Professor da FDC mapeia ameaças do mundo até 2040

Migração de refugiados, invasão de Taiwan, pandemias e guerras são eventos prováveis

19 de janeiro de 2024 às 5h15

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Epidemias e conflitos sempre existiram e, justamente por estes eventos serem cíclicos, o professor Paulo Vicente se dedicou pela 2ª vez a olhar para o futuro de forma a elencar alguns prováveis acontecimentos | Crédito: Adobe Stock

Prever o futuro é algo impossível? Até alguns futuristas dizem que sim. Porém, a ciência e a evolução tecnológica aumentam a precisão da análise dos dados e da história e faz com que as suposições ganhem status de probabilidades e projeções cada vez mais reais. Este é o exercício que o professor de Estratégia, Gestão Pública e Negócios Internacionais da Fundação Dom Cabral (FDC), Paulo Vicente, fez ao escrever um artigo sobre o futuro, analisando e mapeando eventos críticos até 2040.

Em tempos de pandemia de Covid-19 e guerra da Ucrânia, a sensação de imprevisibilidade e insegurança aumentaram na sociedade. Entretanto, epidemias e conflitos sempre existiram no mundo e, justamente por estes eventos serem cíclicos, que o professor Paulo Vicente se dedicou pela segunda vez a olhar para o futuro analisando dados e informações de forma a elencar alguns prováveis eventos. “É quase uma reedição de um artigo que eu fiz em 2012 prevendo crises desta década. E acertei muitas coisas. Então, refiz este artigo prevendo quais seriam as crises de grandes impactos daqui até 2040”, comenta o professor da FDC.

Usando a referência temporal de ciclos tecnológicos desenvolvidos por Kondratieff e os ciclos de investimento fixo de Juglar, o professor analisou quais são os eventos críticos que podem acometer o planeta nos próximos 16 anos. O olhar para o futuro, de acordo com o estudioso, tem como objetivo principal reduzir as incertezas e permitir que organizações se preparem para ameaças e possíveis riscos. 

“É uma forma de alertar as organizações dos riscos e das oportunidades. O ser humano tem o viés para o otimismo, em que tende a ver as coisas de forma mais positiva. E um segundo viés que é o da linearidade, enxergando as coisas de forma mais linear, o que não é muito bom para viver mudanças. Então, o artigo tenta quebrar estes dois vieses”, argumenta. “As mudanças como a transição energética, por exemplo, traz oportunidades, sobretudo para o Brasil”, exemplifica.

Em tempos de pandemia de Covid-19 e guerra da Ucrânia (foto), a sensação de imprevisibilidade e insegurança aumentou substancialmente na sociedade | Crédito: Adobe Stock

Arcabouço lógico Pestal molda mapa de riscos

Para mapear os riscos possíveis, Paulo Vicente usou o arcabouço lógico Pestal (Políticos, Econômicos, Sociais, Tecnológicos, Ambientais e Legais) e produziu um Mapa de Riscos Pestal 2023-2040 em que dos 21 riscos levantados, dez passam por três filtros de alta probabilidade de ocorrer no período analisado e ter um grande impacto no mundo. Os dez riscos mais prováveis estão “negritados” na tabela abaixo:

Ao analisar o campo da ‘política’, o professor ressalta as guerras, mas sobretudo a possível guerra da Ásia e a possibilidade da China invadir Taiwan, o que afetaria e muito o Brasil. “Guerras desestabilizam o sistema e impactam quem trabalha com pouco estoque, afeta a logística, a atividade comercial, acabam proporcionando variações de preços e fluxos. E você precisa criar situações para se defender disso e a resiliência é cara”, diz. 

Ele explica que para se desvincularem da China, as empresas já possuem o movimento de fuga do país asiático, buscando alternativas para se restabelecerem. Ele trata esse movimento como reordenação das cadeias globais em que para fugir das guerras e da dependência de um único país, as empresas passam a buscar fornecedores e locais alternativos com custos menores ou semelhantes para ajustarem suas operações. “Esse risco ficou exposto com as crises logísticas causadas pela pandemia, pelo acidente que bloqueou o Canal de Suez em 2021, pela guerra da Ucrânia e pela crescente tensão militar no Pacífico e Oriente Médio”, avalia Vicente.

Nesse cenário, ele entende que a América Latina ganha uma posição privilegiada, sobretudo o México. Ele explica que o único país da América do Norte a integrar a América Latina já tem se beneficiado desse movimento e já ultrapassou a China como maior parceiro comercial dos Estados Unidos (EUA). E aponta que o Brasil deve se beneficiar dessa  tendência também daqui uns 10 anos. “O mundo já está trocando o ‘Made in China’ pelo ‘Made in Mexico’. O Brasil tem espaço, tem área, tem população, tem potencial para embarcar nessa também”. 

Com tempo, na percepção do professor, os governos vão percebendo que o mundo está mudando e vão se apropriando desta lógica. “Isso vai mudar a América Latina”, projeta. A mudança proporcionará movimentos positivos. No agro, ele aponta a mudança do agronegócio para a agroindústria. Pelo ciclo, primeiro cultiva-se a terra, que é a agricultura, depois, produz-se mais em menos espaço, é o agronegócio, salto que o Brasil fez nos últimos 30, 40 anos. Por último, é o que ele denomina ‘agroindustrialização’, que é agregar valor com tecnologia.  

Dentro do cenário econômico, a migração de refugiados é vista como uma oportunidade de ampliação de mão de obra que pode acompanhar a fuga das empresas do continente asiático. “O Brasil gosta de receber pessoas e as recebe bem. E já recebemos migrantes em outros momentos”, comenta.

A alta dos preços das commodities ele avalia que ocorrerá em função da constância de guerras e do aumento crescente da demanda em função do aumento da população. “O mundo cresce cerca de 100 milhões de pessoas por ano. E é interessante para todos que as pessoas saiam da miséria, pois assim, consumimos mais”.

O crescimento econômico, entretanto, amplia a desigualdade social. O professor lembra que quando um país cresce, nem todos crescem de forma igual, então, a desigualdade é constante. Já o envelhecimento da população, que amplia a mão-de-obra parada, ele projeta inúmeras possibilidades de negócios. “Você resolve este problema aceitando a mão-de-obra jovem imigrante. Historicamente isso sempre aconteceu. As pessoas buscam novas oportunidades”, comenta. Ele conta que os novos negócios podem atender, inclusive, às novas necessidades da população envelhecida.

Transição energética é maior potencial brasileiro

Passando para o campo ambiental, a transição energética é o maior potencial brasileiro de fazer da crise uma oportunidade na visão do professor. Entretanto, ele acredita que a velocidade do País neste setor não é a ideal. “Estamos devagar. A gente tem um problema estrutural que é o fato de termos duas estatais muito grandes presas a matriz anterior que é a Eletrobras e a Petrobras. As novas matrizes vendem novas indústrias: energia solar, hidrogênio verde, energia eólica e espacial. Acho que vamos ter novas tecnologias chegando que criarão oportunidades, porém criarão ameaças às empresas estabelecidas também”, opina.

O professor explica que se dividirmos a transição energética em três horizontes, o Brasil estaria no primeiro nível. “Estamos muito focados no horizonte um. Precisamos avançar. Pegar a energia solar e pulverizar entre as pessoas e empresas, fazer o hidrogênio verde a partir da solar e eólica, e a longo prazo pensar na fusão nuclear. Além da energia solar e da mineração no espaço”, resume. 

Crédito: Adobe Stock

No campo ambiental, além da continuidade de novas pandemias, o ponto mais grave é a falta de água. Se em 2012, o professor também previu os dois pontos, ele pondera que elas aconteceram muito mais rápido do que ele imaginava. “Mas até neste ponto temos oportunidades. Reúso de água, evolução científica e soluções de menor impacto”, diz.

Na visão dele, a solução do nó entre o ‘E’ e o ‘S’ da tão falada sigla ESG, ou seja, entre as áreas sociais e ambientais, é a tecnologia. Ele aposta de forma contundente na tecnologia espacial como um caminho de soluções.

Para encerrar o campo de análises, o professor cita a ineficiência dos Estados. “Governos no mundo todo estão tendendo, cada vez mais, ao populismo, com um Estado cada vez mais operacional. E este Estado não cabe no bolso dos indivíduos. Assim, eles vão ficando cada vez mais caros e ineficientes”, explica. Ele ressalta que esse movimento aumenta a dívida dos países como é possível ver hoje a dos EUA e a do Japão. E avalia que a tendência dos países é ‘quebrar’.

Concluindo, ele ressalta que ao se preparar para as ameaças as empresas sendo elas grandes ou pequenas, os empresários e as pessoas podem criar oportunidades de negócios. “Tanto o indivíduo quanto as empresas ou o Estado, ao se prepararem para os riscos, podem gerar grandes possibilidades”, conclui.   

China invadirá Taiwan em 2036

No cenário hipotético criado pelo professor, na segunda metade do ano de 2036, a marinha chinesa preparará a invasão de Taiwan, enviando forças-tarefas para cobrir as rotas comerciais chaves que ligam o Oriente Médio ao país chinês.

Em um período próximo às eleições dos EUA, um ataque aéreo contra Taiwan deixará o mundo em alerta. Forças aeronavais passarão a se concentrar para defender Taiwan e o desembarque ocorrerá na região sul, visando a ocupação do porto de Kaosiung. 

Crédito: Adobe Stock

A conquista do porto criará uma ‘cabeça de praia’ sólida para garantir abastecimento adequado das forças terrestres antes de avançar para o norte. Ainda no cenário hipotético, ele idealiza que o terreno montanhoso e urbano dificultará o avanço das tropas. Uma aliança entre EUA, Japão, Índia, Austrália e Reino Unido será criada para formar um bloqueio naval contra a China e impedir que comida e petróleo cheguem ao país, forçando negociação.

Ao criar um simulacro do mundo real, o professor acredita que é possível perceber que os eventos prováveis não são tão imprevisíveis assim.

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