Pacientes atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) com câncer de pulmão de células não pequenas e alteração no gene ALK continuam enfrentando dificuldades para acessar exames e medicamentos considerados essenciais para o tratamento da doença. A conclusão é de dois estudos brasileiros publicados na revista científica JCO Global Oncology, da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO).
As pesquisas mostram que, embora o governo federal já tenha incorporado ao SUS tanto os testes para identificação da mutação quanto medicamentos específicos para esses casos, grande parte dos pacientes ainda não consegue ter acesso efetivo a esses recursos.
O cenário é ainda mais preocupante porque, segundo relatórios da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec), entre 85% e 93% dos pacientes com câncer de pulmão atendidos pelo SUS recebem o diagnóstico quando a doença já está em estágio avançado ou metastático, reduzindo significativamente as possibilidades de cura.

Falta de exames dificulta diagnóstico preciso
A alteração no gene ALK está presente em aproximadamente 3,2% dos casos de câncer de pulmão de células não pequenas e costuma atingir pacientes mais jovens, geralmente por volta dos 50 anos, além de pessoas que nunca fumaram.
Antes de iniciar o tratamento mais adequado, é necessário realizar um exame capaz de identificar essa alteração genética. No entanto, os estudos apontam uma grande diferença entre a rede pública e a privada.
Entre médicos da rede privada, 94% afirmaram ter acesso rotineiro ao teste molecular. No SUS, esse percentual cai para apenas 44%.
Segundo os pesquisadores, um dos principais motivos é a falta de recursos para custear os exames. Muitos hospitais públicos não recebem financiamento suficiente para realizá-los regularmente. Em outros casos, o material obtido durante a biópsia é insuficiente para análise genética ou, diante da urgência do quadro clínico, a quimioterapia acaba sendo iniciada antes mesmo da conclusão dos testes.
Os pesquisadores observaram ainda que, entre os pacientes identificados com alteração no gene ALK em 12 hospitais brasileiros analisados, apenas um em cada cinco era atendido pelo SUS, apesar de o sistema público ser responsável pela assistência à maior parte da população brasileira. Para os autores, esse dado indica que muitos pacientes da rede pública sequer chegam a descobrir a presença da mutação genética.
Medicamentos incorporados ainda não chegam à maioria dos pacientes
Os estudos também apontam dificuldades no acesso às terapias-alvo, consideradas atualmente as opções mais eficazes para esse tipo de tumor.
O medicamento crizotinibe foi incorporado ao SUS em 2022, enquanto o brigatinibe passou a integrar a rede pública em 2025. Apesar disso, apenas cerca de um em cada dez oncologistas que atuam no SUS afirmou conseguir oferecer o crizotinibe como tratamento inicial aos pacientes.
Na rede privada, a realidade é diferente. O alectinibe, considerado atualmente uma das principais referências terapêuticas para esses casos, foi apontado como disponível desde o início do tratamento por oito em cada dez médicos entrevistados.
De acordo com os autores das pesquisas, o principal entrave ocorre após a incorporação oficial dos medicamentos ao sistema público. Embora os tratamentos tenham sido aprovados, os valores repassados pelo SUS aos hospitais não seriam suficientes para cobrir os custos de aquisição dos remédios.




