A forma como a Uber divide a receita das viagens entre a empresa e os motoristas voltou a ser alvo de debates após um estudo apontar mudanças significativas no modelo de remuneração adotado pela plataforma. De acordo com uma análise conduzida por Len Sherman, professor da Columbia Business School, a fatia retida pela companhia em diversas cidades dos Estados Unidos já supera 50% do valor pago pelos passageiros.
Os dados indicam uma evolução expressiva da participação da empresa nas corridas. Em 2022, a retenção média girava em torno de 32%. Em 2024, o percentual havia subido para aproximadamente 42%, chegando agora a patamares superiores à metade do valor desembolsado pelos usuários em alguns mercados.
Segundo o estudo, a mudança está relacionada à adoção, a partir de 2022, de sistemas de precificação algorítmica. Desde então, as tarifas cobradas dos passageiros e os valores repassados aos motoristas passaram a ser definidos em tempo real, com base em diferentes variáveis processadas automaticamente pela plataforma.
Na avaliação de Sherman, o novo sistema ampliou a diferença entre o valor pago pelo usuário e a remuneração efetivamente recebida pelo motorista.
O pesquisador destaca que, nos primeiros anos de operação, a Uber promovia a atividade ressaltando que os condutores ficariam com cerca de 80% do valor das corridas. Atualmente, segundo os dados analisados, a realidade seria bastante diferente, com a empresa absorvendo mais da metade da receita em diversas localidades.
Como funciona a remuneração dos motoristas
Hoje, a plataforma utiliza uma taxa de serviço variável, substituindo o modelo antigo, no qual a empresa cobrava percentuais mais previsíveis, geralmente entre 20% e 25% do valor das viagens.
Na composição do ganho dos motoristas entram diversos fatores, como uma tarifa-base mínima, o tempo e a distância percorridos, além do preço dinâmico aplicado em momentos de maior demanda, quando há mais passageiros solicitando corridas do que veículos disponíveis.
Também fazem parte da remuneração taxas de espera, cobranças por cancelamentos e gorjetas, que são integralmente destinadas aos motoristas.
Segundo a própria empresa, o objetivo é manter sua taxa de serviço próxima de 25% do valor da viagem. Entretanto, esse percentual pode variar e chegar a cerca de 40%, dependendo das características de cada corrida.
Em trajetos com trânsito intenso ou duração maior do que a prevista inicialmente, a plataforma pode reduzir sua participação para compensar o tempo adicional do motorista. Já em viagens mais rápidas ou com tarifas mais elevadas, a fatia destinada à empresa tende a aumentar.
Brasil discute maior transparência sobre os repasses
O debate sobre a distribuição dos ganhos também ganhou força no Brasil. Recentemente, a Uber atendeu a uma solicitação da Defensoria Pública do Estado do Paraná (DPE-PR) e passou a exibir aos passageiros, ao final das corridas, quanto será destinado ao motorista, qual é a taxa de serviço e qual parcela permanece com a empresa.
A medida busca ampliar a transparência nas operações das plataformas digitais e esclarecer aos usuários como ocorre a divisão do valor pago pela viagem.
Dados da plataforma GigU, especializada em monitorar a rentabilidade dos motoristas de aplicativos, mostram ainda que os rendimentos podem variar significativamente entre regiões de um mesmo estado, evidenciando diferenças importantes nas condições de trabalho e na lucratividade da atividade.
Para Len Sherman, a evolução das taxas cobradas pela Uber coloca a empresa em um patamar semelhante ao de outras gigantes da economia digital que já enfrentaram questionamentos regulatórios em razão da parcela retida nas transações realizadas em suas plataformas.




