Trotta afirma que atualmente cerca de 11 mil médicos utilizam o software da startup | Crédito: Divulgação

Com a chegada do Covid-19 ao Brasil no fim de fevereiro, diversos segmentos recorreram às soluções tecnológicas para se reinventar e sobreviver em meio aos desafios impostos pelas medidas de distanciamento social.

Este tem sido o caso também da área da saúde. Com a regulamentação da telemedicina pelo governo federal enquanto durar a pandemia, ferramentas e software de teleatendimento passaram a ser altamente demandados por clínicas, médicos e hospitais.

O novo cenário beneficiou empresas especializadas em tecnologia para a área. A startup mineira iMedicina, por exemplo, experimentou crescimento de 194% nas vendas no primeiro semestre deste ano na comparação ao último semestre de 2019. O bom desempenho é atribuído, justamente, ao lançamento da plataforma digital e à disponibilização gratuita do prontuário eletrônico para médicos de todo o Brasil.

De acordo com o médico oftalmologista e CEO do iMedicina, Raphael Trotta, o software é um aliado forte no combate ao novo coronavírus para evitar aglomerações nos hospitais e pronto atendimentos e permitir que médicos e pacientes fiquem seguros em casa, com orientação e acompanhamento de qualidade. Segundo ele, atualmente, mais de 11 mil médicos de todo País já utilizam o software.

“Estamos no mercado desde 2016 e, muito antes do que vivemos hoje, eu já atuava com consultoria para clínicas e hospitais no ganho de escala, atração de pacientes, gestão e atendimento de clínicas e hospitais. A iMedicina surgiu então como um apoio completo por meio de uma plataforma digital, na qual os médicos e demais profissionais conseguem criar e gerenciar tudo de forma automática”, afirmou.

Sobre as consultas on-line, Trotta disse que a tecnologia já estava sendo desenvolvida pela startup e, com a autorização por parte dos órgão competentes, como o Conselho Federal de Medicina (CFM), conseguiram lançá-la em 15 dias. Segundo ele, com a novidade, foi possível ajudar muitos médicos a recuperarem uma queda vertiginosa que observaram quando da chegada da pandemia ao Brasil.

“É um momento delicado para todo mundo e para todas as empresas. No início várias clínicas diminuíram o volume de pacientes, houve queda abrupta nos atendimentos e algumas chegaram a fechar. Mas logo em seguida veio a portaria do Ministério da Saúde que autorizou a teleconsulta e ganhamos notoriedade, justamente porque disponibilizamos a ferramenta sem custo para os médicos e ajudamos muitos a voltarem a trabalhar”, explicou.

Diferencial – O médico ressaltou que o diferencial está no processo de entrega de alto valor agregado com baixo custo para os profissionais da área. Conforme ele, a versão básica da ferramenta não tem custo e as clínicas podem cadastrar até 100 médicos.

Nos primeiros dias de lançamento da funcionalidade de telemedicina, o iMedicina conquistou mais de 5 mil adesões e, em apenas 30 dias após o lançamento, o módulo atingiu 22 estados brasileiros e o Distrito Federal, com crescimento do volume de teleconsultas de cerca de 30% por semana desde o início de abril.

“Diferentemente de muitas soluções, nossa principal inovação é a altíssima eficiência na camada de infraestrutura da plataforma e nos processos internos de desenvolvimento e manutenção do software. Isso nos permite oferecer uma plataforma completa, com agendamento online pelo paciente, agenda médica para gestão do dia a dia, cadastros ilimitados de pacientes, prontuário eletrônico seguro, prescrição digital e teleatendimento, sem custo algum para o médico”, detalhou.

A expectativa é que a demanda prossiga elevada no decorrer dos próximos meses. Assim, a empresa espera encerrar 2020 tendo dobrado de tamanho em relação ao ano anterior.

Mineiros desenvolvem diagnóstico para dengue

Alice Versiani se juntou a pesquisadores da UFMG para desenvolver a tecnologia | Crédito: Divulgação

Apesar de antiga, a dengue ainda é um problema de saúde que requer atenção. Para se ter uma ideia, dados do Boletim Epidemiológico de Monitoramento dos casos de Dengue, Chikungunya e Zika, emitido no início desse mês, mostram que até o momento Minas Gerais registrou 53.089 casos de dengue só nesse ano. Além dos altos números ainda há o problema da dificuldade em diferenciar a doença de outros vírus que causam enfermidades com sintomas muito parecidos.

Segundo a pesquisadora Alice Versiani, seu agente causador, o Aedes aegypti circula com outros vírus bastante similares, tanto em suas partículas e proteínas quanto na resposta imunológica e nos sintomas dos infectados. “Por isso, a busca para aperfeiçoar os testes sorológicos comuns, com maior sensibilidade, é tão importante”, conta.

Com isso em mente, Versiani se juntou a um grupo de pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), coordenado pelo professor Dr. Flávio Guimarães da Fonseca, para desenvolver uma tecnologia de diagnóstico mais sensível  às infecções pelo vírus da dengue. O projeto de pesquisa conta com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig) e busca evitar, com esse novo teste, a reação cruzada a outros vírus que despertam sintomas muito parecidos com a doença, como o Zika.

A pesquisadora explica que a metodologia tem grande limite de detecção, com capacidade para identificar concentrações picomolares de anticorpos. “Isso possibilita identificar a infecção pelo vírus, mesmo em casos de concentrações baixas das proteínas de defesa”, informa.

Versiani foi a primeira autora de um artigo, publicado na Scientific Reports, que apresenta os resultados do estudo. Segundo a pesquisadora, o novo sensor é relativamente simples de desenvolver e não requer outros reagentes para revelação do resultado, como geralmente é exigido por outros diagnósticos. “São testes rápidos e, por causa das propriedades óticas das nanopartículas, muito mais sensíveis que os já existentes. Esperamos, assim, conseguir, ao final do desenvolvimento, uma tecnologia barata, prática, rápida e robusta”, informa.

Nanopartículas – O nanosensor é formado de nanopartículas de ouro mais a proteína do vírus da dengue. Para o teste, o grupo utilizou tanto anticorpos comerciais quanto soros de pacientes. “Nos comerciais vimos que o sensor reconhece o anticorpo específico do vírus da dengue e que o limite de detecção da técnica era muito baixo”, informa.

Já ao testar o sensor no soro de pacientes os pesquisadores verificaram que a tecnologia, além de reconhecer anticorpos gerados pela infecção natural, foi capaz de diferenciar os anticorpos gerados pela dengue, daqueles produzidos em uma infecção causada pelo Zika. Todo esse processo de identificação baseia-se na mudança do espectro da nanopartícula: os pesquisadores emitem luz na superfície dos fragmentos de ouro para produzir uma ressonância dos elétrons. O mesmo acontece com as substancias colocadas naquela superfície alterando a ressonância.

Próximos passos – Assim como os testes normalmente utilizados para dengue, essa nova versão é essencialmente sorológica. “Porém, poucos testes disponíveis atualmente, apesar de altamente tecnológicos, possuem tal sensibilidade e especificidade”, destaca.

A pesquisadora informa, ainda, que este estudo foi um teste de princípio da técnica, que já teve sua patente nacional e internacional depositada pela equipe. Agora, os pesquisadores pretendem escalona-la para ser realizado em um número maior. “Outro ponto importante é que um software de análise dos resultados está sendo desenvolvido para facilitar a interpretação dos dados fornecidos pelo nanosensor”, adianta Versiani.