Saúde mental deve ser pauta nas corporações

6 de setembro de 2023 às 0h06

Este setembro amarelo nos convida a uma reflexão delicada e necessária acerca da saúde mental. Toda a sociedade é corresponsável pelo autocuidado e pela empatia com o próximo, na tentativa de evitar que as dificuldades impostas pela vida ou o desgaste com a rotina culminem com a falta do desejo de viver.

Essa tem sido uma realidade. A taxa de mortes por “lesão autoprovocada” no Brasil subiu 35%, de 2011 a 2020. Os dados, que antecedem a pandemia, são do DataSUS e apontam ainda que Minas Gerais é o segundo estado do País com a maior taxa de suicídio, ficando atrás apenas de São Paulo. E como esse cenário se expressa em uma organização, uma empresa ou em uma instituição de ensino?

Vivemos em uma sociedade que, muitas vezes, prioriza os resultados em detrimento do bem-estar. Sentir-se bem ainda não é suficientemente valorizado em muitos ambientes corporativos. E é, sem dúvida, definido de forma diferente de um indivíduo para outro.

O sentimento reflete um estado emocional que proporciona uma sensação de equilíbrio e satisfação. Uma sensação de realização em um determinado momento, tanto materialmente quanto psicologicamente.

Então, sentir-se mal é o oposto de sentir-se bem? Acho que é mais complexo porque a infelicidade causa, principalmente na adolescência e entre os jovens, uma incapacidade de comunicar seu estado. O que pode levar a ações impulsivas, precipitadas e imprevisíveis com consequências muito graves, como o suicídio, tema que deixo para que debatam com profundidade os especialistas da área.

Às vezes, ela pode ser identificada por uma tristeza profunda que expressa um sentimento de angústia, o que deixa as pessoas envolvidas sem nenhuma saída possível para esse estado. Esses sintomas, que se instalam com o tempo, são sinais de alerta e exigem a necessidade de conversar com amigos ou profissionais, uma necessidade de receber a energia externa necessária para sair de uma espiral perigosa.

De modo mais geral, é uma perda de autoestima ou autoconfiança diante de um mundo que não o entende ou que indivíduo não entende mais. Esse sentimento de fracasso às vezes é expresso por irritabilidade e incapacidade de se comunicar, um sentimento de solidão e falta de interesse pelas coisas comuns. O mal-estar pode até levar a um sofrimento insuportável.

Nesse sentido, vejo que as corporações e as instituições de ensino têm papel fundamental. Desde a formação de profissionais atentos a si, a seus colegas e entorno, quanto à capacitação de líderes comprometidos a promoverem negócios capazes de gerar campanhas preventivas. Inclusivedentro de nossa esfera de competência e em medidas de apoio dentro de nossas organizações, para garantir uma qualidade de vida que não leve ao isolamento, uma das principais características desses estados de angústia.

Ressalto que o objetivo não é tomar o lugar dos profissionais de saúde que trabalham no campo da saúde mental. Porém, precisamos concordar, como educadores e empresários, que a saúde mental é uma pauta contemporânea relevante. Gostaria de enfatizar ainda que não estou confundindo solidão, que pode ser uma fonte de regeneração de que todos nós precisamos, com isolamento, que ilustra situações em que há falta de laços sociais de confiança e vínculos emocionais.

Uma faculdade, seja qual for sua área, pode conscientizar seu corpo docente sobre a necessidade de saber como criar vínculos com os alunos em sala de aula e como levá-los ao sucesso. Se determinados alunos apresentarem queda em termos de frequência ou concentração, ou apresentarem comportamento agressivo ou prostrado, esses casos devem ser relatados para que possamos iniciar o apoio o mais rápido possível. Além do corpo docente e da equipe acadêmica, também precisamos disseminar os valores de ajuda mútua na comunidade estudantil.

Não é um caminho fácil, mas o mundo do trabalho e a sociedade estarão mais abertos para jovens em formação com esses cartões em suas mãos! Também precisamos educá-los e alertá-los sobre nosso mundo digital e, mais especificamente, sobre as redes sociais. As ferramentas digitais desempenham um papel importante no desenvolvimento de nossas sociedades, mas, em alguns casos, elas podem ser muito perigosas devido à forma como são utilizadas e seu conteúdo.

O mundo dos negócios também está tomando medidas muito concretas ao longo do ano sobre a questão do bem-estar corporativo, que vai além do gerenciamento de riscos no local de trabalho. Foram criados indicadores e classificações. Esse é um passo na direção certa. O esforço de criar vínculos entre os funcionários e a atmosfera que permite que eles se sintam bem integrados em uma comunidade de trabalho requer o apoio da cultura da empresa.

Acredito que o debate em torno da saúde mental, que culmina em suicídio, é a responsabilidade de todos dentro de uma empresa. Mais ainda da governança da corporação, que orientará a cultura e as ações da empresa.

Há sinais animadores, como os treinamentos do IBCG (Instituto Brasileiro de Governança Corporativa), que disseminam conhecimento para apoiar a gestão das empresas nas transformações estratégicas necessárias neste momento de transição ecológica ou tecnológica, que envolve tantas pessoas!
Precisamos restaurar a confiança dos indivíduos que só ouvem falar de políticas com ações limitadas, desafios climáticos, problemas globais de saúde e choques geopolíticos que estão levando a guerras de grande impacto.

A confiança que precisamos construir não é uma postura ingênua, mas, pelo contrário, a coragem de não mentir para nós mesmos e de buscar soluções para poder analisar e agir. É fundamental preconizar que o elemento humano é ativo principal dentro das organizações.

* Economista, presidente da Câmara de Comércio Internacional França Brasil/ Minas Gerais e reitora da Faculdade SKEMA Business School.

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