A reindustrialização do Brasil: nearshore e agroindústria

8 de fevereiro de 2024 às 5h07

Um dos fatores-chave ao pensar o futuro é que ele não é linear. Certas situações podem se manter por anos e depois mudar rapidamente quando as condições são alteradas.

Este já começa a ser o caso da industrialização brasileira. Desde a década de 1980, o Brasil vem se desindustrializando à medida em que entra na chamada armadilha de renda média. Isto é, a mão de obra local ficou “cara” em relação a outras opções em geral na Ásia e, em particular, na China.

Entretanto, este processo já começou a mudar. Nos últimos anos a China entrou também na armadilha da renda média e o governo chinês começou a adotar uma postura mais militarista e expansionista. Assim, a China ficou cara e arriscada. Isso está levando os investimentos para outros destinos.

Existem basicamente três lógicas para decidir o local de uma fábrica: baixo custo, baixo risco e mão de obra qualificada. Indústrias diferentes seguem lógicas diferentes dentro dessas três opções.

A lógica da mão de obra barata que apontava para a China por 40 anos, agora aponta para países no sudeste da Ásia, Índia e África e, em particular, Vietnã e Malásia se apresentam como destinos preferenciais desses investimentos. Porém, todos estes destinos têm ainda um risco militar, social e geopolítico alto, o que só é compensado pela mão de obra barata. Esse tipo de destino é chamado no jargão de negócios de Friendlyshore, ou seja, um offshore mais amigável.

Quem não quer correr esses riscos e pode pagar por uma mão de obra um pouco mais cara, busca fugir da Ásia e vir para o Ocidente, mais especificamente para a América Latina, Sul da Europa e alguns países do Norte da África. O México tem sido o destino preferencial dessa lógica e, em 2023, já ultrapassou a China como o maior parceiro comercial dos EUA. Este destino tem sido descrito como nearshore, ou seja, um offshore perto.

Finalmente, quem necessita de uma mão de obra qualificada precisa se instalar nos Estados Unidos, Canadá e Europa ocidental. Inevitavelmente, essa mão de obra é cara, bem como toda a estrutura nesses países e, portanto, nem todas as indústrias conseguem manter esta estrutura de custo. Só são capazes as que geram um valor agregado bastante alto. Este tipo de investimento tem sido denominado de re-shore, ou seja, ele descreve o retorno dos países desenvolvidos para os locais de onde saíram décadas atrás.

Para o Brasil, isso significa que muitas indústrias que foram para a Ásia nas últimas décadas já começaram a voltar para a América Latina. À medida em que o México começa a ficar saturado e com mão de obra cada vez mais cara, as alternativas se voltam, primeiro, para alguns países do Caribe (Costa Rica, Panamá e República Dominicana) e, depois, para a América do Sul (Brasil, Argentina, Colômbia, Paraguai e Uruguai). O potencial disso nas próximas décadas é a reversão do processo de desindustrialização do Brasil.

Há uma segunda linha de raciocínio que indica a reindustrialização do Brasil nas próximas décadas: a mudança do agronegócio para agroindústria. Historicamente, a ocupação de uma fronteira agrícola ocorre por fases. Primeiro, vem uma fase em busca de mais terras, depois por maior produtividade e finalmente acontece a industrialização da região.

O processo pode ser visto sob um ponto de vista histórico no Meio-Oeste dos Estados Unidos, no Sul e Sudeste do Brasil. Nestes dois casos havia uma região de terras férteis com um vazio demográfico.

Depois da guerra civil norte-americana e da guerra do Paraguai no Brasil, ocorreu uma migração para este vazio no final do século dezenove e ali se formaram cidades pequenas e sem estrutura, o que foi popularmente batizado de “Velho Oeste”. Porém, depois de algumas décadas, a região se desenvolveu, as terras já ocupadas começaram a ser melhor tratadas e, na virada dos séculos dezenove para vinte, surgiram o CornBelt americano e o ciclo do café no Brasil. Finalmente, no período das guerras mundiais, a produtividade alcançou um máximo, começando o processo de industrialização que ocorreu nas duas regiões.

Esse mesmo processo, de desenvolvimento regional, vem se repetindo no Brasil no nosso Centro-Oeste a partir da década de 1960, ou seja, cerca de 100 anos depois do processo descrito no parágrafo anterior.

Esse processo também começou a ocorrer no Cerrado brasileiro a partir da década de 2010, cerca 150 anos depois do processo de colonização do Sul e Sudeste do Brasil.

No Centro-Oeste, o evento disparador foi a mudança da capital do Rio de Janeiro para Brasília, criando o “faroeste caboclo” e que depois virou o agronegócio da região, o “Soybeanbelt” brasileiro. Já no Cerrado, o que iniciou o processo foi a melhoria da logística e a natural expansão da fronteira agrícola do Centro-Oeste para esta região. A região chamada de Mapito ou Matopiba já entrou na fase do agronegócio.

O Centro-Oeste do Brasil também entrou na fase de agroindústria, mas ainda nos estágios iniciais e o Cerrado deve entrar nesta fase dentro de mais duas ou três décadas.

Dessa forma, podemos ver que existem duas tendências claras e consolidadas que apontam para uma reindustrialização do Brasil nas próximas décadas, isto é, o nearshore e a agroindústria.

O futuro não é linear! Uma tendência que existia por 40 anos pode ser mudada, se as condições que a criaram forem alteradas.

*Professor da Fundação Dom Cabral

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