Ainda sobre biógrafos e biografias

10 de fevereiro de 2024 às 5h10

Na última coluna, registrei o quanto os mineiros têm se dedicado – e com excelência – a escrever biografias, citando Ronaldo Costa Couto, Fernando Morais, Lucas Figueiredo, Ruy Castro e Humberto Werneck, que me lembrou, quando leu o texto, de outros conterrâneos dedicados à arte de pesquisar a vida alheia: José Maria Cançado, de Belo Horizonte, falecido em 2006 (“Os sapatos de Orfeu”, sobre Drummond); Ivan Marques, de Montes Claros (“João Cabral de Melo Neto: uma biografia”); Marcelo Bortoloti, de Muzambinho (“Guignard – anjo mutilado”) e João Perdigão, de São Domingos do Prata (“O rei da roleta: a incrível vida de Joaquim Rolla” e “Balões, vida e tempo de Guignard”). Notei ainda, naquele artigo, que Ruy Castro igualmente se interessava pela biografia de uma cidade, o Rio de Janeiro, prometendo comentar a respeito hoje.

Sim, as cidades têm vida: nascimento, crescimento… E vários são os autores interessados em narrar a trajetória delas. No caso de Belo Horizonte, metrópole ainda jovem, de apenas cento e vinte e seis anos, podemos contar com uma coleção só para levantar algumas histórias sobre a sua existência. Com o nome de “BH: a cidade de cada um”, editada por Sílvia Rubião e José Eduardo Gonçalves, ela já reúne, hoje, dezenas de volumes, entre os quais destaco os notáveis “Praça Sete”, do acadêmico Ângelo Oswaldo de Araújo Santos; “Serra do Curral”, do acadêmico Luís Giffoni; “Serra”, da jornalista Nereide Beirão; “Morro do papagaio”, da jornalista Márcia Maria Cruz, e “Campo Alegre”, do poeta Ricardo Aleixo.

Sobre a capital carioca, a produção de Ruy de Castro é abundante, com livros saborosíssimos a respeito de Ipanema, do Flamengo e da Bossa-nova, mas dois desses títulos são especialmente atraentes. Em “A noite do meu bem – a história e as histórias do samba-canção” (Companhia das Letras, 510 páginas), Ruy oferece um detalhado panorama sobre a vida noturna do município, desde o período colonial, recuperando personagens, lugares e acontecimentos enterrados pelo tempo, como os primeiros bares, cassinos, teatros de revista e boates, sempre à luz do contexto político, econômico e social: “Com a chegada da Corte portuguesa ao Rio e a abertura dos portos, em 1808, e a Independência, em 1822, tudo mudou. Iluminaram-se as ruas, hábitos se modificaram – o jantar e a ceia avançaram noite adentro -, surgiram os primeiros jornais, as treliças foram abaixo e homens e mulheres finalmente se olharam nos olhos”. 

Em “Metrópole à beira-mar – O Rio moderno dos anos 20” (Companhia das Letras, 494 páginas), o foco está na década modernista, inaugurada logo depois da terrível gripe espanhola de 1918, que tirou a vida de milhares de habitantes do Rio, assim como a Covid-19 faria um século depois. Para o autor, era assim o Rio de 1920: “Era a cidade dos palácios particulares, que a República comprara ou tomara à força para se instalar – Catete, Itamaraty, Monroe, Guanabara -, e a das repartições rangentes e empoeiradas do velho Centro, onde funcionava a burocracia. Era também a cidade dos morros, com casas de luxo, móveis franceses e recepções enluvadas – Glória, Santa Teresa, São Bento. E a dos morros com barracos de madeira, telhados de zinco e navalhas afiadas, que já despontavam no horizonte: Favela, Salgueiro, São Carlos. Em 1920, ainda não havia exatamente uma Zona Norte e uma Zona Sul. Havia o Rio.”

* Jornalista. Doutor em literatura. Presidente emérito da Academia Mineira de Letras.

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