O tempo que o mundo não tem – COP 28 e um novo capitalismo

6 de dezembro de 2023 às 0h12

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Pesquisa feita pelo Grupo Fundamento, com apoio do Instituto Capitalismo Consciente Brasil, identificou que as empresas brasileiras não estão engajadas no maior evento global sobre as questões climáticas – a COP, que acontece em Dubai até o dia 12 de dezembro. De acordo com o levantamento, 78% das empresas participantes da pesquisa não participarão ativamente da COP 28. Dos mais de 300 gestores e gestoras entrevistadas – a maior parte dedicada às atividades de ESG – 91% nunca participaram de nenhuma edição da COP.

Os dados são pouco animadores e surpreendem pelo baixo engajamento a uma pauta que está sendo discutida por lideranças globais há mais de 30 anos. A agenda climática é uma importante ameaça à vida humana e constitui um dos maiores desafios das empresas e governos. As mudanças climáticas já estão provocando perdas na infraestrutura e na produção agrícola, entre outros setores. Segundo a professora e pesquisadora de Harvard, Rebecca Henderson, desde 1998, o calor extremo matou mais de 160 mil pessoas. Esse número também faz tocar um alarme – principalmente para quem sofreu com a recente onda de calor que fez os termômetros chegarem a quase 50 graus em alguns estados brasileiros.

Rebecca Henderson lançou, em 2020, o livro “Reinventando o capitalismo num mundo em chamas”. Ela conta que decidiu escrever sobre o assunto, porque nos últimos 15 anos, três verdades impediam que ela dormisse à noite. A primeira é que a queima de combustíveis fósseis está incendiando o globo terrestre, matando pessoas e desestabilizando o clima. A segunda causa das noites em claro da pesquisadora é o aumento da concentração de renda – as 50 pessoas mais ricas do mundo possuem mais do que a metade mais pobre da humanidade e seis bilhões de pessoas vivem com menos de US$ 16 por dia. E, por fim, a pesquisadora menciona, com preocupação, uma certa falência das instituições sociais que mantêm o mercado em equilíbrio – famílias, comunidades locais, as grandes tradições religiosas, governo. Rebecca Henderson destaca que a mistura tóxica de raiva e alienação tem sido estimulada e utilizada por lideranças populistas e autoritárias para consolidar o poder em todo o mundo.

A solução defendida pela professora norte-americana não é simples – mas é possível. Requer ampliação de consciência da população, em especial, das lideranças. E também requer que a existência humana seja pautada pela ética. Ela argumenta que para reinventar o capitalismo os negócios não podem ser apenas guiados pelo lucro, mas precisam operar em harmonia com as realidades ambientais, lutando pela justiça social e pelas exigências de instituições verdadeiramente democráticas.

Felizmente, embora os números da recente pesquisa tenham demonstrado baixo engajamento das empresas nas discussões climáticas, existem iniciativas em diferentes lugares do mundo que nos trazem um pouco de esperança. Aqui no Brasil, o Instituto Capitalismo Consciente Brasil tem promovido essa reflexão e reúne cerca de 4 mil lideranças que procuram reinventar a forma de fazer negócios. A CEO do Instituto no Brasil, Daniela Garcia – primeira mulher a liderar o movimento no mundo – afirma que o Capitalismo Consciente é uma correção de rota para redução das desigualdades, é dever e beneficia as empresas.

Na Fundação Dom Cabral, escola de negócios que atende cerca de 30 mil lideranças e 2 mil empresas por ano, mudança climática e sustentabilidade entraram na centralidade das preocupações. Em setembro, a escola levou 30 lideranças internacionais, integrantes do seu Conselho Internacional, para discutir meio ambiente e transição energética em uma imersão na floresta Amazônica. Ano que vem, a FDC já programou duas jornadas educativas e imersivas na Amazônia para lideranças empresariais da Europa, em parceria com escolas internacionais. E nesta semana, a escola estará com uma delegação própria na COP 28 – quatro profissionais da FDC participarão de atividades promovidas pelo Pacto Global da ONU e pelo Consórcio Amazônia Legal, formado pelos nove estados amazônicos.

“O futuro também cria o presente”, disse recentemente a professora convidada da FDC, Grazi Mendes, no Forum Brasil Diverso, realizado em São Paulo no mês de novembro. Também executiva de uma empresa global de tecnologia, Grazi nos ensina que a maneira como imaginamos o futuro cria a nossa ação no presente. Portanto há de se esperar (ou melhor, há de se esperançar, como nos ensinou Paulo Freire) que o mundo comece a imaginar futuros melhores do que este que estamos escrevendo. E que bons ventos partam de Dubai e mobilizem nossas lideranças para agirem com mais consciência e coragem. O mundo não pode esperar.

*Diretora de Relações Institucionais e Sustentabilidade da FDC e Conselheira da Filial Regional do Capitalismo Consciente em Belo Horizonte (MG). E-mail: marina.castro@fdc.org.br. Redes Sociais: Instagram: @marinaspinola e Linkedin: Marina Spínola

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