Você conhece a Comunicação Não Violenta?

28 de março de 2023 às 0h22

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Laydyane Ferreira*

Em um final de tarde de um dia comum de trabalho, recebo a ligação de um executivo de uma empresa dizendo que precisava de uma mentoria sobre comunicação porque estava para explodir com seu líder em função de um problema que feria sua integridade.

Iniciamos uma jornada de comunicação não violenta e o resultado foi que ele salvou a empresa de uma grande fraude e preservou a integridade do seu cargo utilizando a Comunicação Não Violenta com seu líder imediato.

Criada pelo psicólogo americano Marshall Rosemberg, a Comunicação Não Violenta nasceu na periferia de Detroit nos Estados Unidos para resolver conflitos raciais e de muita violência e ganhou expansão mundial com uma proposta de intervenção aparentemente fácil, mas de uma complexidade e profundidade inimagináveis. Tem como bases as linhas de Carl Rogers da psicologia humanista e da cultura da paz que coloca que o poder é sempre com as pessoas e não sobre as pessoas.

O fato é que a CNV está sendo demandada por organizações para resolver conflitos líder e liderado e também para propor novas formas de operar, diminuindo a violência sistêmica que envolve regras que não viabilizam a saúde mental dos colaboradores.

Mas a minha motivação de escrever este artigo para você é de desconstruir alguns mitos que são criados com a escrita “comunicação não violenta”.

O primeiro e o maior deles é que CNV não envolve a raiva. Falar de maneira mansa, educada e gentil pode parecer o objetivo da prática da CNV, mas não é. Nas organizações isso é um pouco mais complexo porque o conceito de não violência envolve as práticas de seus valores, mas quando falamos da CNV que nasce na base da vulnerabilidade, das desigualdades sociais e violências raciais, é impossível reprimir a raiva.

É mais ou menos assim:

Imagine que um bandido está querendo cortar a mão do seu filho e você fala gentilmente: olá, por favor, você poderia não fazer isso porque tenho uma necessidade de proteger minha criança?

Claro que você não fará isso!!! Você provavelmente soltará um grito de raiva e mandando essa pessoa se afastar da sua criança.

Na CNV, a raiva é uma emoção básica e que serve como gatilho para identificar a necessidade das partes interessadas. Por outro lado, no outro extremo, ao contrário não faz sentido: ficar gritando o tempo todo, por exemplo, pode indicar cenários sem instrução para a CNV.

Eu sempre falo que CNV não é necessariamente um método e sim uma consciência. Numa das aulas de Pós e MBA que ministrei a disciplina, uma aluna, também professora, chegou e perguntou: eu estou tentando aplicar o método do livro com meu marido e ele ODEIA a CNV.

Eu respondi para ela que também odiaria se estivesse comunicando de maneira mecanicista e racional como num método frio. Ninguém (ou uma parcela mínima) na hora da raiva fala de maneira correta. O grande objetivo é mapear os gatilhos norteadores da CNV: Observar sem julgar, expressar os sentimentos, clarear as necessidades e fazer o pedido para TODOS ganharem.

O fato é que cumprir o método à risca pode ser uma falácia, principalmente quando somente uma das partes pratica a CNV. Mas levar a pensar como estamos falando da situação: se estamos alienados, fazendo comparações, julgamentos, punindo, negando responsabilidades ou se estamos olhando para a situação com o mínimo de julgamento possível, pode ser um grande início.

Outro ponto importante da CNV é demonstrar os sentimentos e necessidades. Segundo o precursor Marshall, toda expressão de violência é uma necessidade não atendida.

Quando se muda o olhar para a situação, aciona-se o gatilho da compaixão e inicia-se a jornada de olhar a história do outro com menos reatividade e julgamento.

Então eu te faço a pergunta: quando algo te faz muita raiva ou te desestabiliza, qual é a necessidade não atendida? Comece por aí que iniciará uma rica jornada de autoconhecimento.

Quanto mais conectados estivermos com as nossas necessidades e as necessidades dos outros, mais sucesso teremos na comunicação.

Mas uma coisa eu te garanto, um praticante de CNV nunca supõe nada, ele checa, perguntando se entendeu corretamente, ele olha para sua necessidade e negocia o melhor cenários para os envolvidos. 

Quer comportamento mais espiritualizado e mais pragmático alinhado a negócios do que esse?

Espero que você viva a CNV e não a ensine como um método de rápida aplicação. Na minha concepção, CNV é uma longa e maravilhosa jornada de autoliderança.

* Diretora-executiva do Instituto Gaki, organização especializada em consultoria e treinamentos com foco em Educação Corporativa, Serviços de Gestão, RH e Projetos de Impacto ESG. É também podcaster do Propósito na Prática, Palestrante, Trainer, Professora e Consultora Organizacional.

* Diretora-executiva do Instituto Gaki, organização especializada em consultoria e treinamentos com foco em Educação Corporativa, Serviços de Gestão, RH e Projetos de Impacto ESG. É também podcaster do Propósito na Prática, palestrante, trainer, professora e consultora organizacional.

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