Uma planta tradicionalmente usada em chás e na medicina popular voltou ao centro das discussões nas redes sociais após publicações afirmarem que o dente-de-leão seria capaz de eliminar até 98% das células cancerígenas em apenas 48 horas. Apesar de estudos laboratoriais indicarem efeitos positivos contra algumas células tumorais, pesquisadores e entidades médicas reforçam que ainda não há comprovação científica de eficácia em pacientes humanos.
A repercussão ganhou força após vídeos e mensagens compartilhadas em plataformas digitais associarem o consumo do chá da raiz da planta a uma suposta cura natural para o câncer. Algumas publicações chegaram a afirmar que o tratamento seria “100 vezes mais eficaz que a quimioterapia”, informação negada por especialistas da área oncológica.
O interesse pela planta surgiu principalmente após estudos realizados por pesquisadores da Universidade de Windsor, no Canadá. Em experimentos publicados em revistas científicas, o extrato aquoso da raiz do dente-de-leão demonstrou capacidade de provocar morte celular em diferentes linhagens de câncer testadas em laboratório.
Um dos trabalhos apontou que mais de 95% das células de câncer de cólon morreram em até 48 horas após exposição ao extrato. Os pesquisadores também observaram redução do crescimento tumoral em camundongos. No entanto, os próprios cientistas destacaram que os testes ocorreram apenas em ambiente controlado e não representam evidência de cura em seres humanos.

Estudos apontam potencial, mas não comprovam tratamento
Pesquisas posteriores também analisaram os efeitos do dente-de-leão sobre células de leucemia, câncer de próstata, melanoma e câncer gástrico. Em alguns casos, o extrato induziu a chamada apoptose, processo conhecido como “morte programada” das células cancerígenas, enquanto preservava parcialmente células saudáveis.
Apesar dos resultados considerados promissores na fase pré-clínica, médicos e pesquisadores reforçam que isso não significa que a planta possa substituir tratamentos convencionais.
A médica, nutricionista e pesquisadora Paula Ravasco afirmou que nenhuma planta, chá ou substância natural pode ser apontada atualmente como cura para uma doença complexa como o câncer. Segundo ela, o desenvolvimento de terapias oncológicas exige estudos clínicos rigorosos, com testes de segurança e eficácia em humanos.
Especialistas ouvidos por organizações internacionais de checagem também alertaram que não existem ensaios clínicos conclusivos comprovando que o dente-de-leão cure câncer em pacientes. Pesquisadores da Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health afirmaram não conhecer qualquer uso clínico aprovado da planta para prevenção ou tratamento oncológico.
Já a organização Cancer Research UK destacou que suplementos naturais podem até interferir em medicamentos utilizados no tratamento contra o câncer, aumentando riscos aos pacientes.
Uso tradicional da planta segue popular
O dente-de-leão é utilizado há séculos em práticas medicinais tradicionais na Europa, Ásia e América do Norte. A planta costuma ser associada a efeitos diuréticos, digestivos e de suporte ao funcionamento do fígado e da vesícula biliar.
Além do uso popular, o vegetal possui vitaminas, minerais e compostos antioxidantes, o que mantém o interesse científico sobre possíveis aplicações terapêuticas futuras.
Mesmo assim, instituições médicas reforçam que resultados obtidos em células isoladas ou em animais frequentemente não se repetem no organismo humano. O Memorial Sloan Kettering Cancer Center, nos Estados Unidos, lembra ainda que o consumo da planta pode provocar alergias e interações medicamentosas.
Especialistas pedem cautela contra abandono de terapias
O principal alerta da comunidade científica é para que pacientes não abandonem tratamentos convencionais em troca de soluções divulgadas sem comprovação.
Atualmente, terapias como quimioterapia, radioterapia, imunoterapia e cirurgias seguem sendo os métodos reconhecidos cientificamente para combate ao câncer. Qualquer uso complementar de substâncias naturais deve ocorrer apenas com orientação médica.



