Ciclos geram mudanças previsíveis

26 de janeiro de 2024 às 5h06

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Crédito: Freepik

Pensar ou até mesmo “prever” o futuro é peculiar do ser humano e também um desafio. Embora o futuro não esteja ainda determinado e, portanto, contém incertezas, alguns padrões e tendências permitem que se mapeiem mudanças prováveis e construa modelos e cenários do que potencialmente e provavelmente devem ocorrer.

É interessante refletir que padrões são ciclos tecnológicos e ciclos de investimento que são razoavelmente bem mapeados e que, por extrapolação, permitem criar uma visão de um futuro provável.

Dois pesquisadores perceberam a existência desses padrões: Nikolai Kondratieff e Clement Juglar.

Os ciclos tecnológicos foram identificados por Nikolai Kondratieff no começo do século 20 e, por isso, são também chamados de ciclos de Kondratieff ou ondas -K ou ciclos- K, e duram de 50 a 60 anos. Tais ciclos começaram em 1770 e vêm até o nosso tempo. Estamos na fase final do quinto ciclo onde ocorre uma crise que força o sistema capitalista a se reinventar através de inovações tecnológicas. Os ciclos se caracterizam por período, tecnologias e guerras/crises de final de ciclo.

Estamos vivendo o quinto ciclo de Kondratieff, período de 1980 a 2030. Segundo o padrão deste modelo, o grupo de tecnologias que tem mais se desenvolvido neste período é o da Telemática. Além disso, a parte final da crise deste ciclo está sendo caracterizada pela guerra na Ucrânia, a volta da Guerra Fria em uma versão 2.0 e guerras no Oriente Médio.

Desde quando comecei a utilizar este arcabouço historiográfico no começo da década de 2010 ficou claro que a década de 2020 seria de transformação, isto é, que as crises e guerras de final de ciclo voltariam e forçariam um investimento significativo em tecnologia, seguindo a mesma lógica de todos os outros ciclos.

Não era possível ter certeza de quais guerras ocorreriam, mas algumas eram bastante prováveis, por serem travadas em regiões com risco crescente, isto é, o Oriente Médio, Leste da Europa e Sudeste da Ásia. Duas dessas regiões entraram em conflito nos últimos anos, e a terceira tem uma tensão geopolítica crescente com a pressão da China sobre diversos países da região. Ou seja, o futuro era razoavelmente previsível neste sentido.

As reações às guerras e às crises também eram muito previsíveis – observamos um investimento forte em tecnologia para ganhar vantagens no campo de batalha. Nos últimos seis anos, o Departamento de Defesa dos EUA aumentou seu orçamento de pesquisa e desenvolvimento de cerca de US$ 80 bilhões em 2018 para US$ 145 bilhões em 2024. Podendo chegar, ainda, ao dobro dos valores de 2018 nos próximos dois anos.

Os investimentos na área militar precedem desenvolvimentos na indústria privada em cerca de 10 a 20 anos. Estas tecnologias estão chegando e vão revolucionar diversas indústrias, mas prefiro deixar para tratar isso em mais detalhe nas próximas colunas.

O segundo arcabouço historiográfico e econômico que creio ser crítico para pensar o futuro são os ciclos de Juglar. Estes foram identificados por Clement Juglar no final do século 19, e vêm se mantendo desde então. Juglar percebeu que havia uma crise no sistema capitalista a cada 7-9 anos, mas estes ciclos estão fixos em 7 anos nas últimas décadas.

A lógica por trás destes ciclos é que o sistema global de alguma forma é levado à crises a cada sete anos por conta de investimentos fixos. O ciclo atual no qual estamos é formado pelo período de 2023 a 2029. O ciclo anterior terminou em 2022 com a guerra da Ucrânia.

O crítico aqui é perceber que se estes ciclos continuarem nessa freqüência, os anos de 2029 e 2036 serão anos de alto risco. Não há como ter certeza de que uma crise vai ocorrer neste período, e nem por qual causa, mas apenas que estes anos têm maior probabilidade de alguma crise ocorrer.

Podemos agora combinar os dois ciclos para traçar uma visão provável dos próximos quinze anos.

Entre 2018 e 2030 ocorre a fase final de crise do quinto ciclo de Kondratieff, sendo que o auge da crise ocorre entre os anos de 2023 e 2026. Infelizmente isso indica que o pior ainda não passou, e que novas crises podem nos aguardar até 2026, e que o ano de 2029 pode novamente conter uma crise intensa.

Potencialmente um crash das bolsas marcando o centenário da crise de 1929 (dois ciclos de Kondratieff depois). Este período também é de intenso investimento em tecnologia, gerando muitas oportunidades de surgimento de novas indústrias.

Entre 2030 e 2042 temos a fase inicial do sexto ciclo de Kondratieff, onde as crises se reduzem, mas não desaparecem. Aqui as tecnologias começam a criar muitas oportunidades de maneira similar aos anos 80 e grandes empresas surgem aproveitando tais tecnologias. O ano de 2036 é um ano de alto risco e possivelmente a partir destes períodos a China possa se sentir tentada a invadir Taiwan, criando uma crise global, uma vez que o governo chinês diz querer “resolver o problema de Taiwan até o final da década que vem”.

Os ciclos não determinam exatamente o que vai ocorrer, mas nos ajudam a pensar não só em cenários, mas na estrutura de causa e efeito do capitalismo global, e de como se preparar para as oportunidades e ameaças.

*Professor da Fundação Dom Cabral

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