O trabalho mais importante não é remunerado

29 de novembro de 2023 às 0h13

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É com esta constatação da filósofa italiana Silvia Federici que inicio minha abordagem sobre a economia do cuidado. Tema polêmico da redação do Enem deste ano, a pauta precisa reverberar para reforçar as proporções deste grande problema que gera inúmeros prejuízos sociais. Uma situação que atinge diversos países, fruto do patriarcado que se aprofundou estruturalmente na Revolução Industrial, trata-se de uma conjuntura onde boa parte dos envolvidos na exploração dessa mão de obra nem reconhece do que se beneficia, reforçando o senso de invisibilização e desvalorização.

De acordo com o livro “Economia Donut”, essa ocupação também é conhecida por outros nomes: trabalho de cuidar não remunerado, economia reprodutiva, economia do amor e segunda economia. A autora do livro Kate Raworth cita a economista Neva Goodwin para explicar que, longe de ser secundária, esta é na verdade a “economia nuclear”, pois acontece em primeiro lugar todos os dias em todos os lares, e assim sustenta o essencial da família e da vida social com a gestão dos recursos humanos universais de tempo, conhecimento, habilidade, cuidado, empatia, ensino e reciprocidade.

Relatório da Oxfam de 2019 mostra que o trabalho de cuidado não pago equivale a 10,8 trilhões de dólares, o que corresponde à quinta economia do mundo. Dados do IBGE, publicados pela ONG Think Olga, revelam que, se remunerado, este seria o principal setor produtivo do país, responsável por 11% do PIB brasileiro. O trabalho de cuidado também perpetua as desigualdades relacionadas a gênero. Segundo Pesquisa do IBGE de 2022, 92% da população feminina realiza afazeres domésticos, contra 78% dos homens. Além disso, as mulheres gastam, em média, 21 horas por semana em atividades de cuidado, enquanto os homens gastam apenas 11 horas. Esse trabalho sobrecarrega principalmente as mulheres de 36 a 55 anos (57% cuidam de alguém) e pretas e pardas (50% cuidam de alguém).

E o que falar de quem atua na economia do cuidado e ainda tem um emprego para sustentar a família? Segundo relatório do Dieese de 2022, a maioria dos domicílios no Brasil é chefiada por mulheres. Dos 75 milhões de lares, 50,8% têm liderança feminina. Importante analisar o recorte de raça, pois as mulheres negras lideram 21,5 milhões de lares (56,5%) e as não negras, 16,6 milhões (43,5%). Hoje as pessoas negras e pardas representam 56% da população brasileira e a participação das mulheres negras na População em Idade Ativa (PIA) é de 28,3%. Porém, entre todas com idade para trabalhar, que somaram 50 milhões no início de 2023, apenas 44% estavam empregadas, sendo o menor nível quando comparado com os demais grupos: para as mulheres e homens não negros, esse percentual é de 49,3% e 67,7%, respectivamente. E nas oportunidades de ascensão profissional, nos cargos gerenciais, negros ocupam 29,5% dos cargos e brancos 69%.

Assim, as mulheres negras possuem as piores condições salariais e as piores oportunidades de carreira, com extremas dificuldades para viver de forma digna, mesmo sendo responsáveis pelo cuidado de grande parcela das próximas gerações que entrarão no mercado de trabalho. Então qual futuro queremos para o País, se são mínimos os esforços para mudar este panorama?

A Oxfam aponta que investir em sistemas nacionais de cuidado para equacionar a questão da responsabilidade desproporcional assumida pelo trabalho de mulheres, adotar um sistema de tributação progressiva, com taxas sobre riquezas, e legislar em favor de quem cuida, são passo cruciais para uma mudança, medidas que podem ser adotadas através de políticas implementadas na esfera pública. Também é dever deste setor prover creches, escolas, asilos e hospitais que dêem assistência para quem exerce várias jornadas de trabalho.

Além disso, o modelo de gestão de negócios precisa ser reconfigurado pelo segundo setor. O Capitalismo Consciente se propõe a debater e orientar empresas para que tenham um propósito além do lucro e priorizem o capital humano. Trazendo para o senso prático, é possível citar ações como a revisão da licença parental, compreendendo os direitos e deveres iguais para mulheres e homens na dupla função que envolve os cuidados dos filhos e a jornada profissional; o modelo de trabalho híbrido ou home office, que flexibiliza e economiza tempo na rotina; e políticas de ação afirmativa em processos de recrutamento e seleção para mulheres, e mais especificamente para mulheres negras, com oportunidades de cargos em todos os níveis e carreiras.

Ao trazer uma pensadora contemporânea crítica do capitalismo e especialista na economia do cuidado, a ideia é provocar a reflexão dos acomodados frente à atual situação, pois o trabalho de cuidar é responsável por reproduzir os trabalhadores, e sem eles, não há como suportar o capitalismo. Com consciência acerca dos benefícios e malefícios do nosso atual modelo econômico, será possível mobilizar os atores envolvidos para a reforma necessária, construindo uma Nova Economia que gere impactos positivos e prosperidade a todos os stakeholders e permita a existência de uma nação, ainda capitalista, porém mais sustentável para as próximas gerações.

*Conselheira da Filial Regional do Capitalismo Consciente em Belo Horizonte (MG), publicitária, especialista em Marketing e Gestão de Projetos, pós-graduanda em Moda e Sustentabilidade e pesquisadora da área de consumo consciente. Linkedin: Thaisa Bogoni, Instagram: @thabogoni e e-mail: thabogoni@gmail.com.

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