Mauro Carrusca*

“O agronegócio brasileiro é o mais sustentável do mundo, chega ao prato de mais de 1 bilhão de pessoas por dia e tem muito espaço para crescer”. Essa é uma afirmação da ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina, que dá a dimensão da importância do Brasil na produção mundial de alimentos.

De fato, reunimos muitos pontos favoráveis: temos extensão territorial, somos competentes na pesquisa em ciência e tecnologia no agro, usamos sistemas de produção sustentáveis, temos boas relações comerciais internacionais e o mais importante, temos muitos produtores dispostos, animados e ousados, que enfrentam de peito aberto os grandes desafios, que não são poucos. Historicamente, o agronegócio é responsável por um quinto do PIB brasileiro.

Desde 2016, tivemos a oportunidade de, junto com um grupo de parceiros, ajudar a Embrapa a desenvolver o Ideas for Milk, um projeto que nasceu para melhorar a eficiência de toda cadeia produtiva do leite e que conseguiu reunir de forma pioneira um ecossistema composto de produtores, distribuidores, agroindústria, pesquisadores, veterinários, zootecnistas, investidores, empresários e startups.

O projeto se revelou uma iniciativa inspiradora e hoje vem servindo de referência – um modelo de inovação aberta – para diversas cadeias produtivas e também para outros segmentos de negócios no Brasil. Sob a liderança e capacidade de execução do Dr. Paulo Martins, chefe-geral da Embrapa Gado de Leite, o Ideas for Milk evoluiu, recebendo reconhecimentos institucionais, tanto no Brasil como no Silicon Valley e na Índia.

Com a liderança, criatividade e resiliência da Embrapa, fechamos 2019 com o Ideas for Milk sendo composto por 4 grandes frentes: o Desafio de Startups, o Vacathon (misto de bootcamp e maratona de programação), da Caravana 4.0 (que mobiliza jovens para o empreendedorismo no agro) e do Prêmio de Inovação, concedido a expoentes da cadeia do leite e profissionais que com ela se relaciona.

Em resumo, a cada dia que convivo com os profissionais que fazem da Embrapa uma referência mundial em pesquisa no agronegócio, afirmo, de forma muito tranquila, como profissional e cidadão brasileiro, que foi muito acertada a decisão do governo de manter a empresa como um patrimônio nacional. Aliás, outras empresas públicas deveriam se espelhar nesse “modelo Embrapa” de empresa pública, que aplica seu capital intelectual e suas expertises em importantes projetos com empresas privadas nacionais e internacionais.

Como o próprio presidente da Embrapa, Dr. Celso Moretti, afirmou em entrevista, de 1970 para cá, o trabalho de pesquisa na agropecuária reduziu em 70% o custo da cesta básica. Ou seja, consegue-se produzir muito mais e com mais qualidade na mesma área. Isso é eficiência. Isso é sustentabilidade. Isso é um exemplo para o mundo. Não tenho dúvida de que a Embrapa é a grande protagonista desse feito.

E por falar em evolução, hoje temos que investir maciçamente na agricultura digital e acredito que Embrapa tem um papel fundamental nesse processo, com toda a sua capacidade e estrutura de pesquisa e desenvolvimento.

Você sabia que na Coreia do Sul entre solicitar um produto on-line e pagar por ele leva-se apenas 5 segundos? Isso mostra para onde o mundo está caminhando e nos dá uma noção do quanto temos que evoluir em conectividade. Um dos gargalos para a agricultura digital, sem dúvida, será a infraestrutura tecnológica. Hoje em um ranking mundial, estamos no 50º lugar em termos de qualidade de vida digital, que depende fundamentalmente do acesso à internet.

O que dizer então do acesso à internet no campo? Estamos atrás da Sérvia, República Dominicana e do Cazaquistão (44º, 45º e 48º, respectivamente). No topo da lista estão Estônia e Finlândia. Interessante que, apesar de estar em 27º lugar nesse ranking, a Coreia do Sul consegue esse feito porque está em primeiro lugar em velocidade de acesso.

Esses resultados poderiam nos levar a pensar que isso acontece somente em países de pequena extensão territorial. Mas isso não é verdade. A China vem se mostrando muito eficiente na agricultura digital e, uma das razões, é ter conectividade em mais de 90% de seu território, contra os 60% que temos em nosso país. E precisamos mesmo fortalecer a agricultura digital para tornar realidade a previsão do Ipea que projeta um crescimento do agronegócio em 2020 entre 3,2% e 3,7%, conforme o prognóstico da Safra, e estima-se o crescimento do PIB brasileiro em 2,3%.

São muitos anos de estrada. Há 27 anos fundei a KER Innovation com o propósito de pensar futuro e ajudar organizações, empresas e governos a se repensarem nesse novo mundo digital através da inovação colaborativa, mostrar ao mercado que a inovação é muito mais que tecnologia, que a inovação é gente, pois são as pessoas que fazem com que a tecnologia aconteça.

Tenho andado muito pelo Brasil e por outros países, o que me possibilitou aprender muito sobre o agronegócio e a entender melhor a nossa posição perante o mundo. No Brasil, tenho tido oportunidades ímpares de não só conversar, mas conviver com atores do agronegócio brasileiro como produtores rurais, pesquisadores, profissionais do segmento, startups e investidores. Por isso, tenho a convicção de que reunimos totais condições de ser o “restaurante do mundo”.

*Engenheiro eletrônico, conselheiro, estrategista de inovação e CEO da KER Innovation