Além da mineração: Congonhas busca diversificação da economia

Transformação está baseada em setores estratégicos como turismo, agricultura e tecnologia

6 de janeiro de 2024 às 0h18

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O município de Congonhas, na região Central, hoje é cercado por 24 barragens, sendo 17 ativas, de diferentes companhias | Crédito: Carlos Alberto/Imprensa MG

Congonhas, na região Central de Minas Gerais, sempre viveu dividida entre duas vocações latentes, a mineração – desde o ouro de aluvião, no século 18; até o minério de ferro, item fundamental na pauta de exportações de Minas Gerais e do Brasil -, e a originalidade e força da sua cultura e arte – que a coloca na lista dos Patrimônios Culturais Mundiais reconhecidos pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), desde 1985. Agora, a cidade busca a diversificação da economia com vistas a um futuro menos dependente da mineração, em linha com os conceitos de sustentabilidade e capaz de continuar atrativa para as novas gerações e atrair investimentos.

Essa transformação está baseada em quatro setores estratégicos: turismo, agricultura, inovação/tecnologia e economia criativa. De acordo com o superintendente de Desenvolvimento Econômico de Congonhas, Geordane Luciano da Silva, para alcançar esse objetivo, a Diretoria de Turismo passou a responder à Superintendência.

“No final do ano passado foi aprovada nova estrutura administrativa para sustentar a estratégia de diversificação da economia. Em 2021, criamos um fundo para desenvolver a economia que usa até 10% da Cfem (Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais) para investir em quatro áreas prioritárias: turismo, agricultura, inovação/tecnologia e a economia criativa. Na verdade, o turismo já estava na pauta, mas é claro que esse rearranjo nos ajuda a caminhar com mais estrutura. A Superintendência está dentro da Secretaria de Planejamento de Gestão, onde também está a Diretoria de Patrimônio Histórico, por exemplo. É um trabalho em conjunto, mas é importante que esteja no lugar certo. O foco agora é o setor produtivo. É essa virada que nós pretendemos dar em 2024”, explica Silva.

A Cfem é uma compensação paga pela utilização econômica dos recursos minerais em seus respectivos territórios, e deve ser aplicada apenas em projetos que, direta ou indiretamente, revertam em benefícios para a comunidade local, na forma de melhoria da infraestrutura, da qualidade ambiental, da saúde e educação.

O primeiro projeto derivado do fundo foi um programa de microcrédito. Em 2023, foram finalizados R$ 19 milhões e quase 600 empresas beneficiadas de todos os segmentos. Agora, segundo o gestor, será elaborado um plano de desenvolvimento sustentável. Para isso foi contratada a Fundação Dom Cabral (FDC) para trabalhar os eixos patrimônio, turismo, agricultura, meio ambiente, e inovação/tecnologia.

“Vamos criar os artefatos de uma política pública de longo prazo que vai construir essa nova Congonhas do pós-minério. Isso, sem perder de vista o que podemos extrair do minério hoje. Ainda podemos aproveitar uma cadeia inteira ligada ao setor mineral, mas eu costumo dizer que, além de diversificar a economia, não podemos perder oportunidades. Uma cidade cheia de equipamentos turísticos, cheia de história, não é estratégico, não é inteligente, não aproveitar isso. Nós temos as quitandeiras, com o festival há mais de 20 anos, as artesãs da Uniarte, com 25 anos de existência. Então, são várias oportunidades, são joias que a gente precisa trabalhar”, pontua.

Mineração ainda sustenta economia de Congonhas

Responsável por 85% da arrecadação do município, a mineração ainda protagoniza um diálogo complicado com a sociedade. Atividade extrativista de enorme impacto social e ambiental, nos últimos anos – especialmente depois dos desastres provocados pelo rompimento de barragens de rejeitos da Vale nos municípios mineiros de Mariana (2015) e Brumadinho (2019) -, a mineração vem sendo questionada e provocada a contribuir com o fortalecimento das comunidades onde atua para prepará-las para quando o ciclo minerário se esgotar.

Nesse cenário, a prefeitura municipal tem buscado estreitar as conversas com as essas empresas. O município hoje é cercado por 24 barragens, sendo 17 ativas, de diferentes companhias. Entre elas está a Casa de Pedra, da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), considerada uma das maiores em área urbana da América Latina. A barragem com rejeitos de minério de ferro comporta 50 milhões de metros cúbicos e, para efeito de comparação, é cinco vezes maior do que a barragem da Mina Córrego do Feijão, que se rompeu em Brumadinho, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), em 2019, matando quase 300 pessoas.

Crédito: Adobe Stock

Para criar o Fundo Soberano, a superintendência visitou Maricá, no Rio de Janeiro. A cidade tem como base da economia e extração de petróleo e é referência na construção de políticas públicas dessa natureza.

“O diálogo com as mineradoras ainda não está dentro do que gostaríamos, mas tem melhorado. A criação do plano de desenvolvimento econômico é uma das partes da estratégia. O nosso objetivo é desenhar um futuro claro para a os próximos 10 anos e, aí sim, sentar com os atores importantes, incluindo as grandes empresas. O propósito é combinar as políticas de ESG deles com o que nós identificamos como prioridade. Aí, sim, vamos precisar de mais entregas, de transformação da sociedade. Queremos uma política de longo prazo. O fundo soberano vai ser a poupança geracional. Em Maricá, as plataformas estão há 200 quilômetros da cidade. Aqui, as minas estão no meio urbano. Precisamos olhar para isso. A sociedade tem que amadurecer para entender quem vai construir esse futuro. Precisamos de todo mundo junto e as empresas têm papel fundamental para que isso seja possível”.

Resiliência às mudanças climáticas é contemplada no plano de diversificação econômica

O verão, que traz com ele a temporada de chuvas, acende o alerta em quase todas as cidades mineiras, em especial aquelas que pertencem ao chamado Ciclo do Ouro, assim como Congonhas. A topografia acidentada, a presença de muitas barragens de rejeitos da mineração e o histórico de grandes tragédias como o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, que levou lama até o Oceano Atlântico, em 2019, são condições que impõem ao poder público e também à iniciativa privada a obrigação de estabelecerem planos e metas para mitigar e resistir aos efeitos das mudanças climáticas e dos, cada vez mais comuns, eventos climáticos extremos.

Parcerias com universidades estão sendo feitas para promover esse futuro pós-mineração para Congonhas. Foi assinado um termo de colaboração com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) para buscar  continuamente soluções para a melhoria da qualidade do ar. Alguns resultados já foram alcançados na comunidade de Lobo Leite, com a redução da poluição, coisa que não acontecia desde 2016, segundo a Fundação Estadual de Meio Ambiente (Feam).

E a Universidade Federal de São João del Rei (UFSJ) está desenvolvendo uma ferramenta para o controle e monitoramento do volume de água dos rios que cortam a cidade.

“Várias obras para evitar alagamentos e deslizamentos foram feitas. A base do nosso trabalho será o nosso plano de desenvolvimento sustentável e estamos encaminhando um projeto-piloto, junto com o BNDES, que é estruturante de adequação às mudanças climáticas. Precisamos nos equilibrar entre as necessidades das pessoas hoje e qual futuro devemos construir para todos. Buscamos parceiros, como as universidades, para encontrar soluções para problemas imediatos e para os de longa duração”, destaca o superintendente de Desenvolvimento Econômico de Congonhas.

Museu de Congonhas reverencia e protege patrimônio da humanidade

Réplica de uma igreja centenária
Museu de Congonhas | Crédito Leo Lara/Arvore de Comunicação

Considerado o primeiro “museu de sítio” ou “museu território” – que almeja, primordialmente, o desenvolvimento dos moradores e a preservação dos seus bens culturais, materiais ou imateriais, promovendo o envolvimento continuado da comunidade sob o viés da valorização patrimonial, cultural e identitária – do Brasil, o Museu de Congonhas comemora a marca de 300 mil visitantes.

Junto à indução do turismo na cidade, o equipamento tem como missão proteger e monitorar o conjunto arquitetônico do Santuário de Bom Jesus de Matosinhos. O monumento, reconhecido como Patrimônio Cultural da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), em 1985, é considerado uma das maiores expressões do Barroco brasileiro e mundial. A imagem da Basílica, cercada pelos 12 profetas esculpidos por Aleijadinho, é uma referência para os amantes da arte em todo o mundo.

O Museu, projetado há oito anos pelo arquiteto mineiro Gustavo Penna, ocupa uma área de 3.452,30 m². Composto por salas de exposição, biblioteca, auditório, espaço educativo, anfiteatro ao ar livre e áreas administrativas, ele monitora e avalia o estado de conservação de todo o complexo e articula redes e projetos de estudo sobre o barroco e a pedra-sabão.

“Desde a inauguração nós trabalhamos para trazer a população para o Museu. Só cuida e sabe falar sobre o seu patrimônio quem o conhece. O Museu é pra todos. Ficamos extremamente felizes quando recebemos turistas, mas um papel importante que desempenhamos é, justamente, preparar a população para receber esse visitante a partir de um trabalho de valorização e pertencimento da comunidade e sua história”, destaca a diretora-presidente da Fundação Municipal de Cultura, Lazer e Turismo de Congonhas (FumCult) – responsável pelo Museus de Congonhas, entre outros equipamentos culturais da cidade -, Lana Márcia.

Para comemorar o oitavo aniversário, está em cartaz a exposição “Aleijadinho Virtual – o primeiro artista brasileiro”. A experiência é um tributo ao maior artista do Brasil Colônia e do Barroco Americano. Por meio de realidade virtual e realidade aumentada o visitante pode conhecer em detalhes algumas das obras do mestre e ser guiado por ele mesmo em um passeio pela sua oficina e sua história. Criada pelo Studio KWO XR, a exposição fica no Museu de Congonhas até o dia 14 de janeiro.

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