Laura e Clara Luciano: é um privilégio continuar operando | Crédito: Alessa Semião

Empreendedores, cheios de propósitos, pouco arraigados aos lugares, estudiosos e destemidos. Do outro lado impacientes e, com poucos anos de vida, muitas vezes sem jogo de cintura. Esse é o retrato da geração que enfrenta a sua primeira verdadeira crise global à frente dos negócios.

A geração Y – que nasceu entre 1980 e 1995 -, e uma menor parte da geração Z – nascidos entre 1995 e 2010 -, encara como primeira experiência uma crise inédita praticamente para todos os seres humanos vivos hoje. A última catástrofe sanitária vivida pelo planeta como um todo foi há 100 anos, durante a Gripe Espanhola, em 1918. Naquela época, sequer a palavra tecnologia era comum e o mundo ainda não supunha elementos básicos da vida no século 21, como a televisão, a internet e, sequer, da penicilina, descoberta apenas em 1928.

Como será o “novo normal” da geração que está na casa dos 30 anos? Quais os medos, as angústias e a vantagem que essa turma leva na hora de reconstruir ou “apenas” construir o seu negócio e ajudar a remodelar a economia do País e do mundo?

Muitos analistas apontam que o Covid-19 tenha ofertado a eles um “intensivão” de maturidade, ensinando em meses o que levaria anos em termos de gestão e habilidades humanas. Mas, teriam eles resiliência suficiente para atravessar tamanhos desafios?

O futuro dessa geração é o futuro dos negócios e da economia. Então, qual o novo normal de quem nasceu negando a normalidade e prometendo um mundo melhor?

Novo normal reforça a importância da diversidade

Mônica Hauck: o maior desafio está na capacidade de resistir | Crédito: Divulgação/Sólides

Eles começam a empreender cedo e, nem sempre, seguem o caminho dos pais, embora tenham neles, muitas vezes, os maiores incentivadores. Longe do ideal da geração anterior, cujo sonho era entrar em uma grande empresa – de preferência estatal – e fazer lá uma longa carreira, eles sonham com o mundo. A meta é criar algo impactante, não ter patrão e não se prender a horários.

O Covid-19, que parou o mundo em março, também brecou essa geração acostumada à velocidade dos bytes. Para a CEO da Sólides, Mônica Hauck, o maior desafio está, justamente, na capacidade de resistir.

“Resiliência é uma palavra fácil na boca desses jovens, mas essa é a sua primeira prova de fogo real. Eles nasceram na era da abundância, mesmo a crise global de 2008 chegou para eles de uma forma muito suave, ou porque eram muito novos – a maioria sequer tinha começado a empreender -, ou porque aquela crise chegou de forma mais branda no Brasil que na Europa e Estados Unidos, por exemplo. Essa geração aprendeu muito pela leitura, principalmente na internet, e falta prática. Essa não é uma crítica, é uma realidade. Para a crise vinda da pandemia não existe tutorial, não há literatura, não existe um ‘case’ para ser estudado. Essa é a diferença e o desespero dos mais jovens”, explica Môncia Hauck.

Apesar das dificuldades que geram, inclusive, adoecimento mental, especialmente com problemas de depressão e ansiedade, a aposta da especialista é em um bom desempenho dessa geração de novos líderes.

Um estudo realizado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) aponta um aumento de 90,5% nos casos de depressão entre os brasileiros desde o início da quarentena. A proporção de entrevistados com depressão foi de 4,2% na primeira coleta de dados (entre 20 e 25 de março), para 8% na segunda coleta (entre 20 e 25 de março). O estudo também aponta crescimento nos casos de ansiedade e estresse agudos. No caso da ansiedade aguda, a proporção foi de 8,7% para 14,9%, e no caso do estresse, foi de 6,9% para 9,7%.

Em maio, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, alertou para um aumento de sofrimentos psicológicos atrelados ao Covid-19 e pediu a governos, sociedade civil e autoridades de saúde que atendam urgentemente às necessidades de saúde mental em meio à pandemia.

Segundo ele, as pessoas que mais precisam de ajuda são os profissionais de saúde, idosos, adolescentes, jovens e aqueles com condições de saúde mental preexistentes, além dos envolvidos em conflitos e crises.

“Após décadas de negligência e subinvestimento em serviços de saúde mental, a pandemia de Covid-19 agora está atingindo famílias e comunidades com estresse mental adicional. Mesmo quando a pandemia estiver sob controle, luto, ansiedade e depressão continuarão afetando pessoas e comunidades. Serviços de saúde mental são parte essencial de todas as respostas governamentais à pandemia”, afirmou Guterres, por meio de uma mensagem de vídeo.

Para a CEO da Sólides, a intimidade com a tecnologia é a grande vantagem competitiva dos mais jovens, porém a questão vai muito além disso. “A pandemia acelerou a necessidade da digitalização dos negócios e, claro, os jovens levaram vantagem porque já estavam inseridos nesse processo, são nativos digitais. Sou otimista em relação a essa geração. Eles vão sair muito fortalecidos, o que faltava de experiência, agora vão adquirir. Isso vai acelerar o conhecimento. Estão amadurecendo cinco anos em cinco meses. De tudo isso também fica como aprendizado a importância da diversidade nas equipes e na liderança. Em um momento de crise inédita como esse, um perfil apoia e complementa o outro, criando times mais eficientes e, realmente, resilientes”, completa a especialista.

Compreender as dificuldades faz parte da missão diária

O medo, constante, não me paralisa, diz Thaís Palhares | Crédito: Divulgação/Furmiga Comunicação

Do alto dos seus 24 anos, a empresária Thaís Palhares comanda uma equipe de 12 mulheres especializadas em estratégia e conteúdo digital focados no mercado artístico e do entretenimento. Antes da pandemia chegar ao Brasil, em março, a Furmiga Comunicação tinha apenas a metade do tamanho que tem hoje. Determinada, a jovem diz que o medo é um companheiro constante que não a paralisa, mas que a ajuda a refletir sobre as decisões a serem tomadas.

“Estou no mercado mais abalado pela pandemia: o entretenimento. Por mais que a gente consuma música digitalmente, o que sustenta financeiramente esse mercado são os shows. Sem eles, tudo vai parando. A pandemia está trazendo uma grande experiência. Sinto que envelheci uns cinco anos. Abri a empresa em outubro do ano passado e o Covid-19 chegou em março. Percebi como uma marca forte se sustenta diante de uma grande crise e aí estava a nossa chance. E essa é também a chance dos nossos clientes. Dentro da monotonia conseguimos trazer inovação com os recursos que a plataforma digital oferece. As funcionalidades já existiam, mas estamos usando de um jeito diferente e de acordo com cada marca individualmente”, explica Thais Palhares.

Para ela, fazer uma gestão de pessoas sensível é fundamental para os resultados da empresa. Entender o dia a dia das colaboradoras e compreender as dificuldades enfrentadas faz parte da missão diária.

“Me torno amiga dos meus clientes porque preciso entender qual a mensagem eles querem e precisam passar. Faço o mesmo com a minha equipe. Gosto de fazer uma gestão que pensa no funcionário, ele também está enclausurado. Tem que existir um cuidado, um afago. Pode ser uma folga, um lanche coletivo. Sem romantizar a pandemia, dizer pra ele que estamos todos juntos”, destaca a proprietária da Furmiga.

O espírito empreendedor do CEO do grupo de investimentos focado em venture capital, GreenCo, Rafael Almeida, aos 28 anos, é o mesmo. O grupo, sediado em Belo Horizonte, investe em startups de alto potencial, acreditando no poder de execução do empreendedor. Com participação ativa na operação, utiliza o conceito de Smart Money para potencializar o crescimento das empresas parceiras.

É preciso dar respostas rápidas, avalia Rafael Almeida | Crédito: Divulgação/Greenco

“Uma coisa que muda nesse momento é a relação com o negócio. O nível de informação que os jovens empreendedores têm hoje dilui bastante o risco. No GreenCo enxergamos o empreendedorismo como um propósito. Gostamos, como geração, de assumir riscos. A crise trouxe como ponto positivo a reflexão sobre a forma de fazer negócios e se relacionar com as pessoas. Do que tenho visto, vai ser um momento de um olhar mais profissional para a gestão, com relação ao risco, mais delicado. O digital expõe a empresa. Se ela não responde rápido, o impacto pode ser muito forte”, pontua Almeida.

No varejo de alimentos, as irmãs Clara e Laura Luciano continuam tocando a Bullger, no hipercentro, com a energia típica da juventude. Elas entendem que foi um privilégio continuarem operando, mesmo sem receber os clientes no salão da hamburgueria. A meta é aproveitar esse tempo para se desenvolverem no plano pessoal e empresarial.

“Nunca imaginei ter que passar tão jovem por algo assim. Tentamos aproveitar ao máximo o aprendizado, criar habilidade para lidar com o novo. Focamos em coisas que ficavam mais de lado, como desenvolvimento da liderança, para estreitar os laços com os funcionários, por exemplo. A pandemia não deve ser romantizada. A ressaca da pandemia vai ser brava. Serão meses ou até anos de recuperação. Mas já que é esse o nosso cenário, vamos levar da melhor maneira possível. Tentamos ler bastante, mas o sentimento é que por conta das nossas dimensões e a diferença econômica entre os países, a recuperação no Brasil vai ser muito diferente. Por isso precisamos estar ainda mais próximas dos nossos clientes da nossa equipe”, analisa Clara Luciano.