A biografia de Gilberto Braga

20 de janeiro de 2024 às 5h08

“Gilberto Braga – O Balzac da Globo” (Editora Intrínseca, 349 páginas) vem assinado por dois dos mais experientes jornalistas brasileiros: Maurício Stycer (também autor do livro sobre Jacinto Figueira Junior, ‘o homem do sapato branco’, comentado nessa coluna na semana passada) e Artur Xexéo (falecido em 2021), que redigiu as biografias de Janete Clair e Hebe Camargo. Mestres do estilo claro, preciso e refinado, os dois acabaram presenteando os leitores com um volume rico em informações sobre o protagonista e o seu tempo, sobre a tevê brasileira e seus principais personagens.

A trajetória biográfica do novelista é esmiuçada com rigor, desde a infância na Tijuca e a juventude na zona sul carioca até o começo de sua vida profissional, tanto como professor na Aliança Francesa quanto como crítico de teatro no jornal “O Globo”. O universo dramatúrgico de Gilberto é focalizado com perspicácia, gerando para os leitores interessante análise sobre o seu legado. Falecido em novembro de 2021, sua memória ganha agora um documento abrangente, útil para o estudo de sua contribuição à cultura brasileira. Não há como desconsiderar ou atenuar a importância de Gilberto para ela. Corajosos, seus enredos pautaram temas e discussões fundamentais, muitas das quais encaradas como tabus, como as ligadas ao racismo, à homossexualidade, ao machismo, aos preconceitos de classe. Criador de obras primas como “Dancin’Days”, “Água Viva”, “Vale tudo” e “O dono do mundo”, ele inventou tipos que entraram para o imaginário popular e nele ficarão por muito tempo, como os vilões Odete Roitman e Felipe Barreto, e o icônico Leôncio, de sua adaptação do clássico “Escrava Isaura”, de Bernardo Guimarães.

Captando como poucos o chamado ‘espírito do tempo’, Gilberto mostrou a cara do Brasil ao Brasil, como cantava Gal Costa na abertura de “Vale tudo”.

Como acertadamente escrevem os autores do livro, “num gênero menor, visto como descartável por muitos, Gilberto conseguiu se conectar com grandes audiências e colocar o Brasil na tela. Várias de suas novelas, a rigor, ajudam a contar a história do país. A mão pesada da Censura, as reações de diferentes setores da sociedade a algumas tramas, o retrato acurado de parte da elite, o grito de revolta com a corrupção e a impunidade, tudo isso somado constrói um retrato do que foi o Brasil no período em que Gilberto escreveu suas novelas e minisséries.”

Em edição caprichada, o volume ainda oferece aos leitores uma lista das obras de Gilberto Braga, desde o caso especial “A dama das camélias”, que foi ao ar em 1972, até “Babilônia” (com Ricardo Linhares e João Ximenes Braga), de 2015, além dos dez filmes preferidos de Gilberto (“O poderoso chefão”, “Vertigo”, “Gigi” …) e de seus dez cantores prediletos (relação na qual estão presentes Elizeth Cardoso, João Gilberto e Maria Bethânia). No encarte de fotos, vemos Gilberto ainda criança, ao lado da irmã; no dia de sua primeira comunhão; em companhia dos pais, no centro do Rio; e ao lado de personalidades com quem conviveu intensamente, como a atriz Beatriz Segall e o colega Silvio de Abreu. Outro colega, Lauro César Muniz, assim opinava sobre Gilberto: “As novelas do Gilberto são as mais bem-feitas e as mais bem escritas desde que ele começou nessa guerrinha nossa”.

* Jornalista. Doutor em literatura. Presidente emérito da Academia Mineira de Letras.

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