EDITORIAL | Fundos abutres atuam na Samarco

20 de julho de 2021 às 0h23

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Crédito: REUTERS/Ricardo Moraes

Avançam de forma promissora as tratativas entre os diversos segmentos da sociedade e a Samarco visando reparar perdas decorrentes do rompimento da barragem de Mariana. Com mediação do Ministério Público e do Poder Judiciário, empresa e vítimas, pessoas físicas e jurídicas, esperam chegar em breve a um bom entendimento. Há, no entanto, riscos e ameaças no caminho, em razão da atuação dos chamados fundos abutres, que passaram a atuar fortemente na renegociação de dívidas financeiras no Brasil.

Predadores por natureza, estes fundos compram dívidas de empresas em dificuldades com descontos expressivos, aproveitando-se do desejo dos credores originais, principalmente bancos, de tirá-las de seus balanços. A única preocupação dos fundos abutres é o lucro exorbitante, fácil e rápido. Exemplo hipotético: se pagarem 10% sobre o valor da dívida, o que não é incomum, e venderem por 20%, embolsam 100% de ganho.

No Brasil, a imprensa noticiou a participação de fundos abutres na renegociação das dívidas da Oi, no contexto da sua recuperação judicial que envolvia R$ 65 bilhões. No caso da Odebrecht, que envolvia dívidas de R$ 83 bilhões e 11 companhias, as reclamações do grupo na Justiça não foram suficientes para evitar a presença de fundos predadores. Na recuperação judicial da Samarco, os fundos abutres estão presentes como os maiores credores financeiros, com R$ 26,4 bilhões.

Especialistas advertem que a atuação destes fundos mudou o foco da recuperação judicial nos EUA e pode fazê-lo também no Brasil. Antes focados na reabilitação de empresas em dificuldades, hoje contaminados pelos fundos abutres, processos de recuperação judicial acabam por se tornar oportunidade para a realização de lucros exorbitantes. Isso pode levar a “recidivas”, ou seja, ao reaparecimento de problemas nessas companhias mesmo após a reestruturação das dívidas, como se busca agora na Samarco. Pode ser fatal!

Na verdade, esse tipo de credor não tem interesse algum em operações empresariais – produção, geração de emprego e renda – ou, ainda, no bem-estar das comunidades onde as empresas se localizam. Visam, sempre, o lucro – e, se não conseguirem, podem empurrar a empresa para a liquidação.

Na verdade, há um abismo entre os deveres e objetivos da companhia insolvente, dos bancos e dos fundos abutres. Os bancos e as companhias têm obrigações para com seus stakeholders, tais como pagamento de salários, impostos e dividendos, contratação de empregados e fornecedores, realização de investimentos e projetos de expansão. Os fundos abutres não têm qualquer compromisso com a empresa endividada, seus empregados, fornecedores, clientes. Visam, apenas e sempre, lucros fáceis, vultosos e rápidos.

No mundo inteiro, governos e empresas buscam soluções para frear a atitude predatória deste tipo de investidor. É hora, também no Brasil e em Minas Gerais, de começarmos a nos preocupar.

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