A resposta das urnas ao terrorismo no Ocidente

5 de dezembro de 2023 às 0h05

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Crédito: Amir Cohen/Reuters

Desde a instauração das primeiras sociedades primitivas até a constituição do que conhecemos hoje como Estado Moderno, existe em comum o fato de que a segurança é o principal elemento que une os cidadãos. É importante lembrar que para a teoria clássica da formação das sociedades as pessoas abrem mão das suas liberdades naturais para viver em sociedade em troca de vários elementos, entre eles a garantia de segurança por parte do Estado. 

Neste sentido, torna-se compreensível que as sociedades ocidentais entendam que após a invasão da Ucrânia por parte da Rússia e que após os ataques terroristas oriundos do Hamas contra Israel, passou a existir no ar uma importante ameaça oriunda de nações iliberais e de grupos radicais que, em síntese, possuem objetivos comuns: a destruição da sociedade ocidental e da sociedade liberal como existe hoje.

Intencionalmente ou não, frutos de células terroristas ou radicais, uma pequena parcela dos protestos pró-palestina no Ocidente, o qual são legítimos em prol da constituição da solução dos dois Estados, infelizmente se transformaram em atos radicais com direito a perseguição de professores pró-Israel por parte de alunos da Hillcrest High School, em Nova York; notas antissemitas de grupos de universidades de prestígio, como Harvard e Yale; marcação com pichações em casas de judeus, na Alemanha; apologia ao terrorismo, no Reino Unido; e uma verdadeira idolatria ao Hamas, que é defendido pelo Partido da Causa Operária no Brasil. 

Se os atos de terrorismo do Hamas tinham como objetivo dividir o Ocidente e, como todo ato de terrorismo, buscavam por meio da violência uma mudança política dentro da sociedade, acredito que o efeito será justamente o contrário, com consequências que já estão sendo percebidas em todo o Ocidente. Os atos radicais do Hamas contra inocentes, hoje publicizados pelas redes sociais do mundo todo, acompanhado por atos de violência nas manifestações por todo o ocidente e sendo apoiado por regimes totalitários como o Irã, estão colocando as nações ocidentais no seu modo mais instintivo possível: o modo de autoproteção do seu povo e do seu estilo de vida. 

A proteção que as nações ocidentais buscam não vai ser por meios de atitudes bárbaras como levantar armas ao céu e atirar nas pessoas no meio das ruas, nem pela realização de atos terroristas, mas sim por meio do voto nas urnas. As sociedades irão colocar seus medos e sua confiança em grupos políticos e em pessoas que se mostrem fortes o suficiente para impedir ameaças externas a suas famílias, seus negócios e seus estilos de vida. Hoje está evidente que os partidos políticos de extrema-direita e alguns de direita se mostram os mais capazes de captar esse sentimento.

Isso exposto se torna claro quando analisamos as mais recentes intenções de voto e principalmente algumas das últimas eleições na Europa. As vitórias de Giorgia Meloni, na Itália, e mais recentemente de Geert Wilders, na Holanda, comprovam isso. Nas últimas sondagens eleitorais na Alemanha, o AfD (Alternativa para Alemanha) já está em segundo lugar, com 22%; em Portugal, o Chega já aparece com 17%, tornando-se a terceira principal força política, enquanto na França Marine Le Pen pode ser a grande vencedora das eleições europeias. Enquanto isso, nos Estados Unidos, os Swing States, que deram a vitória a Joe Biden, dariam a vitória para Donald Trump se a eleição fosse hoje. Além disso, há uma visão clara entre republicanos e democratas de que Biden não tem vitalidade o suficiente para enfrentar os desafios internacionais que os Estados Unidos terão mais à frente. 

Enquanto os partidos mais ao centro e à esquerda no Ocidente buscaram soluções de consenso para vários dos problemas sociais e analisaram pautas internacionais importantes como imigração, guerras e refugiados, que foram apoiados por grande parte da população, parece que o cenário hoje é bem adverso, e o medo está tão presente e intenso que esta pauta parece estar sendo jogada para ‘debaixo do tapete’. A única solução que se espera em um cenário de intolerância com os valores ocidentais e de complacência com o autoritarismo e com o terrorismo é pavimentar o resultado para eleições de grupos políticos com visões estritamente na defesa dos seus valores sociais, da defesa da integridade física das suas populações e da aliança com seus aliados. Fora deste escopo tudo fica em segundo plano, o que se mostra uma derrota do multilateralismo, um fracasso de órgãos internacionais como a ONU e um avanço na corrida armamentista no século XXI.

O resultado prático disso será que a solução da convivência pacífica em Israel e a constituição de dois Estados ficarão cada vez mais longe de se tornarem uma realidade, e o povo da palestina, que de direito merece viver em paz, precisa estar longe do domínio do Hamas ou de qualquer outro grupo terrorista, pois como está os fará sofrer por mais tempo, o que é de fato um momento triste para a humanidade. 

Os elementos que aqui retrato não são baseados em fundamentos simplistas como  “o que é bom!” ou  “o que é mau!”, mas sim, em como as sociedades se organizam quando se sentem ameaçadas, e como se fecham dentro de si e com seus aliados para defender interesses comuns. Essa é a história da humanidade, que é brutal, cruel e sangrenta, e que acompanhamos ao longo de séculos, principalmente na Eurásia. 

Entretanto, também é importante lembrarmo-nos de que, mesmo quando estamos na ponta de um precipício, onde parece que toda a esperança se acabou, nós como humanos conseguimos encontrar algumas soluções para extirpar aqueles que fizeram o mal à humanidade e nos readequar dentro deste nosso mundo, mesmo que demore, como foi no pós-guerra. Este conflito um dia haverá de acabar pelo bem dos judeus, dos palestinos e de todo o Oriente Médio. Uma prova disto são os Acordos de Abraão, um verdadeiro caminho para a paz.

*Economista e empresário, Doutor em Relações Internacionais na Universidade de Lisboa e membro da Associação Portuguesa de Ciência Política

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