A falácia da gestão ativa

5 de dezembro de 2023 às 0h02

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Crédito: Freepik

Muitas vezes um gestor ativo pode ter uma excelente performance, fora da curva, em um determinado ano, o que faz todo mundo querer investir com ele gerando no mercado o que se conhece como “efeito manada”, que faz todo mundo querer ir atrás daquilo que performou bem. Este efeito faz com que esse gestor, no ano seguinte, esteja administrando um volume de recursos significativamente maior. O problema (e o grande ponto de atenção) é que é praticamente impossível para qualquer gestor manter a mesma performance quando passa a gerenciar um volume muito maior. Este é historicamente um dos motivos que faz com que os fundos com melhor desempenho em um determinado ano, no ano seguinte, tornem-se perdedores.

Existe uma teoria financeira chamada “mean reversion ou regression”, que diz que os preços dos ativos eventualmente retornam aos níveis médios de longo prazo. Traduzindo para nosso tópico, podemos assegurar que por melhor que seja a performance de curto prazo, a tendência a longo prazo é que os preços retornem à média. Outra grande verdade do mercado financeiro, que sempre devemos ter presente, é que a performance passada não é garantia de performance futura.

A pergunta natural que surge agora é: se é tão bom assim, se as vantagens são tão grandes, por que que todo mundo não faz isso?

A resposta é que não devemos esquecer que existe uma grande indústria por trás disso, que tem grande interesse financeiro para que o “show” continue, pois o lucro é imenso.

Se todos adotássemos a gestão passiva, teríamos melhor resultado ao longo do tempo e acabaria com essa indústria que gera trilhões de dólares para Wall Street, e tudo o que está associado a ela, todos os anos.

O fato é que se alguém parar esse show, muita gente perderá recursos, ficará desempregada e será um drama muito grande. Basta olhar os depoimentos de grandes investidores, entre eles Warren Buffett, totalmente a favor do indexing, e verá que ele sugere para aquele investidor que quer ter uma performance segura, tranquila e vencedora ao longo do tempo, comprar o índice S&P 500 e permanecer investindo nele.

Como muito bem dizia o novelista americano, Upton Sinclair: “É muito difícil fazer um homem entender alguma coisa quando seu salário depende do fato de não entendê-la”.

Creio que, seguramente, Wall Street e esta grande indústria sabem que a gestão ativa é um jogo de perdedores, no geral. No entanto, para eles, é um jogo de ganhadores, porque eles ganham muito dinheiro com isso. Então, a defendem com unhas e dentes.

Wall Street precisa que as pessoas acreditem que a gestão ativa é um jogo de vencedores para que eles possam continuar cobrando suas taxas altas. Como em um jogo de cartas marcadas, precisam que o “show” continue. É por isso, talvez, que não sabemos a fundo as vantagens dessa gestão passiva que John Bogle, fundador e CEO do grupo Vanguard, autor do livro “The Little Book of Common Sense Investing”, começou a defender na década de 1970, e que foi muitas vezes perseguido.

No livro “Incredible Shrinking Alpha”, os autores, Swedroe e Berking, mencionam alguns pontos que o American Law Institute tem a dizer sobre qual é a estratégia mais prudente no que se refera à Prudent Investor Rule, que é a regra do investidor prudente. Um deles é que a evidência econômica mostra claramente que os mercados americanos são altamente eficientes e que qualquer informação é rapidamente acessada e digerida, e está refletida nos preços de mercado.

Outro ponto é que a pesquisa empírica, apoiando a teoria do mercado eficiente, revela que os profissionais que são altamente hábeis e dedicados dificilmente conseguem identificar algum tipo de ativo com preço menor do que seu preço correto com certa regularidade. E, por último, o ponto que a evidência mostra que tem pouca correlação entre sucessos anteriores de gestores de fundo e sua habilidade de obter sucessos futuros. Isto reforça aquela máxima de mercado, que sucesso passado não é garantia de sucesso futuro.

*CEO da Saint Joseph Group, é engenheiro civil e mestre em engenharia e marketing.

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