Seguro educacional: setor vive momento de adequação

Modalidade vem amargando redução de contratos desde 2022 e só há formato coletivo do produto no País

3 de fevereiro de 2024 às 7h00
Atualizada em 5 de fevereiro de 2024 às 16h28

img
Castello: para Fenaprevi, há hoje acomodação do mercado | Crédito: Divulgação/Fenaprevi

A pandemia entre outros fatores movimentou o mercado segurador brasileiro ao longo dos últimos anos e o setor tem perspectiva de ter crescido 10% em 2023, índice superior aos 9,4% projetados no início do ano passado pela Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg). A boa fase, entretanto, não repercute entre os seguros educacionais.

Enquanto a previsão de crescimento para 2024 pela CNseg é de 11%, a modalidade de seguro educacional amarga uma redução de contratos desde 2022. Se em 2019, período pré-pandemia, as seguradoras arrecadaram em todo o Brasil R$ 32 milhões (valores pagos pelos clientes para ter o risco garantido); em 2023, elas arrecadaram R$ 24 milhões, uma redução de 25%, de acordo com dados da Superintendência de Seguros Privados, a Susep. 

Em 2020, auge do período pandêmico, as seguradoras arrecadaram R$ 46 milhões, em função da instabilidade que o mundo vivia. (Veja tabela abaixo)

Para Bernardo Castello, membro da Comissão de Produtos de Risco da Federação Nacional de Previdência Privada e Vida (Fenaprevi), as seguradoras não souberam aproveitar o boom daquele momento. Ele explica que especialmente grandes redes de escolas e universidades e até escolas de idiomas, receosas dos impactos que a pandemia teria sobre emprego e até do cessamento de vidas, procuraram constituir apólices de seguro educacional. “Tivemos naquela época, apólices de seguros educacionais para mais de 400 mil vidas”, exemplifica sem citar o nome da rede de ensino. 

Atualmente, ele considera que o receio pandêmico passou para estas instituições e o que estamos vendo é uma acomodação do mercado. Isso porque o mercado de seguro educacional, apesar de não haver nenhum impeditivo legal para a venda do seguro no formato individual, não oferece a modalidade. Ou seja, se uma pessoa física quiser ter a proteção de sua educação ou do seu dependente direto, ela não consegue contratar este serviço. Castello explica que hoje o mercado só oferece o formato coletivo de produto, via instituição de ensino. 

“Temos uma oportunidade clara de investimento, sobretudo com a transformação digital. Porém, é um segmento pequeno frente a todos os outros segmentos de seguro, a representatividade é pequena diante das outras modalidades, e os investimentos acabam ficando para um outro momento”, analisa Castello. 

A sócia-proprietária da BHR Corretora de Seguros, Paula Motta, atribui a esta falta de opção à queda da procura. No mercado de seguros há mais de 30 anos, em parceria com 50 escolas e atendendo cerca de 50 mil famílias por mês, ela só acredita numa retomada com uma mudança de comportamento.

“Apesar de ser importante para elas, as escolas não são exímias vendedoras de seguros. Muitos pais nem sabem da possibilidade. Há falhas na comunicação. E as seguradoras não oferecem a opção individual. Se alguém nos procura com este objetivo, a solução que oferecemos é a previdência privada ou um seguro de vida”, explica Paula Motta.

Na opinião da especialista, só mesmo uma mudança de cultura mudaria este cenário. Na visão dela, só quando os pais começarem a procurar as seguradoras ou as próprias escolas em busca desse produto haverá uma retomada de contratos com esse objetivo. 

A BHR Corretora disponibiliza juntamente com as seguradoras o benefício do seguro educacional na modalidade facultativa, com coberturas e proteções financeiras para auxiliar a continuidade dos estudos com segurança em casos de morte, invalidez ou desemprego do responsável financeiro. O valor do seguro é, em média, 1,8% da mensalidade mensal. 

Seguro educacional protege escolas da inadimplência

Na Bradesco Seguros, a visão é otimista. Como submodalidade do seguro de vida, eles entendem que a expectativa é de crescimento, assim como todo o setor. “Acaba que o seguro educacional é mais uma ferramenta de proteção dentro do seguro de vida, garantindo a continuidade da educação”, comenta o superintendente da Bradesco Vida e Previdência, José Luiz Lopes Fontes.

O seguro educacional na visão do superintendente é muito importante para a saúde financeira da instituição. “A gente sempre imagina que o maior beneficiário seja o aluno, mas ele é importante para a instituição também já que ela acaba tendo uma oportunidade de fechar janelas de inadimplência em virtude de uma dificuldade financeira ou falta do responsável financeiro. Então, para a instituição é de suma importância este seguro”, defende.

Para Sinep, momento é de adequação

Entretanto, o superintendente do Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino no Estado de Minas Gerais (Sinep/MG), professor Paulo Leite, entende que o momento é de adequação do mercado de seguros frente ao período de enormes mudanças dos paradigmas e estereótipos que compunham as situações tradicionais que eram tratadas e cobertas pelos seguros educacionais.

Paulo Leite | Crédito: Divulgação/Sinep – MG

Ele explica que a dinâmica que envolve o contexto dos eventos e situações pontuais relativos às coberturas e condições de funcionamento envolvem variados e, cada vez mais, complexos sinistros que afetam as pessoas que frequentam os ambientes educacionais, os patrimônios dessas pessoas, das instituições de ensino, dos parceiros e dos fornecedores das instituições de ensino.

A tecnologia, na visão dele, o incremento de informação e do conhecimento, atrelados à exponencial e intensa interface promovida pelo aumento da comunicação e dos relacionamentos (nos níveis pessoais, profissionais, formais e informais), ampliaram consideravelmente a possibilidade de sinistros que não conseguem ser cobertos ou assegurados pelas seguradoras. 

Assim, ele explica que começaram a ocorrer uma série de situações pontuais, inéditas, exclusivas e inusitadas, que não recebiam condições previstas de cobertura nos contratos convencionais de seguro educacional até então. “Os costumes, as intempéries e os acidentes ganharam uma escala de classificação e de entendimento que permitem interpretações que vinham demandando um tempo inviável de resolução de muitas situações que, a princípio, deveriam ser cobertas pelos contratos existentes e, em muitos casos, não eram”, comenta o professor.

Dessa forma, ele explica que a maioria das instituições de ensino procura desenvolver, a partir de então, contratos de prestação de serviços que asseguram, em vários aspectos, as condições de acolhimento, monitoramento e desenvolvimento dos estudantes, frente a eventuais e possíveis acontecimentos. Em que, caso prejudiquem os envolvidos, estariam na alçada administrativa e profissional dos responsáveis para resolver. “Assim, os contratos de prestações de serviços por parte das escolas estão, cada vez, mais minuciosos e detalhados de forma que escola e os pais consigam resolver diretamente as questões”, comenta o professor. 

Instituições já terceirizam administração financeira para startups

O porta-voz da Sinep lembrou ainda que no caso específico dos seguros de mensalidades, há um fenômeno novo entre as instituições. De acordo com ele, são startups financeiras que desenvolvem expertise na gestão das carteiras de clientes das instituições de ensino e que têm administrado a dinâmica financeira das instituições. 

“Com esta nova tendência, boa parte das escolas vem terceirizando os processos financeiros para essas empresas e conseguindo se concentrar mais no que, de fato, é o negócio delas, que são os desafios pedagógicos de ensino e aprendizagem para uma geração de estudantes cada vez mais desafiadoras para uma formação de qualidade”, ressalta Paulo Leite.

Seguro Educacional – Evolução anual
AnoPrêmio
2019R$ 32 milhões
2020R$ 46 milhões
2021R$ 41 milhões
2022R$ 29 milhões
2023R$ 24 milhões
*Fonte: Superintendência de Seguros Privados (Susep)

Tags:
Facebook LinkedIn Twitter YouTube Instagram Telegram

Siga-nos nas redes sociais

Comentários

    Receba novidades no seu e-mail

    Ao preencher e enviar o formulário, você concorda com a nossa Política de Privacidade e Termos de Uso.

    Facebook LinkedIn Twitter YouTube Instagram Telegram

    Siga-nos nas redes sociais

    Fique por dentro!
    Cadastre-se e receba os nossos principais conteúdos por e-mail