O debate sobre o futuro do trabalho no Brasil ganhou força após declarações do presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), Olavo Noleto, que defendeu mudanças na jornada atualmente adotada por parte dos trabalhadores. Para ele, a manutenção da escala 6×1 pode tornar a contratação pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) cada vez menos atrativa, sobretudo para as novas gerações.
Em entrevista ao Poder360, Noleto afirmou que a discussão sobre a jornada de trabalho está diretamente relacionada à capacidade de o país manter trabalhadores no emprego formal. “É a defesa do futuro do Brasil. Se o Brasil não avançar na escala de trabalho, ninguém vai querer ser CLT”, declarou.
A avaliação ocorre em meio à discussão no Congresso sobre uma proposta que pretende reduzir a jornada semanal e ampliar o período de descanso dos trabalhadores.
Jovens buscam mais flexibilidade no trabalho
A mudança no perfil das novas gerações também aparece em pesquisas sobre mercado de trabalho. Um levantamento global da Deloitte com integrantes da Geração Z e Millennials aponta que apenas 6% dos jovens colocam a ascensão na hierarquia empresarial como principal objetivo profissional.
No Brasil, 89% dos entrevistados consideram ter propósito no trabalho algo essencial para alcançar satisfação e bem-estar. O resultado indica uma transformação nas expectativas em relação à carreira, com maior valorização de autonomia, flexibilidade e significado nas atividades profissionais.

Nesse cenário, modelos tradicionais de trabalho passam a ser questionados por uma parcela dos trabalhadores mais jovens. Entre os fatores apontados estão experiências familiares relacionadas ao excesso de trabalho, a percepção de que a estabilidade profissional pode ser afetada por demissões em massa e a pressão por resultados sem contrapartidas consideradas suficientes.
A CLT, entretanto, continua sendo responsável por assegurar uma série de direitos trabalhistas, como férias remuneradas, 13º salário, FGTS e limites para a jornada. O debate atual não está relacionado à eliminação desses direitos, mas à possibilidade de adaptar a organização do trabalho às novas demandas do mercado.
Lula prevê votação do fim da escala 6×1
O tema também recebeu apoio do presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Durante o evento Lula com Mulheres, realizado neste sábado (29) em Belo Horizonte, o presidente afirmou que espera a aprovação do fim da escala 6×1 pelo Congresso na próxima semana.
“Nós vamos aprovar, essa semana, o fim da escala 6×1”, afirmou Lula.
Na sequência, ele defendeu que a mudança permitiria aos trabalhadores ampliar o tempo disponível para a vida pessoal, incluindo cuidados com os filhos, lazer e relacionamentos.
A proposta está relacionada à PEC 221/2019, que prevê uma redução progressiva da jornada máxima de trabalho de 44 para 40 horas semanais, além da garantia de dois dias de repouso remunerado.
O texto já avançou na Câmara dos Deputados e deve ser analisado pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado na quarta-feira (2). De acordo com líderes partidários, há expectativa de aprovação na comissão, mas ainda não está definido se a proposta seguirá imediatamente para votação no plenário.
Mudança pode alterar relação entre empresas e trabalhadores
A discussão sobre a escala 6×1 ganhou dimensão econômica justamente por envolver dois interesses distintos: a necessidade das empresas de manter operações e a busca dos trabalhadores por melhores condições de jornada.
Para defensores da mudança, uma rotina com apenas um dia de descanso semanal pode dificultar a atração e retenção de profissionais, especialmente em setores que dependem de mão de obra jovem. A avaliação é de que condições mais flexíveis poderiam contribuir para tornar o emprego formal mais competitivo diante de outras formas de trabalho.
Por outro lado, qualquer alteração na jornada exige análise dos impactos sobre empresas, custos trabalhistas, produtividade e organização das atividades. Por isso, a eventual aprovação da PEC deverá ser acompanhada de uma fase de adaptação às novas regras.











