45% das mulheres sofrem algum tipo de transtorno mental

Sobrecarga de trabalho está entre a principal causa

5 de dezembro de 2023 às 0h12

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Maíra Liguori e Nana Lima, da Think Olga, afirmam que essa discussão precisa ser ampla | Crédito: Divulgação

A pandemia de Covid-19 foi uma das piores crises já enfrentadas no século e suas consequências ainda ressoam no cotidiano, mesmo após o fim da emergência sanitária. Para as mulheres, entretanto, que já chegaram em 2020 adoecidas, o problema se apresentou ainda mais profundo. É o que mostra o relatório “Esgotadas: o empobrecimento, a sobrecarga de cuidado e o sofrimento psíquico das mulheres”, desenvolvido pela ONG Think Olga, que indica que 45% das mulheres brasileiras possuem hoje um diagnóstico de ansiedade, depressão ou outros tipos de transtornos.

A pesquisa inédita foi realizada com 1.078 mulheres, entre 18 e 65 anos, em todos os estados do País, entre 12 e 26 de maio de 2023. “A saúde mental não deve ser uma discussão limitada por fatores biológicos. Claro que existe influência deles, mas o que o relatório nos mostra é que a perspectiva de gênero e suas interseccionalidades afetam diretamente as relações sociais e, portanto, impactam diretamente no psicológico das mulheres”, explica a diretora da Think Olga, Maíra Liguori.

Com a proposta de entender as estruturas que impõem o sofrimento das brasileiras na atualidade, o relatório reúne dados que demonstram desde a sobrecarga de trabalho e insegurança financeira até o esgotamento mental e físico causado pela economia do cuidado, que enquadra todas as atividades relacionadas aos cuidados com a casa e com produção e manutenção da vida. Entre as principais conclusões do relatório:

  • Esgotadas, portanto, adoecidas – 45% das entrevistadas foram diagnosticadas com algum transtorno mental. A ansiedade, o estresse e a irritabilidade fazem parte do cotidiano de pelo menos 4 em cada 10 mulheres. As pressões estéticas e as violências de gênero também cobram seu preço: entre as entrevistadas mais jovens, 26% declararam que os padrões de beleza impostos impactam negativamente na saúde mental. Já o medo de sofrer violência é citado por 16% das respondentes;
  • Maior vulnerabilidade e maior responsabilidade – As mulheres são as únicas ou principais provedoras em 38% dos lares. Essas mulheres são, em sua maior parte, negras, da classe D e E e com mais de 55 anos de idade. Somente 11% das entrevistadas dizem não contribuir financeiramente para a manutenção de suas famílias;
  • Mulheres dedicam o dobro de tempo nas tarefas de cuidado – Segundo dados da Pesquisa Nacional por amostra de domicílio realizada em 2022, as mulheres gastam 21,4 horas da semana em tarefas domésticas e do cuidado, os homens usam 11 horas. Já o relatório Esgotadas mostrou que a sobrecarga de trabalho doméstico e a jornada excessiva de trabalho foi a segunda causa de descontentamento mais apontada – atrás apenas de preocupações financeiras. O trabalho de cuidado sobrecarrega principalmente as mulheres de 36 a 55 anos (57% cuidam de alguém) e pretas e pardas (50% cuidam de alguém);
  • Responsabilidade demais adoece – 86% das mulheres consideram ter muita carga de responsabilidades. A insatisfação entre mães solo e cuidadoras é muito superior em relação àquelas que não possuem esse tipo de responsabilidade. As cuidadoras e mães-solo também são as mais sobrecarregadas com as tarefas domésticas e de cuidado, com 51% das mães e 49% das cuidadoras apontando a situação financeira restrita como o maior impacto na saúde mental. Isso quer dizer que a sobrecarga de cuidado também é um fator de empobrecimento das mulheres ou “feminização da pobreza”.

Diante da realidade, a Think Olga também traz pontos de partida para que a sociedade civil, o setor privado e o poder público possam começar a enxergar e a atuar sobre esses problemas. Para a codiretora da Think Olga, Nana Lima, “é necessário que comecemos a entender o impacto do trabalho de cuidado e suas consequências, além de partirmos de discussões que desestigmatizem tabus sobre a saúde mental. É essencial incentivar ações do setor privado, da sociedade civil e, principalmente, do setor público para um futuro viável para as mulheres”, avalia.

Minoria das empresas tem políticas eficazes

Embora 99% dos profissionais de Recursos Humanos (RH) ou gestão de pessoas acreditem que as companhias devem adotar estratégias voltadas para saúde mental dos colaboradores, apenas 34% das empresas desenvolvem ações efetivas com este objetivo, de acordo com uma pesquisa realizada pelo Infojobs, HR Tech que desenvolve soluções para RH. O estudo apresenta os impactos negativos e comprova que 61% das pessoas não se sentem satisfeitas ou felizes no trabalho, sendo que 86% mudariam de emprego em busca de mais saúde mental.

Crédito: Adobe Stock

“A atração e a retenção de talentos estão entre os maiores desafios enfrentados atualmente. E mesmo que a pesquisa indique que em 41% das organizações a felicidade corporativa e bem-estar dos funcionários tenham destaque para o time de gestão de pessoas, as ações não são implementadas como deveriam”, avalia a CEO do Infojobs, Ana Paula Prado.

A grande maioria dos profissionais de RH (91%) entende que benefícios voltados para saúde mental impactam a atração e retenção de talentos. De encontro com isso, 75% dos profissionais participantes da pesquisa afirmam que na empresa onde trabalham ou trabalharam recentemente não têm ações e suporte para temas relacionados.

Nas organizações que existem medidas para promover a saúde mental, os destaques ficam para campanha de bem-estar e saúde mental (43%), suporte com psicólogos (41%), canal de escuta ativa (37%) e treinamento para lideranças empáticas (35%) – para essa questão, foram consideradas múltiplas respostas. Além disso, 96% dos profissionais de RH ou gestão de pessoas acreditam que o recrutamento humanizado pode ser considerado uma prática voltada para a saúde mental. Na pesquisa de 2022, 93% dos profissionais da área de RH acreditavam nessa afirmativa.

Insegurança no ambiente corporativo

Pouco mais da metade (55%) dos respondentes diz que não se sente psicologicamente seguro na empresa em que trabalha ou já trabalhou. Entre os aspectos mais prejudiciais citam ambiente ou liderança tóxica e abusiva (64%), cobranças excessivas de resultados (40%) e pressão constante (37%).

“A pesquisa também revelou que 86% dos participantes acreditam que as empresas não estão preparadas para lidar com a saúde mental dos colaboradores. Algumas razões podem explicar a afirmação, como a falta de diálogo aberto durante todo o ano e olhar individual para cada colaborador, com a intenção de entender as necessidades únicas e particulares. Mas, além de encontrar justificativas, devemos encontrar soluções”, afirma.

Neste sentido, para a executiva, as lideranças e RH devem se comprometer em conscientizar e educar sobre assuntos envolvendo a saúde mental e criar uma cultura que promova o bem-estar para cada colaborador.

“Fomos acostumados com um mercado de trabalho competitivo e com grande pressão para resultados, mas ano após ano percebemos que é possível equilibrar vidas pessoal e profissional. Além de garantir satisfação, ainda impacta diretamente na produtividade e qualidade”, conclui.

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