O Grupo Gennius, responsável por uma das maiores operações de alimentação rápida do Brasil, entrou em recuperação judicial diante de uma dívida de R$ 265,2 milhões. O pedido foi aceito pela 1ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo e coloca sob proteção judicial um conglomerado que reúne centenas de unidades das marcas Habib’s, Ragazzo e Tendal.
A solicitação foi apresentada na segunda-feira (24), aproximadamente dois meses depois de a companhia conseguir uma proteção provisória contra cobranças e protestos. O objetivo inicial era utilizar esse intervalo para tentar chegar a um entendimento com os credores sem precisar iniciar formalmente uma recuperação judicial.
Como as negociações não produziram um acordo capaz de solucionar o problema financeiro, o grupo acabou recorrendo ao mecanismo previsto na legislação para empresas em dificuldades.

Grupo reúne centenas de operações
A estrutura do Gennius é considerada complexa e verticalizada. De acordo com a decisão judicial, diferentes partes da operação são distribuídas entre empresas específicas, incluindo 10 franqueadoras e holdings, 17 sociedades operacionais, seis churrascarias Tendal, 119 restaurantes Habib’s e 26 unidades Ragazzo.
A recuperação judicial busca justamente reorganizar essa estrutura financeira e permitir que o grupo continue funcionando enquanto negocia suas obrigações.
Ao apresentar o pedido, a companhia apontou uma combinação de fatores para explicar o agravamento da situação. Entre eles estão os efeitos provocados pela pandemia de Covid-19, a transformação do mercado de alimentação com a expansão dos aplicativos de entrega e o encarecimento do crédito.
O aumento dos juros teve peso especialmente relevante na argumentação. O grupo afirma que a Selic, que estava próxima de 4% e posteriormente chegou a cerca de 15%, elevou de forma significativa o custo para captar novos recursos e renovar dívidas existentes.
Justiça suspende cobranças, mas impõe prazo ao grupo
Com o processamento da recuperação autorizado, a Justiça determinou a suspensão das ações de execução relacionadas às dívidas das empresas abrangidas pelo processo. Também foi estabelecido que os credores não poderão interromper ou suspender contratos exclusivamente por causa do pedido de recuperação judicial.
A decisão, porém, não concedeu todos os pedidos feitos pelo grupo. A Justiça manteve de fora da liberação determinados recebíveis bancários que haviam sido entregues como garantia fiduciária.
Agora, o Gennius terá 60 dias para apresentar um plano de recuperação. O documento deverá indicar como a empresa pretende reorganizar suas obrigações e negociar com os credores. Caso o plano não seja apresentado dentro do prazo, o processo poderá avançar para uma situação de falência.
Recuperações judiciais atingem nível recorde no Brasil
A crise enfrentada pelo grupo ocorre em um momento de forte pressão sobre as empresas brasileiras. Dados do Monitor RGF-BIZDOC apontam que o número de companhias em recuperação judicial chegou ao maior nível desde o início da série histórica, em julho de 2023.
No fim de junho, 6.341 empresas estavam nessa condição na base restrita do levantamento, que não considera microempresas, filiais e negócios inativos. O estoque aumentou 6,2% no primeiro semestre de 2026, embora o ritmo tenha sido inferior aos 7,3% registrados no mesmo período do ano anterior.
Considerando a base completa, que reúne todos os CNPJs com registro de recuperação judicial, o crescimento chegou a 8%.
O cenário também envolve companhias de grande porte. Empresas como Casas Bahia, Toky, que reúne Mobly e Tok&Stok, Lojas Marabraz, CVLB, Americanas e outras enfrentam processos de reestruturação ou dificuldades financeiras.
Juros altos e consumo menor pressionam empresas
Para especialistas, parte dos casos recentes apresenta características semelhantes. Um dos principais fatores é o aumento expressivo das dívidas justamente em um período no qual o crédito permaneceu caro por bastante tempo.
A combinação se torna ainda mais difícil quando ocorre simultaneamente a uma redução do consumo das famílias. Com menos demanda, empresas passam a ter maior dificuldade para gerar caixa suficiente para cobrir despesas, investimentos e compromissos financeiros.
No setor de alimentação, a transformação provocada pelo delivery também alterou a dinâmica dos negócios. O crescimento das plataformas de entrega abriu novas possibilidades para restaurantes, mas aumentou a concorrência e modificou o comportamento dos consumidores, afetando especialmente modelos que dependiam fortemente do movimento nas lojas físicas.











