Futebol dos EUA supera o do Brasil como negócio

Em 2022, o faturamento dos 28 times que disputaram a liga do EUA totalizou US$ 1,6 bilhão contra US$ 1,1 bilhão dos 20 clubes do Brasileirão

29 de janeiro de 2023 às 12h15

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O EUA será sede da próxima Copa do Mundo, em 2026, compartilhada com México e Canadá | Crédito: John David Mercer-USA Today Sports/Reprodução/Facebook/MLS

Brasília – O futebol profissional dos Estados Unidos, país sem tradição no esporte, superou pela primeira vez o do Brasil em negócios. Em 2022, o faturamento dos 28 times que disputaram a MLS – a liga dos EUA – totalizou US$ 1,6 bilhão (R$ 8,1 bilhões) contra US$ 1,1 bilhão (R$ 5,6 bilhões) dos 20 clubes da Série A do Brasileirão.

O cenário foi traçado pela consultoria especializada Sports Value, que realizou um levantamento sobre o desempenho financeiro da modalidade nos dois países.

A virada reflete uma política de investimentos massivos no futebol dos EUA, que, em menos de duas décadas, atraiu a preferência dos jovens, antes aficionados principalmente por basquete e beisebol.

Dados do instituto de pesquisa Gallup revelam que, atualmente, 25 milhões de norte-americanos se dedicam ao futebol.

A modalidade explodiu entre jovens, especialmente as meninas. A força delas se reflete na seleção, que já conquistou quatro títulos mundiais para os EUA.

Apesar disso, ainda não há times femininos disputando campeonatos profissionais relevantes, como ocorre no resto do mundo. A receita, segundo a consultoria, é irrisória.

O interesse dos americanos pelo futebol atrai 11% das pessoas com menos de 16 anos, mesmo público que busca o basquete e quase o dobro dos que optam pelo beisebol (6%).

Esse resultado se expressa nos negócios. Recentemente, a MLS fechou um contrato de transmissão dos jogos da liga com a Apple TV. Serão US$ 250 milhões (R$ 1,3 bilhão) por temporada.

O público da MLS é jovem e conectado com transmissões via streaming. Antes, a receita convencional com a transmissão de jogos de futebol – por todos os veículos – não passava de US$ 100 milhões (R$ 507 milhões) por ano.

Os EUA já despontam como terceiro país em relevância para a Fifa, a federação internacional de futebol, no critério geração de audiência. Perde para China e Brasil.

O país será sede da próxima Copa do Mundo, em 2026, compartilhada com México e Canadá.

“Os dados revelam que, apesar de ser pentacampeão do mundo e ostentar alguns dos maiores craques, o Brasil patina na hora de transformar o esporte em dinheiro”, diz Amir Somoggi, sócio da Sports Value.

“A liga profissional MLS ajudou muito a popularizar o soccer [futebol] no país [EUA] e hoje, somente para entrar na liga, o investidor precisa pagar US$ 325 milhões [R$ 1,6 bilhão]”, diz Somoggi. “Esse valor não passava de US$ 50 milhões [R$ 254 milhões] há dez anos.”

Para ele, os clubes brasileiros avançam lentamente na profissionalização de sua gestão para fazer da modalidade uma fonte de divisas.

O endividamento, a falta de estruturas próprias (estádios e centros de treinamento) e de recursos para bancar jogadores de alto nível acabam comprometendo os resultados esportivos e afugentando torcedores.

Mas os times brasileiros estão se articulando no momento para formar uma liga profissional semelhante à MLS – que nos EUA ajudou a impulsionar o esporte entre os mais jovens.

Pelos cálculos da Sports Value, isoladamente, esse movimento pode agregar R$ 7 bilhões em novas receitas em até cinco anos. Se conseguirem somente a definição de um novo calendário de jogos, serão R$ 4 bilhões.

Segundo dirigentes dos clubes, as negociações avançam. O Palmeiras, por exemplo, é um dos defensores do modelo.

“Precisamos estruturar [a liga] para atingir um nível de faturamento condizente com as nossas expectativas frente aos mercados do exterior”, disse o clube em nota.

“Ela é fundamental para modernizarmos a gestão, os estádios e os centros de treinamento, além de reduzirmos o endividamento dos clubes a fim de viabilizar o fluxo de caixa.”

Hoje, segundo a consultoria, os 30 maiores clubes profissionais do País – incluindo os 20 que disputam a Série A – valem R$ 33,2 bilhões, um crescimento de 31% pós-pandemia. O valor não considera as dívidas de R$ 7,4 bilhões desse grupo.

“Caso esses clubes brasileiros fossem negociados em conjunto, esse seria o valor a ser cobrado. É muito pouco perto do potencial do futebol brasileiro”, diz Somoggi.

“Alguns clubes têm mais ativos, como estádio ou CT [centro de treinamento]. Outros têm maior investimento em jogadores. Há ainda o valor das marcas dos times. A avaliação considera a realidade individual de cada clube. Números financeiros foram atualizados pelo IPCA [inflação].”

No levantamento, a soma dos ativos (patrimônio) foi de R$ 10,8 bilhões, sem o valor do intangível (plantel de jogadores). As marcas dos clubes agregaram mais R$ 8,9 bilhões e os jogadores profissionais e das categorias de base, outros R$ 9,6 bilhões. Os direitos esportivos referentes às competições de que os clubes participam renderam R$ 4 bilhões.

“Clubes que detêm ativos modernos valem mais. Controlar ativos próprios também faz diferença. Mesmo com menores torcidas e menor valor de marca, um estádio é muito representativo em valuation [avaliação econômica]. Possuir um centro de treinamento ou um shopping, manter um elenco com bons jogadores [com passe mais valioso] tem muito peso na avaliação final.”

Fator de impacto negativo para o valor do clube é o endividamento. Uma parte das dívidas dos clubes é de caráter fiscal com o governo federal – algo em torno de R$ 2,8 bilhões, valor que está sendo negociado no âmbito do Profut, programa de saneamento dos passivos fiscais dos times, criado em 2015.

Os mais valiosos do Brasil

O Flamengo é hoje o líder no ranking, avaliado em R$ 3,8 bilhões. O clube se recuperou de uma queda de 6% em sua avaliação econômica durante a pandemia – era cotado a R$ 2,8 bilhões, em 2020 – e cresceu principalmente calcado na força de sua marca, que, isoladamente, vale R$ 1,4 bilhão.

Procurado, o clube não respondeu até a publicação desta reportagem.

O Palmeiras, segundo colocado, com R$ 3,4 bilhões, cresceu 45% em relação a 2021, em função do desempenho em campo, que gerou altas receitas de TV e premiações em dólares. Possui os jogadores mais caros do País, segundo o levantamento.

“Precisamos satisfazer o nosso universo de torcedores com vitórias e títulos. O futebol é a mola propulsora. É isso que fortalece o ciclo virtuoso do nosso negócio. Por isso, procuramos manter elencos competitivos equilibrando o orçamento de despesas e investimentos. Quando um clube alcança conquistas esportivas, essas receitas são alavancadas”, disse o clube.

De acordo com a Sports Value, no ano passado, o Atlético-MG passou o Corinthians e agora é o terceiro mais valioso do Brasil (R$ 3,1 bilhões).

Esse crescimento foi resultado de uma série de fatores: aumento das receitas e alto valor dos jogadores, além de investimentos em imóveis – é sócio de um dos principais shoppings de Belo Horizonte e constrói um estádio próprio. Em ativos totais, incluindo o time, é o maior do Brasil, com R$ 1,6 bilhão.

Segunda maior torcida do País, o Corinthians está avaliado em R$ 2,9 bilhões. O clube é o terceiro em ativos totais, mas seu elenco vale a metade do rival Palmeiras.

Em ascensão

Destaques no levantamento, times como Juventude, Chapecoense, Botafogo, Atlético-GO e Fortaleza registraram os maiores crescimentos em sua avaliação econômica.

Para o presidente do Fortaleza, Marcelo Paz, a fórmula é a profissionalização do comando. O clube, avaliado em R$ 545 milhões, subiu duas posições no ranking da Sports Value.”Sou presidente eleito e atuo quase como CEO [de uma empresa]”, disse Paz à Folha.

O dirigente afirma que impôs regime de metas e desempenho para a diretoria do clube.

“Quando assumi o cargo, em 2017, eram 7.500 sócios. Hoje já são 42 mil. Nossas vendas de varejo (com artigos estampando a marca do clube) rendiam R$ 800 mil e agora giram R$ 30 milhões [por ano].”

Boa parte desse resultado se deve à boa gestão do “produto básico” – os jogadores. “Priorizamos o resultado esportivo e muito do nosso resultado vem daí. Saímos da Série B para a Série A, recebemos receita direta por isso. Em 2021, chegamos à semifinal [da Copa do Brasil]. No ano passado, às quartas. Isso tudo traz dinheiro.” (Julio Wiziack/Folhapress)

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