dos manifestantes.
De acordo com a polícia, alguns participantes dos protestos teriam utilizado armas de fogo durante os confrontos. Pelo menos quatro agentes foram atingidos por disparos, incluindo um policial que sofreu ferimento grave na cabeça e permanece sob cuidados intensivos. Outros dois agentes ficaram feridos por pedradas.
O hospital de San Julián informou ter atendido 45 pessoas após cerca de quatro horas de confrontos, sendo 26 civis e 19 integrantes das forças de segurança. Entre os civis, dois apresentaram ferimentos considerados graves, incluindo uma pessoa com trauma craniano e outra atingida por disparo na perna.
Cinco pessoas foram presas e o Ministério Público iniciou investigações para identificar indivíduos flagrados portando armas durante os protestos.
Debate sobre nova legislação divide país
A regulamentação dos estados de exceção começou a ser discutida no Congresso boliviano poucos dias antes da sanção presidencial. O projeto recebeu aprovação da Comissão de Constituição da Câmara dos Deputados após já ter passado pelo Senado.
Durante os debates, parlamentares defenderam a necessidade de oferecer instrumentos legais ao governo para conter a escalada dos conflitos. Ao mesmo tempo, parte dos deputados manifestou preocupação com os limites das ações operacionais das forças de segurança durante períodos de emergência.
A nova legislação tem gerado críticas de grupos oposicionistas e movimentos sociais, que temem um endurecimento da repressão contra manifestações populares.
Governo recebe apoio internacional
Em meio à crise, o presidente Rodrigo Paz recebeu apoio de países integrantes da iniciativa internacional conhecida como Escudo das Américas, promovida pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Em comunicado conjunto, os governos participantes afirmaram que os protestos estariam sendo financiados com recursos ilícitos ligados ao narcotráfico e teriam como objetivo desestabilizar e derrubar o governo boliviano.
Já representantes do Comitê Cívico de Santa Cruz acusaram grupos ligados ao ex-presidente Evo Morales de incentivar e organizar parte dos bloqueios. As acusações, no entanto, seguem sendo alvo de disputas políticas e não foram comprovadas judicialmente.




