A misteriosa figura de Mother Shipton, considerada a vidente mais famosa da Inglaterra, continua despertando curiosidade séculos após sua morte. Entre as diversas profecias atribuídas a ela, uma das mais conhecidas afirma que “um dragão ardente atravessará o céu seis vezes antes que a Terra morra”, previsão frequentemente associada, sem comprovação, ao fim da humanidade.
A frase faz parte de um conjunto de escritos populares ligados à profetisa, cujo nome verdadeiro era Ursula Southeil. Embora a imagem dela tenha sido cercada por lendas e relatos sobrenaturais desde o século XVI, historiadores destacam que grande parte das profecias mais famosas não possui origem comprovada e muitas foram publicadas apenas centenas de anos depois de sua morte.
Segundo a tradição popular, Ursula Southeil nasceu em 1488, em uma caverna próxima ao rio Nidd, na região de Knaresborough, no norte da Inglaterra. O local, conhecido atualmente como Mother Shipton’s Cave, permanece aberto à visitação e se tornou uma das atrações turísticas mais famosas do condado de North Yorkshire.
A história relata que a mãe, Agatha, tinha apenas 15 anos quando deu à luz e nunca revelou a identidade do pai da criança. Em uma época marcada por forte superstição, ambas passaram a ser alvo de acusações de bruxaria e acabaram isoladas da comunidade.
Diversos relatos descrevem Ursula como uma criança de aparência incomum, com nariz curvo, costas arqueadas e traços considerados estranhos pelos moradores da época. Esses elementos alimentaram rumores de que ela possuía poderes sobrenaturais.
Após viver os primeiros anos na caverna, ela foi acolhida por outra família, enquanto sua mãe foi enviada para um convento, onde morreu poucos anos depois.

Curandeira e suposta profetisa
Na vida adulta, Ursula casou-se com o carpinteiro Toby Shipton, de quem herdou o sobrenome pelo qual se tornaria conhecida. Após ficar viúva, passou a viver de forma mais isolada, dedicando-se ao estudo de plantas medicinais e à produção de remédios naturais.
Com o passar dos anos, sua fama como curandeira foi acompanhada pela reputação de prever acontecimentos futuros. Relatos da época afirmam que até o rei Henrique VIII teria feito referência à chamada “Bruxa de York”, embora não exista consenso entre historiadores sobre essa identificação.
Entre as previsões tradicionalmente atribuídas a Mother Shipton estão acontecimentos como a ascensão da rainha Elizabeth I, a derrota da Armada Espanhola, a execução de Maria Stuart e o Grande Incêndio de Londres, ocorrido em 1666 — mais de um século após a morte.

Profecias sobre o fim do mundo geram debates
Uma das passagens mais conhecidas atribuídas à vidente menciona que “um dragão ardente atravessará o céu seis vezes antes que a Terra morra”, seguida da afirmação de que “a humanidade tremerá”. Ao longo das décadas, o texto recebeu inúmeras interpretações, sendo relacionado por diferentes grupos a cometas, meteoros, foguetes espaciais, guerras e outros acontecimentos.
No entanto, pesquisadores ressaltam que não existe qualquer evidência histórica de que essa profecia tenha sido escrita pela própria Mother Shipton.
Estudos indicam que diversos textos considerados “proféticos” surgiram apenas no século XIX. Um dos principais responsáveis por essa expansão foi Charles Hindley, editor que publicou, em 1871, obras atribuídas à vidente contendo previsões sobre trens, automóveis, submarinos, aviões e até o fim do mundo, acontecimentos impossíveis de serem verificados nos manuscritos mais antigos.
A previsão de que o mundo acabaria no ano 2000, por exemplo, também é amplamente considerada uma adição posterior e acabou desmentida pelos fatos.
Entre história e folclore
A trajetória de Mother Shipton permanece cercada por elementos históricos e narrativas folclóricas. Histórias populares afirmam que ela realizava feitiços, convocava criaturas sobrenaturais e até teria escapado de um tribunal montada em um dragão, episódios sem respaldo documental e vistos pelos especialistas como parte da construção do mito ao longo dos séculos.
Historiadores destacam que os primeiros registros escritos sobre sua vida surgiram apenas décadas após sua morte, em panfletos publicados no século XVII. Com o passar do tempo, sua imagem foi sendo transformada até consolidar a figura clássica da “velha bruxa” presente no imaginário popular britânico.












