“Como se fosse a casa” estreia hoje na Capital

A performance partiu de um interesse comum em reavivar a noção de presença material e coletiva distorcida pela condição de isolamento social

25 de janeiro de 2024 às 5h08

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Crédito: Vinicius Carvalho

“Como se fosse a casa”, novo trabalho da pesquisadora da voz e atriz Ana Hadad, estreia hoje na 49ª Campanha de Popularização do Teatro e da Dança. A peça ficará em cartaz até 4 de fevereiro, de quinta-feira a domingo, às 20h, no Centro Cultural Casa da Voz (rua Raul Pompéia, 111, São Pedro), com ingressos a R$ 30,00 (inteira) e R$ 15,00 (meia) na bilheteria e a R$ 25 nos postos do Sinparc, site e aplicativo Vá ao teatro MG.

Em cena, uma experiência de convívio, entre público e performer, com elementos autobiográficos e poéticos, ambientados na casa onde avó e avô da atriz moraram a partir dos anos de 1940.

Quando a artista Ana Hadad convidou a atriz, dramaturga e diretora Eduarda Fernandes para conduzir, junto ao preparador corporal Rafael Batista e a preparadora vocal Michele Bernardino, o processo de criação de uma performance solo, em 2021, partiu se de um interesse comum em reavivar a noção de presença material e coletiva distorcida pela condição de isolamento social vivenciada na pandemia da Covid-19.

As manifestações cênicas que têm como disparador o extenso campo autobiográfico se valem no exercício de coletivizar questões pessoais como: de que forma nos relacionamos com aqueles que adentram nossa(s) casa(s), que tipo de celebrações são importantes na nossa vida e como realizá-las, o que é ser um bom anfitrião, quais são os rituais ou protocolos necessários para se receber alguém, como nos relacionamos com quem cruza nossos caminhos e quais são as margens de intimidade que permitimos estabelecer em cada encontro.

A socialização da experiência da intimidade no território compartilhado do teatro ergue-se, então, como uma superfície de espelhos, arbitrária à identificação de quem assiste; são parâmetros sentimentais que, de tão elementares, se tornam universais.

Como dramaturga, ou “montadora dramatúrgica”, Eduarda Fernandes foi responsável por dar forma a essa pretensão autobiográfica e confundi-la com temas extra pessoais: os depoimentos e arquivos compartilhados associam-se a outros materiais sob o mesmo recorte temático, recriando significados, deslocando sentidos ou mantendo-os arraigados à origem.

Um trabalho de composição que, por si só, configura um processo de ficcionalização. Depois de estruturado o texto, Ana foi convidada a olhar novamente para si, traduzida pelas palavras de outrem: estranhas pela forma, mas substancialmente familiares pelo conteúdo. Toda apresentação, atriz e espectadores compartilham a responsabilidade de receber uma pessoa convidada; são co-anfitriãs de um evento ainda sem nome, mas com endereço, dia e horário. Em conjunto, devem trazer à luz do território cênico a singularidade desse a que chega e desestabiliza os acordos estabelecidos até então. O passado biográfico, como tempo referencial esterilizado pela imutabilidade, serve para localizar, espacial e afetivamente, o território no qual os encontros acontecerão.

A encenação, por sua vez, não é representativa, não busca reproduzir esse ambiente, deixando esta uma tarefa para a potência imagética das palavras e para a habilidade imaginativa do espectador. “Assim, procuramos criar um espaço-ritual, incorpóreo e invisível, que evidenciasse as possibilidades de convívio entre atriz, espectador e convidado. A teatralidade, no entanto, está presente nas formalidades gestuais, nos códigos visuais, nas paisagens sonoras e na especificidade das relações em cena”, explica.

Neste espaço memorado, a atriz reflete, entre outras coisas, sobre o nascimento, a vida e a morte: ciclo inerente à experiência de vida humana (e não humana), e no qual nos apoiamos para proporcionar encontros de toda sorte. Para explorar esse tema universal e inesgotável, a dramaturgia sobrepõe elementos antagônicos como forma de, pela oposição, evidenciar suas funções complementares. São eles: chegada e despedida; presença e ausência; morte e vida; pessoalidade e coletividade; memória e acontecimento.

Ana Hadad é pesquisadora do trabalho vocal de atores e cantores, atriz, e diretora cênica. Sua pesquisa busca abordagens vocais que permitam uma expressão cênica natural e impregnada de presença, além de um tratamento vivo e dinâmico do texto falado e cantado. Eduarda Fernandes é atriz, formada pelo Centro de Formação Artística e Tecnológica (Cefart) do Palácio das Artes, em 201. É cofundadora e integrante do grupo Quartatela e transita entre práticas do teatro, cinema, dança e educação. Nesta última categoria, coordena e ministra aulas pela Iniciativa Caminante, projeto de arte-educação direcionado à educação básica.

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