Abrir os olhos para enxergar

30 de novembro de 2023 às 0h01

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Crédito: REUTERS/Adriano Machado

A indicação do ministro Flávio Dino para vaga no Supremo Tribunal Federal (STF) pode fazer ressurgir a ideia, sempre apetecível nos círculos de Brasília, de criação do Ministério da Segurança Pública, que abraçaria funções hoje alojadas na pasta da Justiça. Por horas são apenas especulações que retornam ao campo da visibilidade e delas é preciso ser dito desde já que são absolutamente inoportunas, portanto, indesejáveis também. Ministérios não são soluções, são problemas ou, no máximo, moeda de troca utilizadas em barganhas igualmente de todo indesejáveis. Fosse diferente e a administração pública no País, pendurada em mais de três dezenas de ministérios, certamente estaria melhor.

Pensar diferente é alimentar ilusões, além de coisas bem piores, inclusive os gastos públicos que já vão muito além do fôlego do erário. Segurança pública, especificamente, figura sem sombra de dúvida entre os grandes problemas da atualidade brasileira, sendo suficiente a respeito que parcelas ponderáveis do espaço urbano, aquelas em que se encontram as hoje chamadas “comunidades”, são na prática territórios independentes, controlados por facções criminosas ou milícias, onde não resta ao Estado qualquer poder formal, policial ou de outra natureza. Uma situação que não é nova, mas se agrava rápida e alarmantemente, com certeza escapando da esfera policial para se configurar como situação de guerra aberta, ainda que não declarada.

Eis a compreensão que parece estar faltando, mesmo que não falte o reconhecimento da gravidade da situação bem como promessas constantes e repetitivas de intervenções mais duras e eficazes. Se as autoridades públicas de fato enxergarem o que se passa, se tiverem compreensão menos difusa, ou comprometida, da realidade, também entenderão melhor as proporções do desafio e a necessidade de enfrentar o tráfico de drogas ou o crime organizado e suas ramificações com outra disposição. Resumindo e reafirmando, algo que não tem absolutamente nada a ver com a criação de mais um ministério. Serão, deveriam ser, mudanças bem mais amplas, com espaço para enfrentamento na escala necessária, porém com outro olhar .

Trata-se, resumindo, também de compreender e atacar as causas estruturais desses problemas, alojadas no campo socioeconômico, bem como as distorções que encontram abrigo nos sistemas Judiciário e carcerário, além da própria corrupção que não raro soa endêmica nesse, queiramos ou não, mundo à parte. Concluindo, trata-se apenas de abrir os olhos com vontade de enxergar.

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