Novo Normal: Atendimento médico-hospitalar se reinventa

13 de maio de 2021 às 0h27

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Revolução tecnológica, novos processos, qualificação profissional e reorientação do atendimento entre os desafios pós-Covid | Crédito: Rovena Rosa / Agência Brasil

Dizem que existem coisas que só entendemos a importância quando perdemos. Certamente, a saúde é uma delas. Enquanto saudáveis, mal pensamos nela, mas os anos de 2020 e 2021 clarearam para todos – ou, pelo menos, para a parte não negacionista – o quanto o conceito preconizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) faz sentido: “Saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a mera ausência de enfermidade”.

Diante de um desafio tão complexo, não nos atrevemos a tratar do tema como um todo. Nesta edição vamos buscar o novo normal do atendimento médico-hospitalar, talvez a face mais nítida das mudanças ocorridas durante e por causa da pandemia.

Revolução tecnológica, novos processos, qualificação profissional, reorientação do atendimento para a experiência do consumidor/cliente, inflação e escassez dos insumos, dependência das indústrias asiáticas, são apenas alguns dos desafios enfrentados pelos profissionais e players privados de saúde brasileiros em busca de novos modelos de assistência integrados e capazes de cobrir toda a diversidade de realidades existentes no País.

No novo normal, saúde busca integração e tecnologia

No vocabulário da pandemia, que trouxe palavras como comorbidades e extubação, reinvenção passou a ser clichê, mas foi exatamente isso que aconteceu com o setor de saúde, segundo o estudo “Lições da pandemia: perspectivas e tendências“, realizado pela Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp), em parceria com a Bain & Company.

De acordo com a sócia e líder da Prática de Saúde da Bain & Company, Luiza Mattos, o documento é dividido em três eixos principais: assistencial, pessoas e sustentabilidade. O primeiro tópico diz respeito aos novos modelos de assistência. Uma das tendências observadas é a consolidação do consumerismo em saúde, em que cresce a voz e a responsabilidade de escolha do usuário sobre como, quando e onde receber o cuidado, uma assistência mais humana e centrada no paciente, o cuidado integrado e a telessaúde. E, junto a isso, cresce a necessidade de um profissional mais tecnológico e, ao mesmo tempo, muito flexível, capaz de lidar com as ambiguidades de um sistema de saúde cada vez mais complexo, integrado e tecnológico.

“As tendências refletem necessidades que já tinham se apresentado em outros setores como omnicanalidade, atendimento centrado no cliente e telemedicina, por exemplo. Precisamos pensar no setor como uma cadeia e na responsabilidade dos entes. As soluções devem ser customizadas localmente. Devemos entender como usar dados para melhor direcionar as pessoas para cuidados que elas de fato precisam, evitando o uso equivocado de recursos”, explica Luiza Mattos.

Diante da exaustão do sistema e a explosão dos custos ficou impossível não pensar na sustentabilidade dos negócios em saúde durante e no pós-pandemia. A Covid-19 mostrou que as instituições precisam ser mais flexíveis e ágeis nas ações e decisões, além de se prepararem para diferentes cenários, a fim de identificar momentos e motivos necessários para investimento.

“Os custos explodiram e a receita caiu. Temos que fazer a conta, equilibrar o custo no longo e no curto prazo. É uma conta que vai ter que fechar no nível micro, dentro das empresas; e no macro, no setor”, pontua a sócia e líder da Prática de Saúde da Bain & Company.

Dia a dia

Liderando uma das principais redes de hospitais do Brasil, o diretor de Operações da Rede Mater Dei, José Henrique Salvador, também é vice-presidente do Congresso Nacional de Hospitais Privados (Conahp 2020). Para o gestor, um futuro sustentável do setor depende de novos modelos assistenciais integrados às políticas públicas de saúde.

“Precisamos de novos modelos de atenção, que contemplem dados para a tomada de decisão. Necessitamos conhecer as populações, ter informações confiáveis sobre as práticas de assistência para poder propor mudanças que beneficiem os pacientes. Utilizar a telemedicina, ter modelos mais capilarizados, com o paciente no centro do cuidado. Para isso, precisamos treinar e capacitar as pessoas. A pandemia evidenciou o quanto é importante o investimento em políticas públicas, acesso equânime a serviços de atenção básica. Fizemos uma campanha para mostrar para a população que as outras doenças também não podem esperar. Precisávamos preparar as estruturas para atender as pessoas nas suas outras necessidades. Mesmo mais pobres, as pessoas não estão abrindo mão dos planos de saúde. Esperamos políticas públicas de incentivo à economia para que as empresas do setor de saúde possam continuar exercendo seu papel”, analisa Salvador.

Precisamos de novos modelos de atenção, diz Salvador | Foto: Pedro Vilela / Agencia i7

No mesmo sentido, o CEO da Rede Paulo de Tarso, Carlos Costa, destaca a importância dos cuidados integrados e continuados para evitar que o sistema sofra um novo colapso no pós-pandemia, sem conseguir atender com qualidade as vítimas com sequelas da doença.

O Hospital Paulo de Tarso é considerado um hospital de transição, que atua na capacitação e reabilitação de pessoas com declínio de autonomia, vítimas de doenças crônicas e degenerativas. 

“De uma forma muito rápida a pandemia exigiu medidas de contingência. Para minimizar o impacto financeiro, logo estabelecemos o gerenciamento dos estoques, flexibilizamos os contratos de compra, replanejamento da logística de abastecimento e armazenamento de insumos. Não tenho dúvida que a maior vantagem competitiva é a capacidade de rápida adaptação. O perfil do hospital se enquadra totalmente nos grupos de risco da Covid-19. Diante desse cenário, foram adotados protocolos rígidos para a proteção dos nossos pacientes, elevando o nosso custo”, destaca Costa.

A pandemia, claro, fez com que investimentos fossem adiados, fluxos reorganizados e adoção de medidas como home office e redução de horários e remuneração à medida que as medidas provisórias eram editadas.

“Buscamos implementar uma cultura colaborativa e de integração, com assistência transdisciplinar, para gerar valor e eficiência. Não cabem mais modelos dissociados. Um sistema organizado é o que nos permite dar uma resposta adequada a um momento de crise como esse. Até o final de maio vamos inaugurar uma nova unidade de cuidados clínicos. É um dos investimentos que mantivemos e finalizamos, porque já enxergávamos o aumento da demanda de reabilitação. O grande desafio é a gente saber absorver a demanda do pós-Covid-19. Teremos dificuldade para retomar a economia. 70% da população depende exclusivamente do SUS. Olha o impacto se não conseguirmos dar acesso à reabilitação para essas pessoas. Se quisermos garantir saúde, as políticas de gestão de saúde também precisam evoluir”, completa o CEO da Rede Paulo de Tarso.

Saúde requer equipamentos e tecnologias nacionais

Para entender para onde vai um setor produtivo, um bom indicador é observar a indústria de equipamentos que serve a esse setor. No caso da saúde o cenário não difere muito dos demais setores e a dependência das importações pesou ao longo da pandemia.

Enquanto isso, exposta aos ventos pouco favoráveis da economia, a indústria nacional segue se esforçando. Sediada em Santa Catarina e com filial administrativa em Belo Horizonte, a Imex Medical Group atua no segmento de equipamentos e serviços na área de diagnósticos por imagem. A empresa estima, para 2021, faturamento de R$ 250 milhões e crescimento de 55%, em relação a 2020. Nos últimos cinco anos, o grupo investiu aproximadamente R$ 20 milhões em pesquisa e desenvolvimento de produtos.

De acordo com o diretor de Vendas da Imex, Maurício Silva, em 2020, devido à pandemia, foram realizados maiores investimentos com objetivo de oferecer aos clientes as melhores soluções tecnológicas com condições comerciais mais favoráveis.

“Como fomos distribuidores por muito tempo, percebemos que poderíamos ser mais porque o mercado carecia de um fabricante mais ousado no Brasil. Na pandemia, como uma empresa nacional, percebemos que podíamos ajudar muito. Clínicas e hospitais estavam com boa parte de seus produtos precisando de atualização, seja comprando ou fazendo upgrade. Precisamos antecipar alguns projetos, como tomógrafos e ressonâncias magnéticas. Existe ainda uma carência muito grande de raio-x, tomógrafos, ressonâncias, especialmente no segmento público. Há dez anos já perguntávamos por que não podíamos produzir aqui? Deixar tudo na Ásia saiu caro em vidas e em dinheiro agora. Temos capacidade de pesquisar, fazer algo no perfil latino-americano”, explica Silva.

Mais tecnologia, mais saúde 

As potencialidades da aplicação da inteligência artificial (IA) já são debatidas e, em boa parte, conhecidas em diversos setores. Conforme já publicado no DIÁRIO DO COMÉRCIO, Belo Horizonte vai ganhar o primeiro Centro de Inteligência Artificial em Saúde (CIIA-Saúde) do Brasil. O espaço vai integrar as áreas de ciências exatas e da saúde com sede no campus da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em associação com nove instituições de ensino superior e em parceria com quatro empresas das áreas de saúde, tecnologia e educação.

O foco será a pesquisa e o desenvolvimento de técnicas e soluções de inteligência artificial no auxílio a indivíduos e pacientes no autocuidado, bem como a médicos e profissionais de saúde no diagnóstico e tratamento das doenças e aos gestores de saúde na programação de ações de prevenção e organização da assistência à saúde, otimizando a utilização de recursos e melhorando a saúde das pessoas e da população no Brasil.

“Atuaremos em diversas frentes, na computação, na engenharia, na medicina. É um projeto que faz com que as áreas sinérgicas se encontrem e promovam avanços expressivos nas pesquisas”, destaca o pró-reitor de Pesquisa da UFMG, Mário Fernando Montenegro Campos. (com Mara Bianchetti)

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