(Des)concentração econômica e seus desafios em Minas Gerais

25 de janeiro de 2024 às 5h11

No final de 2023, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou os dados relativos ao Produto Interno Bruto (PIB) dos municípios brasileiros para o ano de 2021. De acordo com o órgão, a economia do País continuou a se desconcentrar, com redução na participação das capitais e aumento da relevância de municípios periféricos. Em Minas Gerais, a Fundação João Pinheiro (FJP) observou que esse fenômeno foi mais evidente ao longo da última década, de 2010 a 2021, embora sua magnitude tenha sido menos expressiva em termos anuais.

Segundo relatório da FJP, apenas 21 municípios responderam por 50,7% do PIB estadual, sendo Belo Horizonte o líder, contribuindo com 12,3% do total. Além disso, cerca de dois terços da riqueza foram gerados em 50 dos 853 municípios. Uma análise por setor revela que as localidades que mais ampliaram sua participação no PIB de Minas, em 2021, foram aquelas que se beneficiaram da indústria extrativa mineral, especialmente do minério de ferro, cuja produção e preços no período aumentaram substancialmente. Nesse conjunto, destacam-se Itabira, Nova Lima, Ouro Preto, Itabirito, Itatiaiuçu, São Gonçalo do Rio Abaixo, Conceição do Mato Dentro, Catas Altas e Mariana.

Por outro lado, os municípios que enfrentaram uma redução em sua contribuição para o PIB mineiro na transição de 2020 para 2021, foram aqueles mais dependentes do setor de serviços, cuja perda de representatividade na economia estadual originou-se da alteração nos preços relativos entre os setores. Belo Horizonte e Uberlândia foram as localidades mais impactadas por esse efeito.

Ao ampliarmos o horizonte de análise para o período de 2010 a 2021, identificamos uma tendência de desconcentração do PIB em relação à Capital e suas áreas circunvizinhas, com perdas de participação de Belo Horizonte, Betim e Contagem. Por outro lado, o município de Extrema destacou-se como o que mais ganhou participação no período, consolidando-se como um importante polo de comércio atacadista.

Sob uma perspectiva setorial, em 2021, 404 municípios mineiros (47,4% do total) apresentaram a “administração pública” como sendo a principal atividade econômica. Já em 223 municípios, o agrupamento “demais serviços” foi a atividade predominante. Em termos gerais, indústria e serviços privados foram os setores mais concentrados no estado, com poucas localidades respondendo por parcela significativa do valor adicionado bruto (VAB) setorial. A agropecuária, por sua vez, foi o setor mais disperso, com muitos municípios participando do VAB.

Avaliar sistematicamente a concentração de atividades econômicas nos territórios é de extrema relevância. Quando há concentração em poucos municípios, uma série de desafios para as regiões e suas populações pode ser desencadeada. Um dos problemas mais evidentes é a criação de desigualdades regionais, onde algumas áreas prosperam enquanto outras enfrentam dificuldades, resultando em disparidades no acesso a empregos, serviços públicos e qualidade de vida. Essa concentração torna a economia mais vulnerável a choques externos. Flutuações nos mercados globais, mudanças nos preços das commodities ou eventos específicos de uma indústria podem ter repercussões significativas na economia local, aumentando os riscos para a estabilidade econômica.

A pressão sobre os recursos locais também é um desafio, com infraestrutura e habitação sendo sobrecarregados devido à alta concentração de atividades em determinadas áreas. Isso pode resultar em problemas como congestionamento e aumento nos preços imobiliários. Há também questões sociais associadas, como migração populacional em busca de empregos, sobrecarga dos serviços públicos, especialmente dos sistemas educacionais e de saúde locais e desafios relacionados ao custo de vida.

Esses problemas podem gerar tensões e impactar negativamente o tecido social da região.

Para enfrentar tais desafios, é preciso buscar estratégias de desenvolvimento regional. Diversificar a base econômica, promover investimentos em diferentes setores e reduzir as disparidades entre os municípios tornam-se prioridades para criar uma economia mais resiliente e equitativa.

* Especialista em Educação Financeira no Grupo Suno. Sócio-fundador da Certifiquei, possui experiência como economista, atuando na gestão e elaboração de pesquisas e análises socioeconômicas. Mestre em Estatística pela UFMG.

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