Vice-presidente do BEI fala sobre geração de energia limpa

O banco é acionista maioritário do Fundo Europeu de Investimento e seu foco tem sido financiar projetos de combate à mudança do clima

3 de junho de 2023 às 0h26

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Crédito: BEI \ Divulgação

O Banco Europeu de Investimento (BEI) é um instrumento financeiro da União Europeia. Criado em 1958, no âmbito do Tratado de Roma, está sediado em Luxemburgo e tem por missão contribuir para o desenvolvimento equilibrado e harmonioso do mercado interno no interesse do bloco econômico.

É acionista maioritário do Fundo Europeu de Investimento (FEI) e seu foco tem sido financiar projetos que apoiam o combate à mudança do clima, o desenvolvimento sustentável e o desenvolvimento de “infraestruturas essenciais” dentro e fora da União.

O banco desenvolve projetos no Brasil desde 1997 e o País é o maior beneficiário dos financiamentos da instituição financeira nas Américas, com 46 projetos, totalizando cerca de 5,24 bilhões de euros, desde o início das operações. Os principais setores que receberam financiamento do BEI no Brasil foram: energia (51,9%), telecomunicações (15,68%), indústria (14,15%), linhas de crédito variadas (10,06%) e transportes (4,03%).

Minas Gerais também se destaca no relacionamento com a instituição financeira. Contratos de 120 milhões de euros ou o equivalente a R$ 600 milhões já foram assinados com o Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG), que é o agente intermediador dos projetos no Estado.

Em visita ao Estado nos últimos dias, o vice-presidente do BEI, o economista português Ricardo Mourinho, conversou com o DIÁRIO DO COMÉRCIO sobre a atuação do banco, o relacionamento com a instituição de fomento mineira e a liberação de novos recursos para projetos sustentáveis em Minas Gerais.

Qual a atuação do BEI?

O BEI atua dentro e fora da União Europeia. Fora da União Europeia, no ano passado fizemos cerca de 10 mil milhões de euros (10,8 bilhões de euros) de financiamentos. Fazemos porque entendemos que os desafios que enfrentamos, especificamente, as questões da transição climática e da transição digital, que vão para além dos relatórios da União Europeia e são desafios globais. Trabalhamos com diversos países parceiros para os apoiar e os financiar nesta transição, que tem em vista as prioridades definidas pela União Europeia e que também são as prioridades do Banco Europeu de Investimentos no sentido de apoiar essa transição e a inovação e de trabalhar com os diferentes países e alinhar nossos objetivos. Sempre encontramos no Brasil um parceiro. Felizmente, desde o início do ano, com um governo mais alinhado com as nossas prioridades no que se refere à variação climática, à transição digital e à inovação. Negociamos diversos milhões com o governo federal e encontramos um bom acolhimento nessa relação.

Quanto foi investido no Brasil nos últimos anos?

O banco trabalha no Brasil desde 1997. Desde então, fizemos operações no valor de 5,4 bilhões de euros. O ano passado foi um ano recorde, fizemos 700 milhões de euros em financiamentos e esperamos no futuro poder manter este volume e, eventualmente, aumentá-lo, já que existem projetos que estão alinhados com nossos objetivos, que também são os objetivos do governo federal, dos governos estaduais e dos brasileiros.

Qual a participação e a importância de Minas Gerais?

Minas Gerais é um estado com quem temos uma relação já de alguns anos. Trabalhamos com o BDMG e com o banco temos uma operação assinada, antes da Covid-19, de 100 milhões de euros, com o objetivo precisamente de financiar a transição climática. Depois, durante a pandemia, fizemos uma readequação desse montante para disponibilizar desses 100 milhões de euros, 30 milhões de euros para o apoio às pequenas empresas, através de capital circulante. Dos 60 milhões de euros restantes, financiamos cerca de 40 projetos de parques solares no Estado e contribuímos para este grande desafio que Minas Gerais e o Brasil têm. Temos também uma operação com a Copasa. É uma área que gostamos muito também pelo impacto na vida das populações de melhorar o saneamento, seja o esgoto ou o abastecimento de água, porque isso é uma questão fundamental no desenvolvimento, na saúde pública e na capacidade das pessoas de desenvolver seus negócios de natureza de infraestrutura básica.

A atuação do banco inclui projetos de sustentabilidade, energéticos e de desenvolvimento de pequenos negócios. Como é a priorização de cada área?

A sustentabilidade é um tema transversal. Já era para o banco desde algum tempo e com a aprovação pela Comissão Europeia do european green deal, ou seja, do pacto verde europeu, o banco aprovou seu roteiro de banco do clima. Esse roteiro é um documento estratégico que define essencialmente que o banco se compromete a dedicar pelo menos 50% de seu financiamento para projetos de ação climática e sustentabilidade ambiental, se compromete a não apoiar quaisquer projetos com base em combustíveis fósseis e a mobilizar nesta década de 2020 a 2030, um trilhão de euros em investimento na área de ação climática. Começamos em 2020 e até 2022 fizemos uma mobilização de 200 bilhões de euros na área. Portanto, estamos no bom caminho e esta é uma prioridade transversal. Isso quer dizer que seguimos esta prioridade quando financiamos empresas de energia renovável, redes elétricas, projetos de eficiência energética com grandes empresas, mas também quando fazemos operações intermediadas, como é o caso das operações com o BDMG, em que financiamos um banco de desenvolvimento regional para chegar às PMEs, às empresas de capitalização média e também às famílias. O que fazemos é juntar 60 anos de experiência e a capacidade de captar fundos no mercado em condições vantajosas a redes que os nossos parceiros têm e que permitem levar os recursos aos beneficiários.

As fontes limpas de energia são um diferencial do Brasil na transição energética. Ainda assim, vocês vislumbram um espaço para crescer nesta área no País?

Vislumbramos no Brasil espaços para desenvolver projetos de energias limpas. O Brasil tem um potencial imenso que pode permitir utilizar a produção de energia limpa como uma commodity ou matéria-prima a ser vendida a outros países. O País é claramente um candidato a ser um grande exportador de energia. É também um país de território muito vasto, cuja Amazônia representa uma parte muito importante, e que consideramos que os desmatamentos põem em risco, uma floresta que é um bem público mundial. Cabe a todos os países do mundo trabalhar em conjunto para que se possa desenvolver a economia sustentável na região e para que os povos que vivem lá tenham cada vez melhores condições de vida, rendimento, emprego e, sobretudo, tudo isso gerado de forma sustentável e não tenham necessidade de desmatamento para o aproveitamento agrícola. Esse é um trabalho que queremos fazer e é um potencial que identificamos também por aqui, onde encontrarmos no novo governo uma grande vontade de trabalhar conosco para aproveitar esse potencial. Além disso, o Brasil é um país enorme, com uma capacidade imensa, uma possibilidade de produção industrial nas diversas áreas por sua dimensão bastante importante e um parceiro naquilo que é o conceito de autonomia estratégica europeia. A Europa percebeu com a pandemia e depois com a guerra na Ucrânia, que tinha uma dependência muito grande de alguns países. Países, com regimes políticos que não são aquilo que ambicionamos do ponto de vista dos direitos humanos e do ponto de vista do desenvolvimento das democracias. Da forma como olhamos para a necessidade de eliminar esta dependência desses países que usam as matérias-primas e a sua produção como armas naquilo que é a discussão geopolítica, identificamos o Brasil como um dos países que pode ser nosso parceiro e que deve ser parceiro da Europa para podermos diversificar as nossas fontes de abastecimento, seja de energia, de matérias-primas críticas ou daquilo que se faz com elas. O Brasil é um país com enorme potencial. Na América Latina é onde está a maioria de nossas operações; 40% dos nossos investimentos região estão aqui e, por isso, decidimos abrir um escritório, que vai nos permitir estar no Brasil com presença física e em contato permanente com todos os nossos parceiros: governo federal, governos estaduais, empresas brasileiras, empresas europeias com operações locais e também com os bancos de desenvolvimento regional, os bancos comerciais que nos permitem fazer as operações que chegam às pessoas e às pequenas e médias empresas.

Temos no Estado muitos projetos ainda embrionários, mas já com algum vulto, na área de baterias e mobilidade urbana. As linhas do BEI também contemplam esse tipo de projeto?

O banco tem apostado em financiar projetos de desenvolvimento de baterias de nova geração. Não a mera mineração e exploração das matérias-primas críticas e raras, mas de forma que elas possam ser transformadas de forma sustentável nos países onde são extraídas e que isso possa gerar valor para esses países. Para a Europa, o importante é que esta colaboração seja entre iguais e que deixe o valor para quem produz. Que deixe valor na América Latina e no Brasil, onde há produção e onde existem condições não só para que esses minerais e essas matérias-primas possam ser extraídas, mas também transformadas e chegar a um nível, bem como as baterias, que possam ser incorporadas em meios de transporte, que também podem ser produzidos no Brasil por empresas brasileiras ou europeias. Que possamos ter esta visão de duas áreas econômicas com um número de consumidores relevante, com a capacidade tecnológica de elevação muito importante e que possam trabalhar em conjunto e partilhar o valor, a experiência e a criação de emprego de qualidade e bem-estar das outras pessoas.

Você citou a importância e a preocupação com a Amazônia. Crédito de carbono também é uma possibilidade?

Crédito de carbono é algo que existe na Europa, nós conhecemos e o banco tem tido um importante papel na monetização para que depois possam ser investidos em projetos de energia renováveis. Portanto, há, sim, disponibilidade para trabalhar e olhar como um mercado de carbono pode funcionar nomeadamente no Brasil.

Sua agenda em Minas incluiu um encontro com o governador Romeu Zema (Novo) para celebrar os contratos de 120 milhões euros com o BDMG. Virão mais recursos pela frente?

O que podem esperar de nós é disponibilidade e vontade de trabalhar e desenvolver mais e melhores projetos. No ano passado tivemos um volume recorde de 700 milhões de euros em financiamentos e queremos manter esse nível. Temos essa vontade, a disponibilidade e os meios. Agora vejamos os projetos. Vamos analisá-los. Vemos alinhamento e foi essa mensagem que transmitimos ao governador. Vamos seguir com o trabalho, olhando para as oportunidades, vendo como podemos, com o nosso financiamento e com a nossa experiência, aportar valor e gerar bons projetos em Minas Gerais. Porque para nós, mais do que por milhões ou bilhões, importante é o impacto positivo que isso tem na vida das pessoas, na forma como impacta e melhora o nível de vida, o bem-estar, o rendimento e o emprego de qualidade.

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