Pancadaria pedagógica

6 de fevereiro de 2024 às 5h02

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Crédito: Freepik

Depois da França, os protestos de agricultores na Europa se alastraram, já alcançando Holanda, Bélgica e Itália, entre outros países de menor expressão econômica ou política. Acostumados a um protecionismo que parece visceral, eles reagem contra um possível acordo com o Mercosul, matéria discutida já há quase duas décadas, que entendem como inaceitável. A Comunidade Europeia, em comunicados protocolares, garante que as discussões prosseguem, enquanto na França, maior produtor agrícola no Continente, a questão é dada como encerrada. Argumentam que produtos oriundos do Brasil e da Argentina representariam concorrência predatória e se escondem um tanto hipocritamente em questões ambientais.

Mais uma vez, eis o que se pode constatar, a ideia do comércio sem barreiras sucumbe aos interesses dos mais ricos, tendência fortemente evidenciada depois da pandemia em que a própria questão da globalização, anteriormente tão de agrado dos ricos, quase um dogma da modernidade, passou a ser questionada. Exageros e conveniências à parte, entendeu-se que a interdependência pode ser também uma forma de fragilidade e que a ideia um tanto simplista de que compras devem ser feitas onde for mais barato fragiliza a necessária autonomia de estados nacionais. Faz sentido, desde que a regra seja geral e é nesse contexto que os acontecimentos na Europa devem ser observados, quando nada porque trazem à lembrança a ideia do “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”.

Na querela atual, na realidade requentada, o Brasil, na sua condição de um dos maiores produtores de alimentos do planeta, detentor de marcas de produtividade e qualidade que igualmente fazem inveja, é o alvo preferencial. Competir em igualdade de condições, consideradas também as questões climáticas e até de áreas cultiváveis, simplesmente deixou de ser possível. Disso deveriam saber muito bem os agricultores franceses que tentaram sitiar Paris com seus tratores e só foram incomodados quando o abastecimento da cidade foi ameaçado. Certo parece que seu objetivo foi alcançado, sepultando a ideia do livre comércio que só se transforma em bandeira quando conveniente.

Na realidade, nunca deixou de ser assim e na perspectiva do Brasil toda a movimentação das últimas semanas terá sido um favor se, afinal, nos fizerem entender como as regras do jogo bruto da economia são feitas e são aplicadas.

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