Carlos Bolsonaro depõe à PF um dia após ser alvo de operação

Filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) é alvo de investigações que miram monitoramentos ilegais feitos pela Abin

30 de janeiro de 2024 às 11h53

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Polícia Federal faz operação | Crédito: PF / divulgação

RIO DE JANEIRO e BRASÍLIA – O vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ) permaneceu por 40 minutos, na manhã desta terça-feira (30), na sede da Polícia Federal (PF) no Rio de Janeiro, onde foi prestar depoimento.

O filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) é alvo de investigações que miram monitoramentos ilegais feitos pela Abin (Agência Brasileira de Inteligência) durante a gestão do ex-mandatário e tinha depoimento marcado para esta terça-feira.

O vereador se apresentou à sede da corporação no Rio de Janeiro, no centro da capital fluminense, por volta das 10h, acompanhado de seu advogado, Antônio Carlos Fonseca. Deixou o local às 10h40.

Na segunda-feira (29), a PF cumpriu mandados de busca e apreensão em endereços ligados a Carlos – uma casa, seu gabinete na Câmara Municipal e seu escritório político. Nessa ação, a corporação mirou pessoas que foram destinatárias das informações produzidas de forma ilegal pela agência de inteligência do governo federal.

Na decisão em que autorizou as buscas, o ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), relata que o objetivo da PF foi “avançar no núcleo político, identificando os principais destinatários e beneficiários das informações produzidas ilegalmente no âmbito da Abin”.

A ação desta segunda-feira é uma nova frente investigativa mirando a família Bolsonaro, que nos últimos anos esteve no centro de apurações envolvendo, por exemplo, a prática de “rachadinha” e a articulação de milícias digitais.

Carlos Bolsonaro, que foi o principal responsável pela estratégia de campanha online na eleição presidencial de 2018, já tinha sido incluído em inquérito sobre disseminação de fake news, ainda durante o mandato do pai.

A autorização para as buscas – que foram solicitadas pela PF e tiveram parecer parcialmente favorável da PGR (Procuradoria-Geral da República) – tem como base uma mensagem de 2020 em que uma assessora de Carlos pede, por meio de uma auxiliar de Alexandre Ramagem, então chefe da Abin, que levante informações sobre investigações contra o então presidente da República e seus filhos.

Na mensagem, a assessora Luciana Almeida diz: “Bom diaaaa Tudo bem? Estou precisando muito de uma ajuda”. Depois, ela envia outro texto com referência a inquéritos. “Delegada PF. Dra. Isabella Muniz Ferreira – Delegacia da PF Inquéritos Especiais Inquéritos: 73.630 / 73.637 (Envolvendo PR e 3 filhos).”

Operação contra Carlos teve sinal em alto-mar, helicópteros e tensão com PF

A operação da Polícia Federal contra o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ) teve, segundo relatos de aliados, momento de tensão, falta de sinal de telefone em alto-mar e helicópteros sobrevoando Mambucaba, distrito de Angra dos Reis (157 km do Rio de Janeiro) na divisa com Paraty.

O passeio de barco, onde estavam Carlos e o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), foi combinado na véspera.

No final de semana, dirigentes do PL estiveram em Angra para acompanhar o lançamento da pré-candidatura de Renato Araújo, a primeira com presença e forte empenho do ex-mandatário.

A segunda-feira (29) do clã começou cedo, por volta das 5h50, quando Bolsonaro saiu para pescar com um barco e um jet ski. Ele estava acompanhado de Carlos e Flávio (PL-RJ), do deputado Coronel Zucco (PL-RS), de Araújo e dos seguranças presidenciais (ele tem direito como ex-presidente).

Pouco depois, policiais federais chegavam ao gabinete e à residência do vereador no Rio, num desdobramento da operação que apura a existência de uma “Abin paralela” durante o governo do ex-presidente.

Mas, segundo relatos, o grupo estava pescando em alto-mar e, portanto, sem sinal. Foi somente por volta das 9h40 que receberam ligação do assessor Fabio Wajngarten, souberam da operação e voltaram – Bolsonaro e Carlos no jet ski; os demais, no barco.

A essa altura, Mambucaba já tinha visto o primeiro helicóptero do dia: a PF usou a aeronave da Polícia Rodoviária Federal e já estava na casa de Bolsonaro em Angra. Os agentes encontraram o vereador chateado e abalado, segundo relatos.

Os filhos do presidente se queixaram da operação e disseram se tratar de uma operação ilegal e cinematográfica. “Até helicóptero pousou aqui na vila. Teve uma aglomeração na frente da casa do meu pai para apoiá-lo. É isso que o Alexandre [de Moraes] está arrumando”, disse Flávio ao jornal O Globo. Os agentes revistaram os cômodos e queriam levar os celulares de todos os presentes, incluindo o do ex-presidente.

Bolsonaro, então, ligou para os seus advogados, que estavam em deslocamento de São Paulo para o Rio de Janeiro, também de helicóptero. O diálogo com o delegado da PF foi o maior momento de tensão. O único alvo do dia era Carlos.

Por fim, a PF se convenceu em levar apenas dois celulares e um computador do vereador, mas também um notebook e um tablet de Tércio Arnaud, assessor de Bolsonaro, apontado como um dos integrantes do chamado “gabinete do ódio”.

Além disso, os policiais levaram anotações usadas pelo ex-presidente para a live realizada na véspera, com os filhos.

Live da família Bolsonaro em Angra dos Reis no ultimo domingo (28), véspera de quando o vereador Carlos Bolsonaro virou alvo de operação da Policia Federal | Crédito: Reprodução / Rede Social
Live da família Bolsonaro em Angra dos Reis no ultimo domingo (28), véspera de quando o vereador Carlos Bolsonaro virou alvo de operação da Policia Federal | Crédito: Reprodução / Rede Social

Tércio trabalhou no Palácio do Planalto e hoje acompanha Bolsonaro, filma e edita vídeos, entre outras atribuições. Ele está em Angra com o clã e foi, inclusive, quem estava em casa quando a PF bateu à porta. A defesa do assessor já encaminhou uma petição ao ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), pedindo a imediata devolução dos itens.

Os advogados de Tércio afirmaram, também em nota, ser “inaceitável e inconcebível que terceiros, sem absolutamente qualquer tipo de relação com os fatos apurados, tenham seus bens apreendidos com base em maldosa e indecorosa interpretação de determinada ordem judicial específica”.

Entre os bolsonaristas, houve irritação e alegações de que a operação teve ilegalidades. Além da queixa de que os agentes levaram itens de uma pessoa que não era alvo, também apontaram a tentativa de levar celulares dos parlamentares e do ex-presidente.

O principal argumento dos bolsonaristas é o de que há uma perseguição político-eleitoral em curso, com vistas especialmente ao pleito municipal de outubro. Eles citam como exemplo que esta é a terceira operação contra aliado do ex-presidente num pequeno intervalo de tempo – na semana passada, foram contra os deputados Carlos Jordy (PL-RJ) e Alexandre Ramagem (PL-RJ).

“É preciso ressaltar que o mandado de busca e apreensão extrapolou todos os limites da legalidade, haja vista que a Polícia Federal vasculhou a casa inteira do presidente Bolsonaro, que sequer é alvo desta operação. Afinal de contas, quem era realmente o alvo ou os alvos dessa ação?”, questionou Zucco, que está em Angra com o clã.

Já Bolsonaro disse à coluna Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, que a intenção da operação desta segunda é a de “esculachar” com ele e sua família. O ex-presidente afirmou que querem encontrar algo para envolvê-lo em algum crime, mas que não conseguirão. “Estão jogando rede, pescando em piscina. Não tem peixe”, disse.

Em nota divulgada na noite de segunda, a defesa de Bolsonaro também usou o mesmo termo.

“A verdade é que a operação da Polícia Federal na data de hoje pode ser classificada como mais uma desastrosa e indevida fishing expedition, ou pescaria probatória, subvertendo a lógica das garantias constitucionais, vasculhando-se a intimidade e a vida privada de cidadãos probos, vilipendiando seus direitos fundamentais e extrapolando os limites legais”, diz o texto.

Lula rebate Bolsonaro e cobra PF a não fazer pirotecnia em operação

O presidente Lula (PT) rebateu nesta terça-feira (30) o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e disse que ele falou uma “grande asneira” ao afirmar que a operação da Polícia Federal foi uma perseguição. Lula também disse que a PF não deve fazer pirotecnia em ações policiais.

Em entrevista à rádio CBN Recife, Lula afirmou que a polícia “não pode exorbitar em fazer pirotecnia” e precisa respeitar a presunção de inocência de investigados, o que ele diz não ter tido direito quando foi alvo de investigações.

Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante entrevista à rádio CBN Pernambuco, no Palácio da Alvorada | Crédito: Ricardo Stuckert / PR
Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante entrevista à rádio CBN Pernambuco, no Palácio da Alvorada | Crédito: Ricardo Stuckert / PR

“Todo mundo sabe, tanto PF quanto MP [Ministério Público], quer investigar, investigue, mas não faça show pirotécnico, não fique divulgando nome da pessoa antes de ter prova concreta, não fique destruindo imagem das pessoas antes de investigar”, disse.

Lula também disse que deixará o diretor-adjunto da Abin, Alessandro Moretti, se defender no cargo, mas que, se acusações da PF forem verdadeiras, não haverá “clima” para ele seguir no governo. Moretti foi citado na operação da polícia que mirou o ex-chefe da agência no governo Bolsonaro, Alexandre Ramagem.

O mandatário demonstrou insegurança em relação à Abin. “A gente nunca está seguro”, disse. No entanto, ele afirmou que confia no diretor-geral do órgão, Luiz Fernando Corrêa.

“O companheiro que indiquei para ser diretor-geral da Abin é companheiro que foi meu diretor geral da PF entre 2007 e 2010, é pessoa que tenho muita confiança e por isso chamei, já que não conhecia ninguém dentro da Abin. E ele montou a equipe dele e dentro da equipe tem cidadão que está sendo acusado que mantinha ligação com Ramagem, que é ex-presidente da Abin do governo passado”, afirmou.

Lula também disse que a ofensiva da PF no caso da chamada “Abin paralela” não é uma perseguição contra Bolsonaro.

“O governo brasileiro não manda na Polícia Federal, muito menos o governo manda na Justiça. Ou seja, você tem um processo de investigação, você tem decisão de um ministro da Suprema Corte que mandou fazer busca e apreensão sobre suspeita de utilização com má-fé pela Abin, dos quais o delegado que era responsável era ligado à família Bolsonaro”, afirmou.

O mandatário aproveitou para criticar seu antecessor. “Acho que cidadão que está acusando ele foi presidente da república, ele lidou com a PF, ele tentou mandar na PF, ele trocava superintendente a bel prazer sem nenhum respeito ao que pensava próprio diretor da PF, ao ministro da Justiça.” (Camila Zarur, Marianna Holanda, Victoria Azevedo e Matheus Teixeira)

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