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O atual contexto da política do Brasil para a China

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Crédito: Reprodução

Arthur Guimarães e Thales Carvalho*

Desde 2009, a China assumiu o posto de maior parceiro comercial brasileiro. No entanto, é interessante notar que, embora a importância dos chineses para nossa balança comercial seja crescente já desde os últimos governos, nenhum deles foi capaz de formular uma estratégia efetiva para as nossas relações com Pequim.

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Ao invés de pensar em movimentos de longo prazo que permitam que o Brasil se beneficie ainda mais das trocas com os chineses, nossas relações comerciais têm se baseado apenas na busca de benefícios de curto e, no máximo, médio prazo. No atual governo, no entanto, a falta de estratégia somou-se a um afastamento em relação ao nosso maior parceiro comercial, junto a uma série de críticas e atitudes conflitantes.

Houve no atual governo, assim como em outros, algumas ações para tentar fortalecer os laços com Pequim. Em outubro de 2019, a convite do presidente Xi Jinping, o presidente Bolsonaro visitou a China, por ocasião das celebrações do aniversário de 45 anos do estabelecimento de relações diplomáticas entre os dois países. Nos encontros, os principais temas tratados foram relacionados a comércio, investimentos, setor privado brasileiro e melhor acesso a produtos brasileiros na China, incluindo a assinatura de diversos memorandos.

No entanto, em meio à estratégia de alinhamento com o governo estadunidense de Donald Trump e de críticas recorrentes ao multilateralismo, o governo Bolsonaro acaba por se afastar de seu maior parceiro comercial: os chineses. A despeito de acusações de membros e apoiadores do atual governo à China como causadora da atual pandemia, além de recentes manifestações favoráveis à independência de Taiwan, o distanciamento em relação a Pequim não se limita a essas atitudes.

O Brasil mudou seu padrão de votos na Assembleia Geral da ONU em 2019, por exemplo, levando também a um afastamento em relação ao posicionamento dos chineses. O argumento é utilizado por pesquisadores ao redor do mundo para sinalizar mudanças nos alinhamentos e orientações das políticas externas das nações. O país participou, ainda, de encontros de grupos como o “Quad”, por exemplo, que é fortemente relacionado à contenção da influência chinesa no planeta.

Cabe-nos aqui notar, primeiro, a ausência de estratégia e pragmatismo nas relações com nosso maior parceiro comercial. Uma eventual retaliação chinesa teria consequências catastróficas para o nosso País. Em 2018, a China foi o destino de mais de 25% das exportações brasileiras, que representaram 3.6% das importações chinesas.

Nosso País recebeu apenas 1.35% das exportações chinesas. O Brasil depende da China para escoar sua produção de produtos primários, principalmente. Mas a recíproca não é verdadeira. Vejamos o caso da Austrália, por exemplo, que tem participação pouco maior que o Brasil na balança comercial chinesa.

Após pedidos do primeiro-ministro australiano, Scott Morrison, por investigações internacionais sobre o surgimento do coronavírus na China, Pequim respondeu com sanções comerciais, como a suspensão da compra de carne australiana e taxando as importações de cevada provenientes daquele país em 80%. Ao contrário das relações comerciais entre Pequim e Washington, que são mutuamente interdependentes, um engajamento brasileiro em disputas com os chineses pode causar sérios transtornos ao empresariado brasileiro.

É verdade que, no momento, retaliações chinesas às atitudes brasileiras seriam inesperadas. Primeiro, pois as críticas e acusações vieram do entorno do presidente, mas não do próprio. Aliás, Bolsonaro tratou de amenizar a situação, em conversa direta com seu homólogo chinês, Xi Jinping. Há, no entanto, um outro motivo que ajuda a explicar a manutenção de nossas relações com a China: ao contrário do que dizem as teorias e manuais tradicionais de política externa, elas não têm dependido tanto mais da chancelaria e governo central.

A despeito da falta de articulação do governo federal com relação à China, os estados brasileiros já estabeleceram diversos vínculos e tentativas de aproximação. Temos, por exemplo, a criação de laços de províncias e cidades irmãs, que denotam vínculos mais simbólicos do que efetivamente práticos, talvez até por uma falta de esforço dos entes federativos brasileiros.

Por outro lado, temos casos de sucesso que podem servir de exemplo para futuras políticas estaduais e municipais. O governo de São Paulo, por meio da InvestSP (Agência Paulista de Promoção de Investimentos e Competitividade) formou, em 2019, a maior comitiva multissetorial já enviada pelo Brasil à China. A delegação construiu um portfólio de projetos de investimentos, concessões, PPPs (parcerias público-privadas) e pautas para fomentar o comércio entre São Paulo e empresas chinesas.

A missão teve o propósito também de inaugurar a presença física do estado de São Paulo na China via a abertura do escritório de promoção comercial da InvestSP na cidade de Xangai. Outros governadores e secretários de estado também se articularam em 2019 com agendas e missões para a China como foram os casos de Bahia, Alagoas, Mato Grosso, Pernambuco, Maranhão, dentre outros. Entretanto, hoje, São Paulo é o único estado brasileiro presente, fisicamente, na China, e as oportunidades e perspectivas futuras de tal estratégia são inimagináveis.

Há, também, o importante vínculo entre o setor privado brasileiro e a China. Fortemente vinculado a Federações de Indústrias, Associações Comerciais e Câmaras de Comércio para a superação de barreiras culturais e linguísticas, o empresariado brasileiro cada vez mais busca soluções e alternativas no relacionamento com os chineses.

Historicamente há a sólida base das importações de diversos produtos do mercado chinês (‘Made in China’) e exportação de commodities (grãos, proteína animal, minério). Entretanto, há alguns anos, vemos uma dinâmica impulsionada para a busca de tecnologia, soluções inovadoras (‘Invented in China’) e um grande interesse na exportação de produtos com alto valor agregado para o mercado chinês, principalmente voltados para alimentos e bebidas (laticínios, frutas, açaí, bebidas em geral e outros produtos tipicamente brasileiros) e serviços em geral.

Assim, para além de chamarmos a atenção para a necessidade de um maior pragmatismo nas relações com os chineses, notamos aqui a importância de que os estados brasileiros desenvolvam políticas e estratégias que visem à aproximação com os chineses.

É verdade que os fatos recentes acabaram por não levar a uma piora nas relações comerciais com os chineses. No entanto, em um contexto de retomada do crescimento global, além de uma coordenação eficiente por parte do governo central, seria importante para o Brasil uma atuação mais incisiva dos estados e municípios na busca de ampliar as relações comerciais com Pequim.

Reconhecemos que as trocas entre os dois países já se encontram em patamares muito significativos. Mas ressaltamos que as mesmas poderiam ser ainda maiores, se houvesse estratégia e uma ação coordenada em relação aos chineses. E esse caminho ajudaria, sem dúvidas, o Brasil a se beneficiar mais de uma retomada do crescimento global após a pandemia, colaborando no reaquecimento de nossa economia. Assim como fortemente presente na cultura chinesa, devemos pensar no relacionamento com benefícios mútuos e baseado no ‘win-win’.

* Mestre em Negócios Internacionais e Gerente-Geral da Câmara Chinesa de ­Comércio de Shanghai / Mestre e doutorando em Ciência Política pela UFMG

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