Zema planeja continuar gestão empresarial em Minas Gerais

Se for reeleito, o governador pretende reequilibrar as contas do Estado por meio de privatizações

10 de maio de 2022 às 0h30

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Mesmo com o superávit em 2021, Romeu Zema adverte que a situação financeira do Estado ainda é desconfortável | Crédito: Thyago Henrique

Romeu Zema (Novo) foi eleito em 2018 com um discurso antipolítico. Falava da necessidade de reequilibrar as contas de Minas Gerais a partir da privatização das estatais Cemig, Copasa, Gasmig e Codemig, pautas que não saíram do papel, assim como a aderência ao Regime de Recuperação Fiscal, do governo federal.

O governador, candidato à reeleição em outubro, diz que os pleitos seguem no radar e que apenas não avançaram por incompatibilidade de interesses com o presidente da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), o deputado Agostinho Patrus (PSD) – possível adversário nas eleições de outubro, como candidato a vice-governador na chapa de Alexandre Kalil (PSD).

Em entrevista exclusiva ao DIÁRIO DO COMÉRCIO, Zema fala de assuntos pertinentes à economia de Minas Gerais, como a atração e efetivação de investimentos, bem como a diversificação dos setores produtivos no Estado, para além da mineração. Segundo ele, faz parte de sua estratégia de administração que indústria, serviços e agronegócio representem fatias cada vez maiores na economia mineira. 

Enquanto isso não ocorre, porém, segue precisando lidar com os desafios impostos pelo setor desde o primeiro mês de sua gestão à frente do Executivo mineiro, com o rompimento da barragem da Vale, em Brumadinho (RMBH). Agora, às vésperas da campanha à reeleição, enfrenta novo embate político e popular diante do complexo minerário da Taquaril Mineração S.A (Tamisa) na Serra do Curral. Zema garante que o governo, por meio da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) e do Conselho Estadual de Política Ambiental (Copam), fez uma análise puramente técnica, que precisa ser respeitada.

Ao avaliar os pouco mais de três anos à frente do Estado de Minas Gerais, o ex-empresário do varejo faz menção à administração privada na gestão da terceira maior economia do Brasil e diz que, caso reeleito, o trabalho será de continuidade. “Minha grande preocupação e meu grande foco é administrar bem o Estado. Encaro a eleição mais como consequência do que como objetivo. É como o resultado de uma empresa: se você atende bem, tem um bom produto ou um bom serviço, é provável que venha a ter um resultado adequado no seu negócio”. E, ao que parece, os resultados, de fato, começam a aparecer. Conforme o governador, a situação financeira do Estado ainda é desconfortável, mas após mais de dez anos, Minas Gerais voltou a apresentar superávit em 2021.

Qual avaliação de sua gestão até aqui?

Para uma avaliação objetiva devemos considerar os indicadores de diversas políticas públicas e se pegarmos uma por uma, teremos algo que prezo muito: transparência. De acordo com a Controladoria Geral da União, nós éramos o 20º colocado neste quesito e já há dois anos somos o Estado mais transparente do Brasil. Isso demonstra que não temos o que esconder. Gestão boa é gestão transparente, porque se alguém está escondendo algo é para beneficiar, porque não está correto ou não atende a legislação. Avançamos neste ponto fundamental e também em todas as demais frentes. Na saúde, embora seja muito difícil comparar indicadores de um período pandêmico, o resultado também é positivo. Ficamos extremamente prejudicados em relação às cirurgias eletivas, já que foi preciso suspender 90% desses procedimentos, destinando os leitos para os pacientes com Covid, mas também temos o indicador que mostra que fizemos um trabalho bem acima da média do Brasil. Somos o estado do Sudeste, Sul e Centro-Oeste com a menor taxa de mortalidade. Isso, talvez, com a pior situação financeira, porque ter o melhor desempenho com dinheiro sobrando é uma coisa, com dinheiro faltando é outra. Na educação também evoluímos. O Estado teve um período de dez anos estagnado no Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) – que é a avaliação do Ministério da Educação e Cultura. Tivemos uma avaliação no final do meu primeiro ano de mandato, que não considerou todos os frutos das mudanças que efetuamos, mas que demonstrou que batemos recordes em português e matemática. Mas fomos além: reformamos mais de 1.300 prédios escolares; melhoramos a merenda escolar e a verba de manutenção e custeio das escolas. E mais recentemente criamos o programa Trilhas de Futuro que vai proporcionar reflexos muito positivos daqui a um ano, quando a primeira turma se formar. São mais de 140 mil profissionais ou jovens beneficiados fazendo curso profissionalizante em escola particular e com auxílio alimentação e transporte. Vamos formar uma mão de obra que vai fazer a diferença para o mercado mineiro.

E na segurança?

Na segurança é público e notório que nos transformamos no Estado mais seguro do Brasil no que diz respeito a crimes violentos. Temos assistido outros estados serem vítimas de ações do crime organizado e aqui em Minas já estamos há alguns anos livres deste movimento. Isso tem a ver com medidas que tomei desde que cheguei ao governo. Havia aeronaves do Estado que ficavam à disposição do governador e determinei que os aviões atendessem a demandas de todas as secretarias. Uma das últimas ocorrências, em Uberaba (Triângulo), um dos pontos que proporcionou prontamente uma reação foi a utilização de um avião a jato. Ou seja, houve uma mudança expressiva de cultura, disponibilizando os recursos do Estado para o serviço público e não para privilegiados como se prevalecia antes. Isso favoreceu também a área da saúde, onde o número de transplantes aumentou, porque antes não havia avião para transportar os órgãos, só para levar os bajuladores. Se é do Estado é para atender o público e não um grupinho de amigos do rei. Mas o maior avanço, sem dúvida, ocorreu na criação de oportunidades para os mineiros. Segundo dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), até março, conseguimos criar em Minas Gerais 467 mil empregos formais. E embora não haja uma estatística sobre os informais, sabemos que o ritmo acompanha. Isso significa basicamente 150 mil vagas por ano. Estamos falando de 3 anos e três meses de governo. Acreditamos nessa bandeira. Durante a pandemia e no período chuvoso distribuímos cestas, criamos auxílios emergenciais e ajuda contra enchentes, mas o que muda a vida das pessoas são renda digna e oportunidade de trabalho. Sem contar a atração de investimentos, não se compara com o volume atraído pela gestão passada, que atraiu R$ 26 bilhões em quatro anos. Nós, até o momento, já chegamos a R$ 212 bilhões. É bem provável que vamos concluir nossa gestão com uma atração 10 vezes maior que o governo anterior.

Qual a estratégia para tirar esses investimentos, de fato, do papel?

Muitos já estão funcionando e outros começarão em breve. Além do montante muito maior, a proporção dos projetos que saem do papel também é superior. Além disso, 20% desses projetos são de energia fotovoltaica e boa parte está instalada em regiões mais carentes. Inclusive, em Araçuaí (Vale do Jequitinhonha) eu conheci uma senhora que, aos 52 anos de idade, pela primeira vez trabalha com carteira assinada.  Numa região menos desenvolvida, carteira assinada é quase um artigo de luxo, enquanto para nós é corriqueiro. A vida de muitas pessoas está sendo transformada para melhor. E nada tem ficado engavetado, porque a quem vem investir em Minas eu passo o meu telefone e falo que se alguma coisa ficar parada na Secretaria da Fazenda, do Meio Ambiente ou da Vigilância Sanitária, que entre em contato comigo. Fazemos questão de dar um sim ou não para quem quer investir em Minas Gerais.

A diversificação econômica de Minas Gerais sempre foi perseguida pelos diferentes governantes que passaram pelo Palácio Tiradentes. O senhor diria que ela, enfim, está ocorrendo?

Está. Vamos ter cada vez mais uma participação maior de atividades não minerárias. Sabemos que o minério, qualquer que seja ele, com o tempo se esgota, por isso, encontrar uma nova vocação econômica para Minas Gerais é fundamental. Temos investimentos de mineração no meio desse montante, mas queremos que a participação desses projetos se reduza com o tempo. Talvez ainda não tenha ocorrido tanto devido ao aumento de preço do minério de ferro no mercado internacional e como a economia é medida não em toneladas, mas em valor, a participação ainda não tenha caído. Mas queremos que a indústria, o serviço e o agronegócio venham a representar cada vez mais para a economia mineira.

De toda forma, não há como dissociar Minas Gerais da mineração. Foi neste setor que o senhor enfrentou os grandes desafios da gestão: primeiro com o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho (RMBH) e agora com o polêmico projeto da Tamisa (Taquaril Mineração S.A) na Serra do Curral. Como avalia o projeto?

No meu primeiro mês de governo tivemos a tragédia de Brumadinho, que foi como uma luz vermelha, já que parece que a tragédia de Mariana havia sido interpretada como acidente. Porém, dois anos e meio depois ter outro, indicou imprudência, imperícia ou alguma coisa semelhante. Por isso tivemos a necessidade de tomarmos diversas medidas. De lá para cá, o monitoramento de todas as barragens no Estado passou a ser feito de maneira que, hoje, caso alguma delas venha a oferecer algum risco, vai ser sabido de antemão. Hoje há um monitoramento real, o que não acontecia no passado. Além disso, aprovamos a Lei Mar de Lamas, que elevou todos os critérios para qualquer empresa mineradora. Ainda assim, nosso tratamento é igual para todos que solicitam licença ambiental; se a empresa vai minerar ferro ou vai (minerar) manganês, independentemente de região, o que temos que fazer é analisar. Tenho conhecimento de que o empreendimento da Tamisa atende os requisitos. Inclusive foi analisado por um Conselho que tem pessoas de diversas entidades representantes da sociedade civil; sei que foi uma reunião extensa pelo tanto de gente que queria colaborar; e o que podemos dizer é que o governo fez a análise técnica. E, diferentemente do que se fala, a Serra do Curral está preservada. Não há mineração naquele monumento tão bonito e, se tivesse, eu mesmo seria a primeira pessoa a ser contra. O que essa mineradora, pelo o que me consta, tem, que fez com que os ânimos ficassem tão elevados, é que ela está próxima da região. Mas não vai afetar. Diversos órgãos como o Ministério Público Estadual e o Federal foram acionados e eles é que vão discutir o assunto daqui para frente. Temos de respeitar uma decisão técnica, mas se a maioria da população for contrária e (os órgãos) decidirem assim, que assim seja feito.

Quais os principais desafios para os próximos quatro anos, caso o senhor venha a ser reeleito?

Primeiramente teremos de ser bem-sucedidos no pleito eleitoral. Minha grande preocupação e meu grande foco é administrar bem o Estado. Encaro a eleição mais como uma consequência do que como um objetivo. É como o resultado de uma empresa: se você atende bem, tem um bom produto ou um bom serviço é provável que venha a ter um resultado adequado no seu negócio. Infelizmente no Brasil a gente vê uma parcela expressiva da classe política só pensando em voto, como se as pessoas comessem votos, morassem em votos. Não, as pessoas precisam de moradia, de alimentação… Um eventual segundo mandato seria, de certa forma, uma continuação. Mas uma continuação mais efetiva. Porque um dos principais gargalos que tínhamos, as contas no vermelho, conseguimos equacionar no ano passado. Foi o primeiro ano de superávit depois de dez ou 12 anos, no Estado. Arrumamos a casa, equilibramos as contas. É aquela história: o trem estava descarrilado, o colocamos em cima dos trilhos e agora precisamos aumentar a velocidade. Isso é muito mais fácil do que ter de colocá-lo em cima dos trilhos novamente. O governo está organizado e o caminho é continuarmos melhorando a educação e a saúde. Já temos grandes investimentos previstos para a área, por meio dos hospitais regionais. Aprendi na gestão pública que é muito mais difícil reiniciar uma obra paralisada do que começar uma do zero, em função dos entraves, e esse é o caso dos hospitais regionais. A conclusão dessas obras será um marco para Minas Gerais. Também vamos colher os frutos do Trilhas de Futuro, na segurança também temos grandes investimentos que vão fazer com que melhore ainda mais. Isso faz com que a qualidade de vida de quem mora em Minas seja melhor e ainda ajuda a atrair investimentos. Vamos manter essa política de atração e, principalmente, inaugurar muita coisa que estamos anunciando agora. E continuar com essa política de austeridade, pois é ela que vai proporcionar a recuperação da nossa infraestrutura que ficou sucateada por tantos anos.

O que tem sido feito pela infraestrutura?

Temos alguns importantes exemplos. A Cemig (Companhia Energética de Minas Gerais) está levando adiante o maior programa de investimento da história da empresa: R$ 22 bilhões depois de anos distribuindo 100% do lucro a título de dividendos, fazendo investimentos ruins. A Cemig no nosso governo passou a investir em Minas e, com isso, vai levar energia trifásica para todos os micro e pequenos produtores rurais do Estado, proporcionando uma revolução no campo. Tivemos as concessões do Aeroporto da Pampulha e do Terminal Rodoviário Governador Israel Pinheiro (Tergip), que já vão começar a receber investimentos, assim como a Rota das Grutas Peter Lund. Há ainda os projetos para as rodovias. Eu que sempre viajei muito pelo Estado sei a diferença das estradas de Minas e de São Paulo ou do Espírito Santo. Por isso, recentemente lançamos o Provias, que prevê a recuperação de 2.500 mil quilômetros de estradas em pior situação.

Além do Provias, há algum outro pacote de investimentos para infraestrutura em elaboração pelo governo?

Estamos recuperando aquilo que estava mais crítico. Mas ainda há muita estrada que está longe de ser boa e que também precisará ser recuperada. Neste momento priorizamos as piores. É um trabalho que leva tempo porque estamos falando de uma malha viária de 27.000 quilômetros: não há recursos financeiros nem operacionais para fazer isso simultaneamente. Teremos um cenário de cinco ou seis anos de muito investimento na malha para deixá-la em situação aceitável. Para isso, o Provias terá várias ondas. O programa terá continuidade, pois queremos uma recuperação boa da nossa infraestrutura. Outro ponto que estamos trabalhando é na disponibilização de energia elétrica, outro gargalo. Já perdemos investimentos por essa questão e hoje já não acontece mais. O plano de investimento da Cemig, por exemplo, vai estruturar o Estado ainda mais, movimentar a economia, gerar empregos e desenvolvimento.

Em 2018 o senhor foi eleito sob o mote da privatização de estatais como Cemig, Copasa, Gasmig e Codemig. Os projetos pouco ou nada avançaram. O que houve? Eles vão voltar para o radar?

Vão. Vale lembrar que esses projetos estão na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG); o que não depende do Legislativo nós conseguimos avançar, como foi o caso da Light, empresa que alienamos no ano passado, como uma boa negociação por sinal. Vamos levar adiante e tendo uma Assembleia renovada, principalmente o presidente da Casa, com certeza essas pautas serão, pelo menos, analisadas. Porque elas não foram sequer analisadas, nem chegaram ao plenário. Mas, infelizmente, temos lá hoje um presidente que é nosso concorrente político e, para ele, parece que o cenário do quanto pior melhor é o que prevalece. No ano que vem a história com toda certeza vai ser diferente.

A situação financeira do Estado ainda é crítica? Qual a situação do ingresso ao Regime de Recuperação Fiscal? O senhor vê avanço ainda neste ano, mesmo com eleição?

A situação financeira do Estado ainda é desconfortável. Minas Gerais ter um superávit de R$ 100 milhões é a mesma coisa que nada; mesma coisa que uma pessoa no final do ano falar que conseguiu juntar R$ 100. É muito pouco. Mas para quem todo ano estourava em R$ 10 bilhões, foi um avanço significativo. E este ano teremos um desembolso extra de R$ 4 (bilhões) ou R$ 5 bilhões devido ao aumento de 10% que concedemos de reajuste geral. Por isso, o Regime de Recuperação Fiscal continua em pauta. Mas assim como as privatizações, sequer foi analisado. Na minha opinião, quem está no Parlamento precisa pelo menos analisar as propostas que recebe. Se não faz isso, me parece claramente uma sabotagem com quem está enviando. Poderia ser, ao menos, votado e reprovado, mas nem analisado foi. Esperamos ter uma Assembleia mais responsável no próximo mandato. Aliás, não a Assembleia toda, mas um presidente, que é quem determina. Tivemos a infelicidade de ter um presidente com uma pauta pessoal colocada acima da pauta dos 21 milhões de mineiros.

Por falar na ALMG, há quem diga que a relação do senhor com a Casa não é das melhores desde o início do mandato. É possível reverter isso caso seja reeleito ou terá que continuar governando em meio a embates? Já há uma definição sobre o candidato a vice-governador? Há possibilidade de ser alguém de outro partido, justamente, para aliviar essa tensão com o Legislativo?

Com relação ao vice, tudo vai depender do que vai acontecer nos próximos dois meses com relação às costuras partidárias e políticas, que está sendo conduzida pelo secretário de Governo Igor Eto. E sobre a Assembleia, nosso relacionamento é até bom. O problema, vamos deixar claro, é o presidente. Ele é o provável candidato a vice-governador na chapa adversária e tem uma pauta pessoal acima dos interesses do Estado. O grande problema reside na pessoa dele e não na ALMG. O que estamos fazendo é melhorar a vida dos mineiros, o que provamos com dados. Já o trabalho do atual presidente da Casa visa um projeto pessoal de poder e não o bem para Minas Gerais.

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