Um anarcocapitalista na Casa Rosada

30 de novembro de 2023 às 0h02

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Crédito: REUTERS/Cristina Sille

“Meu corpo é minha propriedade. Por que não posso vender?” (Javier Milei, defendendo a prática de venda de órgãos humanos.)

Analistas políticos traquejados criaram sombria metáfora para descrever o dilema atroz confrontado pelos argentinos nas eleições. Segundo eles, o eleitor viu-se, de repente, diante de dois precipícios, não sabendo em qual se lançar. Opção feita, o jeito agora é esperar pra ver, fazendo votos para que não se cumpram os vaticínios.

Sergio Massa, derrotado, peronista da velha guarda, é apontado como um “vira casaca” insuplantável. De acordo com as conveniências, ataca por todos os lados: extrema direita, direita, centro, esquerda, extrema esquerda. E, ainda, conforme línguas ferinas, pelas costas. Mostrou-se de ineficiência abismal como ministro da Economia. As reservas da Argentina se esvaíram. A inflação alcançou altitude himalaiana dos 142%. O peso vale 1 (um) centavo do real. Um dólar é trocado por 1.260 pesos. Está havendo tremenda dificuldade na quitação de parcelas vencidas da dívida colossal assumida com o FMI. São claros os indícios de desassossego social. Os resultados eleitorais deram, de alguma maneira, notícia da tensão popular.

Do presidente eleito, Javier Milei, há, igualmente, um monte de coisas a dizer. Trata-se, pelo que fez questão em demonstrar, de personagem, dentro de visão complacente, no mínimo bizarro. Intitula-se anarcocapitalista (seja lá o que isso signifique), um libertário liberal (condição também de sentido confuso). Defende entusiasticamente a ditadura militar Argentina, responsável por 30 mil vítimas.

Confessa-se instrutor do “kamassutra”. Sustenta ter sido gladiador nas arenas romanas no tempo de Nero. E mantém o costume de reservar poltronas nos auditórios a que comparece para que nelas se acomodem amigos desencarnados. Faz-se acompanhar em programas de tevê de 4 cães com nomes de economistas famosos. Os animais, pelo que registra, são clones de um cachorro de estimação falecido há anos, com o qual se comunica telepaticamente, em sessão mediúnica, e do qual recebe orientações sobre como proceder na vida pública… Anunciou durante a campanha e confirmou, já eleito, que irá fechar o Banco Central, os ministérios da Saúde e da Educação. Em imagens amplamente divulgadas apareceu com motosserra destruindo maquetes da sede do BC. Outras de suas promessas: acabar com o peso e adotar o dólar como moeda do país; retirar a Argentina do Mercosul. Milei prometeu rever as relações com o Brasil e a China, parceiros comerciais importantes, não poupando críticas ácidas aos seus dirigentes. Não deixou de arrolar, nem mesmo Francisco, em sua irada fala. O Santo Padre, paternal e benevolentemente, cumprimentou-o concedendo-lhe bênção. O novo presidente garantiu, nos comícios, que iria manter-se afastado da “casta política”. Nas primeiras indicações para o ministério não foi bem assim. Sua vice já deu entrevista afirmando que o autoritarismo é a melhor forma de governo. Outro político recrutado por ele disse que a Gestapo não se revelaria tão eficiente, caso houvesse sido integrada por argentinos. Não faltou, ainda, de acordo com narrativas jornalísticas de fontes idôneas, no grupo dos assessores, quem comparasse homossexuais a indivíduos pervertidos, “infestados de piolhos”.

Por essas e outras, muita gente teme que o futuro maestro da orquestração política e administrativa Argentina não esteja apto a reger um tango, sequer milonga, harmonizados com os anseios da grande nação, ávida por desejável soerguimento econômico.

As pessoas de boa vontade fazem votos para que a bênção pontifícia possa desanuviar as pesadas nuvens vislumbradas no horizonte argentino.

*Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

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