Crédito rural e mercado

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Crédito: Secult/Divulgação

Em 1980, ano da fundação do MST, a reforma agrária era uma pauta frequentemente discutida, pois não tínhamos o que temos hoje: a possibilidade de qualquer produtor, por mais humilde que seja, produzir em um terreno antes considerado infértil graças às tecnologias específicas para a agropecuária.

Há alguns anos, possuir terras no Cerrado ou na Caatinga era sinônimo de muito trabalho e pouquíssimos resultados pela agressividade do solo e do clima.

Instituições como a Embrapa trabalharam e desenvolveram soluções tecnológicas para que o produtor pudesse usar cada hectare de sua terra com uma eficácia jamais imaginada. Eis, aí, o milagre do agro brasileiro: unir tecnologia e trabalho!

Mas um ponto ainda é insuficiente: o crédito rural. Tradicionalmente, o crédito é originado por políticas públicas de fomento de crédito, mas não é o suficiente.

Em uma economia de mercado, é essencial que o setor privado seja o protagonista no crédito rural, potencializando o diferencial competitivo brasileiro em comparação com players mundiais como Estados Unidos e China. Para isso, temos inúmeras formas de alocação de riscos do investidor e garantia do acesso ao crédito pelo produtor, podendo escolher entre Fiagro e CPR Verde, por exemplo.

Acesso ao crédito para aquisição de tecnologia e maquinário moderno devem ser pensadas para que os pequenos produtores consigam dialogar com o mercado.

Para evoluir em produção sustentável e evidenciar ao mundo, o que é praticado por cada produtor brasileiro, é primordial aproximar os pequenos produtores que ainda não estão familiarizados com as tecnologias e as exigências do mercado de hoje – e isso pode ser facilitado e intensificado pelo setor privado.

É importante que saibamos que, não dá para exigir que um produtor de leite do interior de Goiás pratique e cumpra ESG, se ele sequer tem meios de investir em equipamentos de ordenha, maquinário para produção, geradores para evitar perda da produção em caso de quedas de energia (isso é gargalo estrutural em muitas áreas e, principalmente, na zona rural) e uma equipe treinada e consciente da importância da rastreabilidade da carne bovina.

Esse produtor precisa de acesso facilitado a crédito para realizar esses e outros tantos investimentos e toda a cadeia se beneficia por produtores rurais grandes e pequenos terem esse acesso.

E o mercado pode – e tem – soluções para todos os produtores. Afinal, esse é o grande trunfo do capitalismo: possibilitar acesso ao capital para a colaboração e a prosperidade econômica em cadeias de produção, tanto horizontais, quanto verticais.

Que prestígio é para a imagem internacional do Brasil observar o “queijim” mineiro, lá da Serra da Canastra, ser considerado um dos 15 melhores queijos do mundo! Não é uma matriz fabril imensa que produz tais queijos, mas vários pequenos produtores rurais do sudeste de Minas Gerais.

Com pequenos produtores, abriram-se os olhos a um mercado que melhor atende ao ESG: garante o impacto social pela produção sustentável e desenvolvimento econômico regional. Além disso, a integração das cadeias produtivas permite que o pequeno produtor de banana venda o seu produto para uma agroindústria que gera produtos com valor agregado ao consumidor.

Além do acesso facilitado ao crédito, esses produtores devem ser apresentados ao mercado de carbono, por exemplo. Muitos produtores precisam conhecer meios viáveis de lucrar por meio da manutenção de áreas que já possuem para preservação ambiental em suas propriedades.

Contudo, ao invés de colocar todos os nossos ovos na cesta de recursos públicos, que tal confiarmos nos investimentos privados e conquistarmos ainda mais protagonismo mundialmente?

Ao saber que é possível lucrar preservando a área nativa que tem em sua propriedade, além de criar mais áreas protegidas, agora, utilizando uma área cultivável com muito mais eficácia, é um incentivo natural que o produtor opte por sustentabilidade.

Toda a experiência da política agrícola brasileira pode ser empregada em uma missão que pode ser mais simples do que parece: abandonar a política agrária do atraso, fazer as pazes com o agronegócio brasileiro moderno e trazer os pequenos produtores do Brasil para acessar o crédito e prosperar com o avanço na produtividade – e, de quebra, ainda gerar segurança alimentar e posicionar o agronegócio brasileiro como o grande pilar sustentável mundial.

*Manoel Mário de Souza Barros - Presidente da Alagro (Academia Latino Americana do Agronegócio) e Patrícia Arantes de Paiva Medeiros - Diretora Executiva do Instituto Ives Gandra Martins e assessora da Sociedade Rural Brasileira

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