Tema diversidade conquista ensino superior

Em Belo Horizonte, cursos em diferentes formatos buscam formar profissionais especializados em inclusão

3 de março de 2023 às 0h23

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Marina Spínola as organizações não estão isoladas no mundo | Crédito: Homero Xavier Fotografias

A diversidade está literalmente estampada na cara do povo brasileiro – formado por tantos outros povos -, porém ela não se limita às questões raciais e/ou étnicas. Populações numerosas são marginalizadas e colocadas em uma situação de inferioridade social se tornando minorias sociais sob os aspectos das oportunidades e do respeito aos seus  direitos, como mulheres, pessoas LGBTQIA+, pessoas com deficiências (PcDs), obesos, entre outros.

Os séculos de luta de vários desses grupos por igualdade e equidade têm, nas últimas décadas e, especialmente nos últimos anos, pressionado as empresas a se tornarem mais diversas. Além de exigirem ter suas necessidades e desejos atendidos com produtos e serviços adequados, os consumidores também querem se ver representados dentro das organizações. Mais recentemente outros stakeholders – com especial destaque para investidores e financiadores – também têm forçado as empresas nesse sentido.

E, por fim, os resultados clamam por diversidade. Inúmeras pesquisas mostram que empresas diversas são mais criativas, inovadoras e lucram mais. Mas como vencer séculos de uma cultura que discrimina e exclui? Buscar informações e rigor científico tem sido o caminho de muitas empresas e profissionais atentos ao tema. E assim surgem e se espalham cursos em diferentes formatos voltados para formar profissionais especializados em diversidade e inclusão.

Um dos mais recentes é a pós-graduação lato sensuGestão de Diversidade e Inclusão nas Organizações”, ofertada on-line pelo Instituto de Educação Continuada da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (IEC/ PUC Minas).

De acordo com a coordenadora do curso, Letícia Lins, o projeto da pós surge a partir dos feedbacks e das conversas realizadas com os estudantes da primeira turma do Curso “Comunicação, Diversidade e Inclusão nas Organizações”, que também é ofertado pela Instituição.

“A diversidade está estampada na sociedade brasileira mas não se reflete dentro das organizações, muito menos nos cargos de liderança. Hoje a maioria dos gestores ainda é formada por homens brancos, de classe média alta, héteros e cisgênero – CiS (termo utilizado para se referir ao indivíduo que se identifica, em todos os aspectos, com o seu “gênero de nascença”). O Brasil está na 83ª posição no ranking de igualdade de gênero. A pós-graduação vem no sentido de sensibilizar líderes e gestores. Queremos ajudar a encurtar a distância entre o discurso e a prática de ações efetivas e estratégicas no campo da diversidade e inclusão”, explica Letícia Lins.

A estrutura curricular foi pensada de modo a contemplar diversas dimensões da diversidade: gênero, raça, gerações, pessoas com deficiência, neurodiversidade, LGBTQIAPN+ e corpos dissidentes, a partir de uma perspectiva interseccional e integrada nas diferentes ferramentas e métricas necessárias para se implementar um projeto de gestão eficaz.

O projeto pedagógico contempla ainda disciplinas que ensinam a estruturar e manter a área de diversidade e inclusão em uma organização, como ESG, gestão de pessoas em Diversidade e Inclusão, Liderança Inclusiva, Legislações de Diversidade e Inclusão, Branding e Marketing Inclusivos, Educação Corporativa, Métricas e Metas de Diversidade e Inclusão.

Para o também coordenador do curso, Ettore Medeiros, aos poucos as lideranças estão despertando para a questão, porém, há, ainda, um longo caminho a ser percorrido inclusive dentro da academia. Os cursos voltados para a diversidade e inclusão reconhecidos pelo Ministério da Educação ainda são poucos.

“Trabalhamos para desenvolver lideranças inclusivas, capazes de trabalhar as singularidades e, ao mesmo tempo, construir um sentimento de pertencimento para aquelas pessoas. A liderança começa a ocupar um lugar muito mais produtivo na construção de uma sociedade mais justa”, pontua Medeiros.

Sensibilização

Na Fundação Dom Cabral (FDC) o tema veio ganhando força na última década e hoje aparece como disciplina em todos os programas da escola de negócios. Dedicado exclusivamente ao tema existe o curso de sensibilização “Gestão da Diversidade, Equidade e Inclusão”, que abrange quatro dimensões: gênero, raça, sexualidade e deficiências físicas.

Voltado para profissionais das áreas de Recursos Humanos, Comunicação, Marketing, Jurídico, ESG, entre outras, que atuem ou tenham interesse em atuar em diversidade e inclusão, o curso traz uma ampliação sobre o conhecimento da diversidade, equidade e inclusão para o desenvolvimento pessoal e contribui para a atuação profissional, por meio de uma autorreflexão e o entendimento da responsabilidade pessoal e coletiva para a transformação social no combate ao preconceito e discriminação, fortalecendo o respeito e a valorização das pluralidades. Também possibilita conhecer práticas comportamentais e organizacionais para que o tema de Diversidade, Equidade e Inclusão esteja presente e estratégico na agenda das organizações.

“As organizações não estão isoladas no mundo. Elas fazem parte de territórios e ecossistemas e para sobreviverem têm que perceber as grandes questões que impactam esses territórios. O mundo dá sinais que não tolera mais desigualdades, injustiças sociais. Então, surge essa necessidade de entender melhor como a organização pode interferir positivamente nesse cenário. A FDC tem se ocupado dessas questões há, pelo menos, 12 anos. Estamos dedicados à questão das grandes transformações e o papel das lideranças empresariais nisso. Aos poucos fomos colocando esse enfoque nas grades curriculares”, descreve a diretora de Relações Institucionais e Sustentabilidade da FDC, Marina Spínola.

Segundo a gestora, trabalhar a alta direção das empresas é fundamental para acelerar a transformação social, além de garantir a própria sustentabilidade do negócio. Muitas empresas já estão conectando as metas de diversidade e inclusão aos resultados e à remuneração flutuante dos executivos.

“Essa é uma causa que se não tiver o patrocínio, compromisso da alta liderança, não decola. Estamos falando de romper com estruturas históricas. As escolas de negócios precisam construir os caminhos com essas lideranças. Hoje temos demanda das empresas para fazer trabalhos de diversidade e inclusão diariamente. Já vemos um grupo de CEOs engajados não pela dor própria mas por entenderem que as empresas e o mundo precisam mudar. Trabalhando com a ampliação da consciência. É um momento extraordinário das empresas, porque existe uma legitimidade. E também para as escolas de negócios. A educação executiva pode agora realizar plenamente o seu objetivo”, pontua a diretora de Relações Institucionais e Sustentabilidade da FDC.

Atuação humanizada

Mirando os profissionais da educação, o Centro Universitário Newton Paiva oferece a pós-graduação em Educação para a Diversidade EAD. O objetivo, segundo o coordenador do curso de Pedagogia do Centro Universitário Newton Paiva, Antonio Gouveia, é preparar o profissional para uma atuação mais humanizada e efetiva dentro do ambiente educacional e que leve em conta os aspectos particulares de cada indivíduo, privilegiando a diversidade e a inclusão social.

“A formação para a inclusão é obrigatória nos cursos de licenciatura. Em outras áreas temos o conteúdo trabalhado de forma transversal. Entendemos que os ambientes escolares são o principal locus do acolhimento à diversidade. A pós vem pra olhar a especialização de professores que vão trabalhar tanto nas escolas especializadas como nas regulares. Do ponto de vista social, ainda temos uma cultura muito difícil, baseada na exclusão. Temos uma herança histórica de sobreposição de valores. Precisamos lembrar, porém que a diversidade é o que nos forma enquanto sociedade. A questão da inclusão precisa se tornar estrutural. A escola precisa ser um espaço de multiplicação dessa cultura, formando alunos e comunidade”, analisa Gouveia.

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