Cresce o número de demissões voluntárias em Minas Gerais

Em 4 anos, número de pedidos de desligamento registra expansão de 108% em Minas Gerais

6 de fevereiro de 2024 às 7h00

img
Eliane Ramos aponta insatisfação de equipe | Crédito: ABRH/Divulgação

Maior competitividade e mais exigências são características cada vez mais comuns no mercado de trabalho. Enquanto este cenário cresce, do outro lado aumenta também o número de demissões ou desligamentos voluntários em Minas Gerais. Em quatro anos, a alta foi de 108% nos pedidos. A incidência no Estado é alta, mas segue a tendência nacional de elevação. De 2020 a 2023, as demissões “a pedido” registraram aumento de 36% no País.

Em Minas, de 2020 para 2023, os pedidos de demissão voluntária passaram de 385 mil para 802 mil. No Brasil, o salto foi de 15,9 milhões em 2020, para 21,8 milhões em 2023. Os números foram divulgados pelo Ministério do Trabalho e Emprego. Especialistas ouvidos pelo DIÁRIO DO COMÉRCIO levantam que culturas tóxicas, insegurança, falta de reconhecimento e transparência; e ressignificação do trabalho são alguns dos motivos que estão levando as pessoas a desistirem do emprego.

Para a diretora de Advisory (consultoria) da Selpe, empresa há 58 anos no mercado especializada em gestão de pessoas, Fabrizia Araújo Soares, depois da pandemia, o trabalho foi ressignificado e esse é um dos grandes motivos para alta de demissões. “O lugar do trabalho na vida das pessoas tem passado por um processo de reconstrução. O ambiente corporativo, e como ele processa as relações com o trabalho, se tornou muito importante na avaliação das pessoas. Não havia um valor da cultura corporativa e o engajamento delas com o negócio da empresa, hoje há”, avalia. E isso tem contribuído para as escolhas do colaborador.

Outro fator levantado pela diretora é a transparência e a forma como a empresa conduz a jornada de carreira. “Hoje é entendido que a empresa é parceira do colaborador, porque a carreira é dele. Então, é preciso políticas de gestão de pessoas com transparência em fatores ligados à reconhecimento, promoção e desligamentos”, explica a especialista.

Fabrizia Soares levanta ainda a questão da voz do colaborador. Ele quer ter voz. “O colaborador precisa estar junto nas tomadas de decisões que antes vinham numa definição top down”, ressalta. Ela argumenta que agora a gestão é mais humanizada, com compartilhamento de visões, com equipes complementares e multidisciplinares que contribuem com a tomada de decisão e o avanço dos negócios. “Ser um colaborador apenas nas atividades que eu executo, já não é mais um desejo dessa geração que está dentro das empresas. Elas querem contribuir e compartilhar mais. Querem perceber que de fato colaboram e contribuem para as tomadas de decisões”, avalia Fabrizia Soares.  

Ela alega que a conexão de propósito é fundamental para a permanência do colaborador nas empresas. Quando ele se reconhece naquilo que está acontecendo corporativamente, isso dá ao colaborador uma segurança psicológica e uma relação sustentável com a empresa. “É preciso um caminho sinérgico entre colaboradores e empresas. E os RHs (recursos humanos) têm trabalhado forte para entender qual é a cultura desejada pelo colaborador”, observa.

Insatisfação da Geração Z contribui com demissões voluntárias

A presidente da Associação de Recursos Humanos (ABRH), Eliane Ramos, atribui a inserção da geração Z no mercado de trabalho como um dos motivos da alta no número de demissões voluntárias. Ela acredita que a mudança do chamado mundo “Vuca”, para o mundo “Bani”, ou seja em que o primeiro se caracteriza pela volatilidade, ambiguidade, incerteza e complexidade e o segundo pela fragilidade, ansiedade, não-linearidade e incompreensão trouxe a necessidade de conviver com o caos. “Aquela incerteza virou a ansiedade, a doença mental tem aumentado. O mundo complexo virou não-linear e a ambiguidade gerou um mundo incompreensível”, explica. 

A especialista avalia que a insatisfação, antes das demissões voluntárias, gerou uma fase do que eles chamam de demissão silenciosa, em que o trabalhador insatisfeito, entrega apenas o que é obrigação, sem envolvimento ou expectativa de ir além. “Os colaboradores desvalorizados, subestimados ou sem oportunidades de crescimento, acabam passando por isso. E a geração Z é uma evolução deste momento. Não estando feliz, ela busca outra coisa”, justifica. 

Ela explica que se o ambiente organizacional não estiver alinhado com os valores dessa geração, em que o colaborador não é valorizado, que ele não tem equilíbrio entre vida pessoal e vida profissional, ele opta por sair. “Para esta geração, ser workaholic não funciona. Eles estão preocupados com a saúde mental e é preciso minimizar os conflitos de gerações dentro das empresas”, analisa.

A supervisora do projeto ‘Carreiras’ do Ibmec, que funciona como uma consultoria para os alunos da instituição, Aline Melazo, também associa a alta das demissões com a questão geracional. “Hoje nós temos um nova geração no mercado que são os nascidos na década de 1990 e enxergam o trabalho de uma maneira muito diferente”, explica. Ela acredita que a ressignificação do trabalho pós-pandemia com a mistura de gerações dentro das organizações, proporcionam este movimento. As pessoas, na explicação dela, passaram a valorizar o que ela chama de “salário emocional” , que é a qualidade de vida, a conexão com o propósito e a autonomia. “Mudou como o profissional entende o trabalho, e as empresas estão no movimento contrário de sair do home office. A presencialidade tem gerado insatisfação nos times com um todo nas empresas”, comenta. 

Aline Melazo | Crédito: Ibmec BH/Divulgação

Na opinião da supervisora, as empresas ainda estão se adaptando a essa questão, enquanto os colaboradores já evoluíram. “A falta de reconhecimento, de propósito e de planejamento de carreira impacta nessas demissões”, alerta.

Aquecimento do mercado fomenta autonomia

Pelo viés econômico do movimento de demissões voluntárias, o economista João Pio, da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), levanta a hipótese de que o aquecimento do mercado pode ser o responsável pela alta das demissões a pedido. “Com o mercado aquecido, os profissionais encontram novas oportunidades de trabalho ou até mesmo vão para o empreendedorismo”, explica.

Quando avaliados os setores onde ocorreram as demissões voluntárias, o que se nota é que o setor de serviços foi o que mais fez os pedidos em Minas Gerais, sendo responsável por 36,4% do total no Estado. Enquanto a agricultura corresponde a 26,7% dos pedidos voluntários de desligamento, em 2023, e a indústria tem uma fatia de 26,5%. 

Outra hipótese levantada pelo economista é o fato de hoje haver outras possibilidades de aferir renda, como as atividades de motoristas de aplicativos e de entregas domiciliares. “Dependendo do nível de produtividade e escolaridade, esse trabalhador consegue uma remuneração próxima ou maior do que ele tinha, e opta por esta maior liberdade”, analisa. 

Essa hipótese, na opinião de João Pio, sinaliza na avaliação dele um problema muito grave para o futuro. A educação do brasileiro é ruim e a produtividade também. “A produtividade do trabalhador brasileiro, na média, é um quarto do trabalhador americano. O que significa que precisamos de quatro trabalhadores brasileiros para cobrir o serviço de um americano”, exemplifica.

Assim, ele acredita que a falta de valorização da educação do País acaba contribuindo para um profissional com baixa educação e baixa produtividade, resultado em salários precários e pouca possibilidade de ascensão. “Com outros mecanismos de aferir renda que se aproximam de uma produtividade baixa, você acaba tendo uma carência de oferta de mão de obra formal, seja para indústria ou para o serviço”, argumenta.

Na análise dele, quando tem colaboradores mais escolarizados, a empresa conta com trabalhos mais qualificados, o que movimenta a economia como um todo. E os trabalhos de menor qualificação acabam ganhando produtividade, em função da carência de mão de obra. “É um fenômeno que acontece muito nos EUA. As pessoas vão para lá para ter um trabalho de baixíssima qualificação. Porque elas acabam tendo um salário muito alto. Como é uma economia muito mais diversificada tecnologicamente, as pessoas de maior qualificação migram para ali e puxam a produtividade da economia como um todo”, explica Pio.

Facebook LinkedIn Twitter YouTube Instagram Telegram

Siga-nos nas redes sociais

Comentários

    Receba novidades no seu e-mail

    Ao preencher e enviar o formulário, você concorda com a nossa Política de Privacidade e Termos de Uso.

    Facebook LinkedIn Twitter YouTube Instagram Telegram

    Siga-nos nas redes sociais

    Fique por dentro!
    Cadastre-se e receba os nossos principais conteúdos por e-mail