Exposição das obras de Roseno estreia no CCBB

O artista usava sobras e lixo para criar sua poesia

23 de janeiro de 2024 às 5h08

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Crédito: Divulgação/CCBB BH

O Centro Cultural Banco do Brasil Belo Horizonte (CCBB BH) abre amanhã a exposição “A.R.L. Vida e Obra”, que se aprofunda na produção de Antônio Roseno de Lima. O artista de Alexandria (RN) morou na favela Três Marias, em Campinas (SP), até a sua morte, em junho de 1998. A.R.L., como assinava nas pinturas, coloria seu barraco com obras comoventes, que partiam de materiais precários, a maioria encontrada no lixo. A curadoria da exposição é de Geraldo Porto, artista plástico e professor doutor do Instituto de Artes da Unicamp. A exposição tem estreia nacional em Belo Horizonte e depois segue para os centros culturais Banco do Brasil em Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro.

Roseno não recebeu o devido reconhecimento em vida, participando de poucas exposições, sendo a primeira individual na Casa Triângulo (SP) em 1991, seguida pela coletiva “A pintura em Campinas: o contemporâneo no Centro de Informática e Cultura”, em 1992.  Ainda fez uma individual na Cavin Morris Gallery, em Nova York, em 1995. Apresentado por jornais como favelado, semianalfabeto e doente, A.R.L. reagiu a tais rótulos escrevendo em vários quadros, em letras garrafais: “Sou um homem muito inteligente”.

“A exposição demonstra a sensibilidade de Roseno frente ao cotidiano. Seus trabalhos parecem partir de uma necessidade de estabelecer uma relação prazerosa com o mundo”, ressalta o curador. Nas obras, as diversas aspirações do artista são representadas, uma delas se repete em toda a sua arte: “Queria ser um passarinho para conhecer o mundo inteiro!”. Alguns dos sonhos de A.R.L. são concretizados nas pinturas: a casa bonita, colorida, com luz elétrica, o prédio moderno e a fábrica onde almejava trabalhar.

Apesar da extrema pobreza e falta de reconhecimento, na arte, Roseno encontrava espaço para se expressar e sonhar, de forma livre, criativa e surpreendente. “Sua força primitiva e selvagem preenchiam um vácuo no círculo artístico, em que a arte moderna virava instituição, academicizava-se. Ele tinha uma liberdade de fazer o quisesse que ninguém tinha; inventando e tentando, esse artista brasileiro procurou no lixo a matéria de sua poesia”, comenta Geraldo Porto.

Os materiais utilizados pelo artista vão de pedaços de latas retirados dos entulhos a papelões, madeira e esmalte sintético das sobras das latas utilizadas para pintar portas. Quando gostava de algum desenho, ele recortava-o em latas de vários tamanhos para usar de modelo, utilizando-se também de outros materiais como a lã, que priorizava em época de frio.

As palavras eram parte de sua expressão poética, como uma espécie de signos herméticos expostos respeitando a anterioridade das figuras e evidenciando desconhecimento de regras gramaticais.

Seções

A série “O Bêbado” foi a primeira guardada por A.R.L. e o projetou internacionalmente como artista, pois estampa livros importantes como “L’Art Brut”, de Lucienne Peiry. Iniciada em 1975, inspirou-se em uma gravura de bares com o rosto de olhos embaralhados e alucinado pela bebida.

Na série “Recortes da Cidade” encontram-se muitas das aspirações de A.R.L., vividas apenas em sua imaginação e concretizadas em pinturas. O dinheiro, elemento da arte gráfica, aparece na obra de Roseno; notas fora de circulação estampavam, paradoxalmente, as paredes de seu barraco, numa espécie de brincadeira com o desejo de fama e fortuna: ele presenteava amigos com fotografias, nas quais trocava o busto por fotos suas e da companheira Soledade.

Na mídia e em uma coleção da Enciclopédia Escolar do Ensino Renovado, A.R.L. buscou inspiração para a sua galeria de notáveis (generalizados sob a categoria “Presidentes”). Na série “Personalidade”, retratou Afonso Pena, Nilo Peçanha, Marechal Deodoro, Getúlio Vargas, Almirante Tamandaré, Mário de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Atílio Fontana e Santos Dumont, seu maior ídolo). Também aqui se encontra o autorretrato, evidenciando seu desejo de reconhecimento social por figurar ao lado de personalidades.

A fotografia foi uma grande paixão para A.R.L.; quando começou a trabalhar na cidade de São Paulo, tinha um estúdio comercial seu, o qual foi mantido no interior, em Indaiatuba, e referenciado em suas pinturas mesmo depois de fechado por falta de recursos. Na série “O Fotógrafo”, as poses frontais e estáticas dos retratos pintados eram as mesmas poses paralisadas.

A série “Frutos, Flores e Animais” reúne composições ingênuas de campos floridos que surgiram na obra de A.R.L., quando ele comprou de um camelô um aparelho plástico para desenhar flores.

Uma imagem sobre a qual o artista também se debruçou foi a mulher. Sereias e Nossa Senhora Aparecida são grandes personagens femininas de Roseno, que estão reunidas na série “Mulheres Santas”.

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