O mar precisa estar para peixe!

10 de agosto de 2021 às 0h10

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Crédito: Pixabay

A sabedoria popular é perfeita e pedagógica – e é dela que vem o ditado popular que todos conhecemos bem: “Não basta dar o peixe, é preciso ensinar a pescar”. Mas a sabedoria das ruas e do coração das pessoas, também sabiamente, costuma acolher e incorporar contribuições da realidade. Assim, o ditado ganhou um complemento: “Não basta dar o peixe; é preciso ensinar a pescar e, também, é preciso um ambiente de pescaria”. Vale dizer: o mar precisa estar para peixe. De fato, por mais que se ensine a pescar e que o pescador conheça o seu ofício, se não houver condições para a pescaria, se não tiver peixe, o pescador voltará sempre com as redes e os barcos vazios.

A ressignificação do antigo e sábio ditado chega até nós em um momento especial, com o mundo envolto em volatilidades, incertezas e ambiguidades, mas são, também, tempos de grandes avanços tecnológicos que impactam a economia, a sociedade e comportamentos. Uma destas grandes mudanças, já em curso, ocorre no mundo do trabalho e, além de mais conhecimento da tecnologia e do mundo digital, exigirá das pessoas aperfeiçoamento contínuo, adaptabilidade e postura criativa. Haverá competição e a colaboração será cada vez mais necessária e valorizada. Serão tempos de relações mais flexíveis, mas de muito comprometimento. A vinculação entre empresas e o mundo do trabalho serão bem diferentes daquelas a que estávamos acostumados até o século XX.

É neste cenário que se encaixa o mundo do empreendedorismo, das micro e pequenas empresas. As estatísticas disponíveis indicam que 99% das empresas existentes no País enquadram-se nesta categoria, com mais de 12 milhões de empreendimentos. Também são líderes na oferta do “primeiro emprego”, geram mais de 50% dos postos de trabalho e contribuem com 25% na formação do Produto Interno Bruto brasileiro – o nosso PIB. São números impressionantes, mais que suficientes para confirmar que o empreendedorismo é o caminho certo, o rumo que devemos seguir. Também é evidente que no futuro haverá cada vez mais oportunidades para empreendedores e menos empregos formais, com “carteira assinada”, como conhecemos hoje.

Para fomentar e ampliar o empreendedorismo precisamos mudar a cultura prevalente no País, que vê esta atividade com pouca simpatia, como uma ocupação menos digna, mera forma de subsistência, um reles “bico”. Somos uma sociedade que não valoriza quem arrisca e, menos ainda, quem erra e não alcança o sucesso – e, quase inacreditável, também não vê com bons olhos quem é bem-sucedido e obtém lucro. É isso que precisa mudar: precisamos valorizar o empreendedorismo, o que significa acreditar e investir nas pessoas. Em essência, temos que reduzir a distribuição de peixes, ainda tão usual nos dias de hoje sob a forma de uma infinidade de “bolsas” e “auxílios”. Precisamos ensinar a pescar e criar um ambiente favorável à pescaria.

Para isso, devemos avançar em três frentes, definindo-se as responsabilidades para o governo, a sociedade, como um coletivo, e, no nível individual, o cidadão. Capacitação, crédito, menos burocracia e custo Brasil, redução drástica da corrupção, mais segurança jurídica, menos fisiologismo, demagogia e corporativismo e mais compromisso com o País, com os brasileiros, em especial com os empreendedores. Este é o ambiente de pescaria que falta em nossa sociedade de peixes cada vez mais escassos. Se tivéssemos ao menos parte disso, a luta dos nossos empreendedores já seria menos árdua, menos sufocante, mais amigável, mais inspiradora e próspera. Enfim, legisladores e governantes precisam entender que a livre iniciativa, mesmo que representada por pequenos empreendedores, faz melhor e ainda cria trabalho e riqueza que, na maioria das vezes, o setor público usa muito mal.

O governo precisa, sim, fazer a sua parte – mas a sociedade também tem a sua missão e não pode se omitir. É preciso celebrar, com entusiasmo e orgulho, o empreendedorismo e as conquistas daqueles que fazem dele sua causa e profissão. Deve defender a livre iniciativa, aceitar e valorizar o insucesso, como parte da jornada de quem corre riscos, compreender a legitimidade do lucro justo e absolutamente necessário para assegurar a perenidade dos empreendimentos que são vitais para o país e para a própria sociedade – o lucro que gera crescimento econômico e faz dele instrumento de transformação e inclusão social.  Exemplos mundo afora mostram que uma economia forte, saudável e em crescimento firme e duradouro é e será sempre a melhor política social que uma sociedade pode almejar.

E o indivíduo, o cidadão, qual é a sua missão, a sua responsabilidade? Para chegarmos aonde precisamos, o brasileiro tem de deixar de esperar que estado seja o provedor e responsável pelo seu destino e que venha sempre em seu socorro. É preciso assumir seu destino, acreditar na própria capacidade e no seu potencial. Como empreendedor, também deve buscar a sua formação para atuar com mais eficiência, atender bem os clientes, com gana para criar, inovar, aperfeiçoar, aprimorar. Atuar com ética, deixar de lado o jeitinho, a improvisação, a Lei de Gerson e os atalhos. Praticar a concorrência leal, cumprir com as obrigações em todos os campos – social, ambiental, legal, conformidade de produto e fiscal, e dormir tranquilo com a sua consciência e a certeza do dever cumprido.

Temos que avançar e isso somente será possível distribuindo peixes, quando absolutamente necessário, mas principalmente ensinando a pescar e criando um ambiente para uma boa e recompensadora pescaria. Devemos acreditar: vale muito a pena, como nos lembra o escritor e ensaísta líbano-americano Nassim Taleb, que escreveu “Skin in the game”. Ele nos ensina que se um empreendedor sobreviver um só dia e nele criar um único emprego, já terá legado uma contribuição relevante para o mundo.

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